TOMANDO AS RÉDEAS DE SI MESMO (QUARTA-FEIRA DE CINZAS)
ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
Hoje
a Santa Mãe Igreja nos propõe o inicio do tempo da Quaresma e com ele, uma nova
motivação espiritual para os nossos dias, para a nossa vida por meio de alguns
símbolos, dentre eles, as cinzas que tem o objetivo de recordar a nossa
condição frágil e finita, ou seja, de que a nossa vida não passa de um
brevíssimo segundo. A realidade de que somos pó e ao pó vamos voltar. A mesma
Igreja nos ensina que dado essa nossa fragilidade, temos a urgente necessidade
de voltar os nossos corações para o Senhor, redirecionar a nossa vida para
Deus, lugar este que ela nunca deveria ter saído, mas que por nossa
desobediência, distanciamos dele. O Jejum, a Esmola e a Oração são o caminho
seguro para voltarmos ao Senhor.
ESTRUTURA PANORÂMICA.
A Primeira Leitura nos recorda um contexto dramático: a praga que haveria de cair sobre Israel e de que esta seria o sinal do Dia do Senhor. Contudo, muito maior do que a força da profecia é a força da oração motivada pelo arrependimento.
Permanecendo na mesma esteira, o Evangelho reforça a necessidade do arrependimento, mas que este não deveria ser manifestado para a aprovação dos homens, mas em segredo, somente com Deus.
A segunda Leitura dispõe da condição final do ser humano: a abertura do coração para a ação de Deus.
Portanto, as 3 leituras marcam expressivamente o espírito desse tempo quaresmal. A forma que devemos proceder: agir por meio do obscurantismo, “às escondidas”, do sigilo, evitando-se a aprovação dos homens e a ostentação de religiosidade. Nós somos chamados a viver este tempo com recolhimento e de forma reservada.
DESENVOLVIMENTO
Contudo,
por que a Igreja nos chama a viver esse tempo dessa forma? Porque somos
chamados a buscar um isolamento, uma interiorização maior? Pois bem, Jesus é
muito claro no Evangelho de hoje ao trazer a doença pela qual o silêncio e a
humildade são os remédios: “não
toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas sinagogas e nas
ruas”. Hipocrisia, soberba, ostentação. Ouviremos
muito essas palavras essa noite, pois são estas as doenças que Jesus quer
combater por meio do recolhimento.
Porém, é interessante recordar
que essa forma de tratar a oração, a vida de Igreja não era algo novo no
Evangelho, mas já estava presente muito antes de Jesus, como bem recorda a 1ª
leitura ao dizer: “Voltai para
mim com todo o vosso coração, com jejuns, lágrimas e gemidos; rasgai o coração,
e não as vestes; e voltai para o Senhor, vosso Deus”. Em nossos dias esse ato fica meio distante,
mas para a Jerusalém de Joel, rasgar as vestes era um sinal de arrependimento
ou indignação. Uma demonstração pública, exterior. Mas muito mais eficaz era o
rasgar de um coração contrito, verdadeiramente arrependido, que não se limita
somente aos sinais do corpo mas chega até a alma, até o profundo do nosso
coração, pois ela precisa retornar para o Senhor, o Deus eterno e todo poderoso
pois a vida, a alma daquele povo pertencia a Ele, porém, a idolatria, adultério
e apostasia os tinha afastado dos caminhos do Senhor. Assim compreendemos o
Salmo de hoje quando diz: “Misericórdia,
ó Senhor, pois pecamos. Tende piedade, ó meu Deus, misericórdia! Na imensidão
de vosso amor, purificai-me! Lavai-me todo inteiro do pecado, e apagai
completamente a minha culpa!”. É o reconhecimento de
alguém que necessitava que seus pecados fossem apagados, que ele mesmo fosse
lavado e assim, inteiramente purificado. Percebam a resposta: é o resultado de
uma purificação completa, por dentro e por fora. Verdadeira!
Então significa que não importa
que venhamos à Missa? Que rezemos o Terço? Que jejuemos? Que nos mortifiquemos
e não comamos carne? Não, queridos irmãos, definitivamente não. Uma coisa não
anula nem substitui a outra, mas como vimos até o presente momento, se
completam.
O Evangelho nos mostra isso de
forma mais objetiva. Quando praticamos os ensinamentos de Deus somente
exteriormente, significa que eles ainda não penetraram em nosso coração.
Significa que ainda estamos praticando a nossa justiça na frente dos homens,
somente para sermos vistos por eles e assim, não receberemos a recompensa
reservada nos céus. Podemos até ser respeitados pelos homens, mas não por Deus.
“Por isso, quando deres
esmola, não toques a trombeta diante de ti, como fazem os hipócritas nas
sinagogas e nas ruas, para serem elogiados pelos homens. Muitos são os significados desse ato, mas trago um curioso e didático:
existia uma prática entre os fariseus, de que, ao dar esmolas, tocassem uma
trombeta com a dupla finalidade de atrair os pobres e as pessoas. Muitas vezes
deixavam de fazer isso em ruas estreitas e menos movimentadas e eram conduzidos
a ruas largas, que a tradução nos traz como as praças que vemos no Evangelho.
Os hipócritas replicavam, repetiam coisas sérias de forma fingida. Assim, eram
como que atores em uma peça de teatro, profanavam a prática religiosa com atos
vazios.
Então, fica a nós uma pergunta,
por que jejuamos, nos abstemos de carne, nos penitenciamos na Quaresma? Para
responder a esta pergunta, o Espírito me recordou duas coisas: Padre Antonio
Vieira e o cantor Geraldo Vandré.
No seu Sermão do Domingo da Ascensão, o Padre Antonio Vieira, em 1655, na Igreja da Misericórdia de São Luís do Maranhão, disse o seguinte:
" A mim, a imagem dos meus
pecados me comove muito mais que essa imagem do Cristo crucificado. Diante
dessa imagem do Cristo crucificado eu sou levado a ensoberbecer-me por ver o
preço pelo qual Deus me comprou. Diante da imagem dos meus pecados é que eu me
apequeno por ver o preço pelo qual eu me vendi. Por ver que Deus me compra com
todo o seu sangue, eu sou levado a pensar que eu sou muito, que eu valho muito.
Mas quando noto que eu me vendo pelos nadas do mundo, aí eu vejo que eu sou
nada. Eu valho nada."
E é exatamente por eu e você não
valermos nada e Cristo ter-se feito pecado por nós,
para que nele nós nos tornássemos justiça de Deus e assim, Deus que é nosso
Pai, ao olhar aquele desejo de Amor e arrependimento dos nossos pecados
internalizados no meu e no seu coração que Ele nos dspõe da Quaresma, para se
realizar aquilo que em 1966 Geraldo Vandré cantou:
“Na boiada já fui boi
Mas um dia me montei
Não por um motivo meu
Ou de quem comigo houvesse
Que qualquer querer tivesse
Porém por necessidade
Do dono de uma boiada
Cujo vaqueiro morreu
Porque gado a gente marca
Tange, ferra, engorda e mata
Mas com gente é diferente”
Com nossos inúmeros pecados o
Diabo nos colocou um arreio e um cabresto, montando sobre nós e fazendo de mim
e de você um boi no meio da boiada, conduzindo-nos muitas vezes por caminhos
que mesmo sem querer, íamos, deixamo-nos por ele ser conduzidos, achando que
não tivéssemos outra opção, mas isso tem de acabar, não por um motivo meu ou
seu ou de qualquer outro que nos acompanhe, mas por necessidade do dono dessa
boiada, cujo vaqueiro (aquele que verdadeiramente deve nos conduzir) morreu
numa Cruz: ao olharmos para a imagem do crucificado e tomarmos conta do valor
pelo qual fomos comprados, devemos lembrar que somos gente, FILHOS DE DEUS, e
que gado a gente marca, tange, ferra, engorda e mata, mas comigo e com você, a
partir da Cruz, Deus não quis assim, Deus quis agir diferente. Deixemos nos
reconciliar com Deus, pois “é agora o momento favorável, é agora o dia da
salvação”.


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