BENDITA AQUELA QUE ACREDITOU! UMA REFLEXÃO SOBRE A FÉ E A ESPERANÇA


 
ASPECTOS INTRODUTÓRIOS

Que fim conheceu aquela que é venerada como a obra perfeita da criação e redenção: Maria, a Mãe de Deus? A fé sempre intuiu que o fim aqui não pode significar apenas o termo ou a conclusão de uma vida, mas também o arremate e culminância de vida. Por isso o fim de Maria não pode ser circunscrito pela morte. Se não nascemos para morrer, mas morremos para ressuscitar, então, mais do que nunca, o fim de Maria deve ter sido a ressurreição e a glorificação no céu, como declarou Pio XII como verdade infalível da fé católica no dia 1º de novembro de 1950 ao dizer que “a Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, terminado o curso de sua vida terrestre, foi assunta em corpo e alma à glória celeste”

É uma ocasião para nos elevarmos com Maria às alturas do espírito, onde se respira o ar puro da vida sobrenatural e se contempla a beleza mais autêntica: a da santidade.

DESENVOLVIMENTO

Aprofundemos o conteúdo de nossa proclamação de fé: professamos que Maria está em corpo e alma no céu acentuando especialmente a glorificação corporal de Maria, uma vez que o corpo é mortal, frágil, opaco, pesado, sujeito a limitações e doenças. Esse corpo, assim, estigmatizado é transfigurado; ele não é mais um muro que esconde a interioridade e impede o acesso ao coração dos outros e ao mundo pois agora ele é porta de acesso à comunhão e transparência: Porta do Céu. Nos dizeres de Bento XVI: “Maria é a primícia da humanidade nova, a criatura em que o mistério de Cristo: encarnação, morte, ressurreição e ascensão ao Céu já teve o seu pleno efeito, resgatando-a da morte e levando-a de corpo e alma ao reino da vida imortal. Por isso a Virgem Maria, como recorda o Concílio Vaticano II, constitui para nós um sinal de esperança segura e de consolação (cf. Lumen gentium, 68). A festa hodierna impele-nos a elevar o olhar ao céu. Não se trata de um céu feito de ideias abstratas, nem sequer de um céu imaginário criado pela arte, mas do céu da realidade autêntica, que é o próprio Deus: Deus é o céu. E Ele é a nossa meta, a meta e a morada eterna, de onde vimos e para a qual tendemos”. A Assunção é o definitivo encontro da Mãe com o Filho!

Como disse São Paulo, na 2ª Leitura: “em Cristo todos reviverão. Porém, cada qual segundo uma ordem determinada: Em primeiro lugar, Cristo, como primícias; depois, os que pertencem a Cristo, por ocasião da sua vinda."

Entre aqueles que são de Cristo há uma pessoa que “é de Cristo” de um modo único e impressionante: sua Mãe, a Virgem Santíssima, aquela que o gerou como homem, que viveu com ele, partilhando a oração, as alegrias, os trabalhos e, sobretudo, ficando ao seu lado aos pés da Cruz. Para essa criatura, Jesus não esperou o fim dos tempos para uni-la a si na glória, mas imediatamente após a sua morte ela foi ao céu, estando “junto a Deus”, participando de sua condição de ressuscitado. Cumpre-se, portanto, aquilo que fora relatado por Lucas: “eis que agora as gerações hão de chamar-me de bendita [...] Seu amor, de geração em geração, chega a todos que o respeitam.” Esta universalidade é projetada não só no sentido temporal, mas no sentido salvífico: todos, sem discriminação, tornando-se visível por meio de uma variação terminológica crucial: a expressão que vemos como “seu amor”, ou seja, o amor de Deus é oriunda do termo hebraico hesed, de difícil tradução para o português. Geralmente traduz a palavra por “misericórdia”. A Septuaginta e a Vulgata de São Jerônimo permanecem na mesma linha: a 1ª com o termo ἔλεος (“misericórdia”) e a 2ª misericórdia, em latim. Duas vezes (em Ester) ela usa charis (“graça”). Martinho Lutero usou a palavra gnade (“graça”) no lugar de hesed, assim como fez com a palavra charis no Novo Testamento. Snaith preferiu usar o termo “amor da aliança”. Assim sendo, “misericórdia” de Deus, aqui, não se trata de uma piedade paternalista, mas sim, da hesed bíblica, a amizade leal do Deus da Aliança para com seu povo, estendendo a Nova Aliança a todos. Assim sendo, a glorificação de Maria é também a nossa: é uma realidade nova e definitiva que Maria sente em si mesma e a proclama, estando na glória, aquilo que um dia vamos viver! Mas qual é o caminho para isso?

Assim diz a Oração da coleta de hoje: “Deus eterno e todo poderoso, que elevastes à glória do céus em corpo e alma a Imaculada Virgem Maria, Mãe do vosso Filho, dai-nos viver atentos às coisas do alto, a fim de participarmos da sua glória”.

É necessário estar “atentos as coisas do alto”, esta é a condição. Contudo, o que consiste essas “coisas do alto”? É a consciência de que a nova Eva seguiu o novo Adão no sofrimento, na Paixão e deste modo, também na alegria definitiva. Cristo é a primícia, mas a sua carne ressuscitada é inseparável da carne da sua Mãe terrena, Maria, e nela toda a humanidade está envolvida na assunção a Deus, e com Ela toda a criação, cujos gemidos e sofrimentos são, como diz São Paulo, as dores do parto da nova humanidade. Nascem assim os novos céus e a nova terra, onde já não haverá pranto, nem lamentações, porque não haverá mais morte. Como Ele, juntamente com Ele, partiu deste mundo voltando "para a casa do Pai" (cf. Jo 14, 2). E tudo isto não está distante de nós, como talvez pudesse parecer num primeiro momento, porque todos nós somos filhos do Pai, de Deus, todos nós somos irmãos de Jesus e todos nós somos também filhos de Maria, nossa Mãe. E todos nós estamos orientados para a felicidade. A felicidade para a qual todos nós tendemos é Deus, e assim todos nós estamos a caminho daquela felicidade, que chamamos Céu, que na realidade é Deus por meio da ressurreição! É mediante a ressurreição que este elo é estabelecido.

Assim diz Lucas: “Bem-aventurada aquela que acreditou, porque será cumprido, o que o Senhor lhe prometeu”.

A atitude primeira é acreditar, crer! Crer na ressurreição, no mundo novo, no Reino de Deus. Porém, o que é crer?  Muitas vezes no meio popular a palavra Fé é usada como sinônimo de acreditar, ou então confiar, levando assim a uma redução da palavra Fé, pois se ela consiste nisso, um idólatra poderia muito bem ter Fé, pois o mesmo acredita em algo, contudo, Fé é a abertura do intelecto à Deus de modo que há uma relação entre Fé e acreditar pois a credulidade é a condição para a Fé, por isso que crer é fundamentalmente a atitude de quem permitiu ser tocado por Deus. É atitude do discípulo, que no exercício da escuta, despertou o sentido de obedecer ao convite do Senhor para uma nova vida e para testemunhar a sua mensagem de alegria. Maria é modelo e sinal para a Igreja!

Contudo, como acreditar no Reino de Deus, na promessa da Aliança operada por Jesus, em um mundo melhor, com os ideais já constantemente defendidos e rememorados vivendo na sociedade atual impregnada pela ânsia de uma superação das esperanças sociais da violência, fome, educação, dignidade humana e outros inúmeros fatores? O filósofo marxista Ernest Bloch procurou resolver essa questão ao teorizar o “Princípio da Esperança”, que, por meio desta, as contradições entre o eu e o ser pessoal do ser humano; o indivíduo e a sociedade e a humanidade e toda a natureza seriam sanados quando o homem atingisse o fim de suas contradições por meio da antropologia marxista ou seja, quando a sociedade tirar do ser humano os cuidados econômicos, políticos e sociais, e a produção universal começar a se regular por si mesma, surgirá o “Reino de Liberdade”. Porém, o Teólogo alemão Moltmann a contrasta com o “Teologia da Esperança” estabelecendo assim um caminho promissor uma vez que essa concepção, tão arraigada na sociedade moderna é insuficiente

Ao criticar o “Princípio da Esperança” de Bloch, Multmann escreve: “A pátria da Liberdade não surge com o fim das contradições no ser humano, e entre o ser humano e a natureza, mas somente quando a morte e nihil não mais existirem. Somente quando a morte for engolida na vitória”.

Assim sendo, o “Princípio da Esperança” torna-se insuficiente pois mesmo se a “Pátria da Liberdade” fosse alcançada, o nihil apareceria novamente uma vez que o homem é um ser de transição situado no intermédio do transcendente e do imanente e por isso o nada aparece novamente na “dor infinita do negativo”, não mais identificado como fome, miséria e privação de direitos, mas agora incompreensivelmente com o tédio, o fastio de viver, o sentimento de absurdo de todas as coisas, tornando-se assim o homo absconditus pois, como prometeu a ideologia marxista juntamente com Feuerbach ao homem total: tudo tornou-se possível, a imanência fora alcançada, mas ainda habita um nihil interior e, então, o “Homem total”, produzido pela ideia comunista como uma “permanente realidade” se torna a figura do “homem sem qualidades” de Musil que se afogará nas suas ilimitadas possibilidades porque em nenhuma parte encontra a necessidade, pois todas as utopias de esperança trazem em si a destruição e o tédio. Eis o retrato do homem pós-moderno, de um dos efeitos daquilo que a psicanálise chamará de a “Terra dois”, ou seja, a resolução tornou-se o problema!

Este é o cenário que o cristão está permeado, quer ele queira ou não, é nesse domínio social que ele deve exercer sua existência e lutar para não ser submetido a ela por meio do testemunho cristão, acreditando na promessa da Aliança e no Reino de Deus, sendo que o ato de crer só é possível mediante a abertura operada pela Fé, do qual a virtude Teologal da Esperança surge como um mecanismo de fazer com que o cristão se mantenha fiel as coisas do alto, à Promessa da Aliança, ao Reino de Deus e possa ver realizado nele aquilo que em Maria fora e a Assunção recorda: a glorificação de seu corpo, pois como escreveu Multmann: “esperança das esperanças é a vitória sobre a morte”. Tão pungente é o poder da Esperança que nos últimos anos, autores tem se dedicado ao estudo dela, tornando-se um dos principais pilares da Psicologia Positiva, teorizada por Martin Seligman.

Disse Victor Hugo: “A esperança seria a maior das forças humanas, se não existisse o desespero”.

            Com efeito, o desespero é inerente ao homem, fazendo-nos, muitas vezes errar quando tentamos acertar. Como é grandioso o mistério de amor que hoje se propõe! Cristo venceu a morte com a omnipotência do seu amor. Só o amor é omnipotente. Este amor impeliu Cristo a morrer por nós e assim a vencer a morte. Sim, unicamente o amor faz entrar no reino da vida! E Maria entrou após o Filho, associada à sua glória, depois que foi associada à sua paixão. Entrou com um ímpeto irrefreável, conservando depois de si mesma o caminho aberto para todos nós. É por isso que no dia de hoje a invocamos. "Porta do céu", "Rainha dos anjos" e "Refúgio dos pecadores". Sem dúvida, não são os raciocínios que nos fazem compreender estas realidades tão sublimes, mas sim a fé simples, pura, e o silêncio da oração que nos põe em contacto com o Mistério que nos ultrapassa infinitamente. A oração ajuda-nos a falar com Deus e a sentir como o Senhor fala ao nosso coração, por isso, que a Virgem Maria conceda hoje o dom da sua fé, a fé que nos faça viver já nesta dimensão entre o finito e o infinito, a Fé que extingue o nosso desespero, a fé que transforma também o sentimento do tempo e do transcorrer da nossa existência, aquela fé na qual sentimos intimamente que a nossa vida não se encontra encerrada no passado, mas orientada para o futuro, para Deus, aonde Cristo e, depois dele, Maria nos precederam, de modo que também possamos ouvir: “bendito aquele que acreditou, porque será cumprido, o que o Senhor lhe prometeu”.

                                                                                                                         

 

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