DA MANJEDOURA À CRUZ - SOLENIDADE DO NATAL DE NOSSO SENHOR, JESUS CRISTO
INTRODUÇÃO
A
liturgia deste dia convida-nos a contemplar o amor de Deus, manifestado na encarnação
de Jesus… Ele é a “Palavra” que Se fez pessoa e veio habitar no meio de nós, a
fim de nos oferecer a vida em plenitude e nos elevar à dignidade de “filhos de
Deus”.
A
primeira leitura anuncia a chegada do Deus libertador. Ele é o rei que traz a
paz e a salvação, proporcionando ao seu Povo uma era de felicidade sem fim. O
profeta convida, pois, a substituir a tristeza pela alegria, o desalento pela
esperança, por isso escutamos do Profeta: “Todos os confins da terra hão
de ver a salvação que vem do nosso Deus.!”.
A
segunda leitura apresenta, em traços largos, o plano salvador de Deus. Insiste,
sobretudo, que esse projeto alcança o seu ponto mais alto com o envio de Jesus,
a “Palavra” de Deus que os homens devem escutar e acolher, pois “Muitas
vezes e de muitos modos falou Deus outrora aos nossos pais, pelos profetas; nestes
dias, que são os últimos, ele nos falou por meio do Filho, a quem ele
constituiu herdeiro de todas as coisas e pelo qual também ele criou o universo.”.
Mas,
se a Palavra se fez carne é porque assim fez-se diálogo, logo, o que Deus tem a
nos comunicar? O Evangelho desenvolve o tema esboçado na segunda leitura e
apresenta a “Palavra” viva de Deus, tornada pessoa em Jesus. Sugere que a
missão do Filho/”Palavra” é completar a criação primeira, eliminando tudo
aquilo que se opõe à vida e criando condições para que nasça o Homem Novo, o
homem da vida em plenitude, o homem que vive uma relação filial com Deus, visto
que “A Deus, ninguém jamais viu. Mas o Unigênito de Deus, que está na
intimidade do Pai, ele no-lo deu a
conhecer”.
Contudo,
o que se esconde, tal como a pequenina imagem do Menino Jesus no início da
Missa de ontem, por detrás dessa divina liturgia? Creio que aquilo que é a
teologia de todo o Novo Testamento cujo sentido tem seu início com a Encarnação
do Verbo e seu divino Nascimento, ou seja, a manifestação de Deus no mundo, a
saída do Pai da Trindade Imanente para a Econômica na pessoa de Jesus Cristo,
ou seja, a Razão da Encarnação!
DESENVOLVIMENTO BÍBLICO: UMA TEOLOGIA DO NOVO
TESTAMENTO ATRAVÉS DO PRÓLOGO JOANINO
A
beleza deste Evangelho não cessa de tocar o nosso coração: uma beleza que é
esplendor da verdade. Não cessa de nos comover o facto de Deus Se ter feito
menino, para que nós pudéssemos amá-Lo, para que ousássemos amá-Lo, e, como
menino, Se coloca confiadamente nas nossas mãos. Como se dissesse: Sei que o
meu esplendor te assusta, que à vista da minha grandeza procuras impor-te a ti
mesmo. Por isso venho a ti como menino, para que Me possas acolher e amar.
Tal
Beleza deve ser transposta também na Beleza que consiste no nascimento do
Menino Deus e sabiamente a Igreja nos coloca o Prólogo Joanino para tal feito.
Para tanto, algumas características deste belo Hino que funcionava como uma Profissão
de Fé da Comunidade Joanina e que por ela circulava, valem a pena ser
ressaltadas, tais como o pungente início quando diz que “A Palavra se fez
carne”, logo mais, no meio de seu canto ao dizer que tal Palavra “armou
sua tenda entre nós” e por fim, aquilo que julgo ser a razão da
Encarnação e justificativa das duas sentenças anteriores: “A Deus,
ninguém jamais viu. Mas o Unigênito de Deus, que está na intimidade do Pai, ele
no-lo deu a conhecer”.
Para
tanto, se faz necessário um pequeno resgate do termo Palavra que São João
utilizará na escrita do seu Evangelho e que configura o Prólogo joanino: com
esse termo, o escritor sagrado evoca o sentido noético da palavra presente no
Antigo Testamento e que fora o principal elemento constitutivo da Revelação
Divina no primeiro bloco da Sagrada Escritura pois de fato, Deus se revela no
Antigo Testamento por meio da palavra que, por sua vez, a tradição sacerdotal
muito bem conservou no relato da criação contido no Gêneses; assim sendo, São
João procura dar um novo significado: da mesma forma que Adonai cria o universo
a partir da sua palavra (dabar em hebraico), em Jesus Cristo, a Revelação plena
de Deus Pai, aquilo que outrora fora revelado como palavra passou a ser o logos
e este logos se fez carne, se fez homem e armou a sua tenda entre nós, fez
morada! Uma morada tão significativa que também com esta Palavra há uma nova
criação assim como outrora ocorreu no Gêneses: a redenção do gênero humano é a
nova criação do homem que se dá através do Sacrifício da Cruz. Dessa forma,
compreende-se, em linhas gerais motivo pelo que São João utilizou a palavra
logos para se referir à Cristo e que posteriormente Santo Tomás utilizara a
verbum latina: enquanto o dabar hebraico contido em Gêneses expressa a força
criadora da palavra de Deus o logos grego contém seu significado contemplativo
que ambos serão sintetizados no verbum latino de Santo Tomás, por isso Verbum
caro factum est!
Para
tanto, com as palavras extraídas do Salmo, exprimo a seguinte sentença “A verdade
germinou da terra”. Realmente, no texto do Salmo, a frase está no
futuro: “A verdade germinará da terra»: é um anúncio, uma promessa,
acompanhada por outras expressões que, juntas, ecoam assim: “O amor e a verdade
vão encontrar-se. / Vão beijar-se a justiça e a paz. / A verdade germinará da
terra / e a justiça descerá do céu. / O próprio Senhor nos dará os seus bens /
e a nossa terra produzirá os seus frutos. / A justiça caminhará diante dele / e
a paz, no rasto dos seus pés» (Sal 85, 11-14).
Hoje
cumpriu-se esta palavra profética! Em Jesus, nascido da Virgem Maria em Belém,
encontram-se realmente o amor e a verdade, beijaram-se a justiça e a paz; a
verdade germinou da terra e a justiça desceu do céu. Com feliz concisão,
explica Santo Agostinho: “Que é a verdade? O Filho de Deus. Que é a terra? A
carne. Interroga-te donde nasceu Cristo, e vê por que a verdade germinou da
terra; (...) a verdade nasceu da Virgem Maria» (En. in Ps. 84, 13). E, num
sermão do Natal, afirma: “Assim, com esta festa que acontece cada ano,
celebramos o dia em que se cumpriu a profecia: “A verdade germinou da terra e a
justiça desceu do céu”. A Verdade, que está no seio do Pai, germinou da terra,
para estar também no seio de uma mãe. A Verdade que segura o mundo inteiro
germinou da terra, para ser segurado pelas mãos de uma mulher. (...) A Verdade,
que o céu não consegue conter, germinou da terra, para se reclinar numa
manjedoura. Para benefício de quem Se fez assim humilde um Deus tão sublime?
Certamente sem nenhum benefício para Ele mesmo, mas com grande proveito para
nós, se acreditarmos» (Sermones 185, 1).
“Se
acreditarmos…”. Que grande poder tem a fé! Deus fez tudo, fez o impossível:
fez-Se carne. A sua amorosa omnipotência realizou algo que ultrapassa a
compreensão humana: o Infinito tornou-se menino, entrou na humanidade. E, no
entanto, este mesmo Deus não pode entrar no meu coração, se não abro eu a
porta. Porta fidei! A porta da fé! Poderíamos ficar assustados com a
possibilidade desta nossa omnipotência invertida; este poder que o homem tem de
se fechar a Deus, pode meter-nos medo. Mas, eis a realidade que afugenta este
pensamento tenebroso, a esperança que vence o medo: a verdade germinou! Deus
nasceu! “A terra produziu o seu fruto” (Sal 67, 7). Sim! Há uma terra boa, uma
terra saudável, livre de todo o egoísmo e entrincheiramento. Há, no mundo, uma
terra que Deus preparou para vir habitar no meio de nós; uma morada, para a sua
presença no mundo. Esta terra existe; e também hoje, no ano de 2021, desta
terra germinou a verdade! Por isso, há esperança no mundo, uma esperança
fidedigna, mesmo nos momentos e situações mais difíceis. A verdade germinou,
trazendo amor, justiça e paz.
Ainda
sobre a Liturgia de Ontem, gostaria de fazer uma regressão à Noite Santa para
aprofundar nossa compreensão acerca deste Dia Santo. Vejamos que o Profeta nos
dizia que “Um menino nasceu para nós, um filho nos foi dado» (Is 9, 5).
Mas, esta locução “para nós” que nos
quer dizer? Que o Filho de Deus, o Bendito por natureza, vem fazer-nos filhos
benditos por graça. Sim, Deus vem ao mundo como filho para nos tornar filhos de
Deus. Que dom maravilhoso! Hoje Deus deixa-nos maravilhados, ao dizer a cada um
de nós: “Tu és uma maravilha”. Irmã, irmão, não desanimes! Estás tentado a
sentir-te como um erro? Deus diz-te: “Não é verdade! És meu filho”. Tens a
sensação de não estar à altura, temor de ser inapto, medo de não sair do túnel
da provação? Deus diz-te: “Coragem! Estou contigo”. Não o diz com palavras, mas
fazendo-Se filho como tu e por ti, para te lembrar o ponto de partida de cada
renascimento teu: reconhecer-te filho de Deus, filha de Deus. Este é o ponto de
partida de qualquer renascimento. Este é o coração indestrutível da nossa
esperança, o núcleo incandescente que sustenta a existência: por baixo das
nossas qualidades e defeitos, mais forte do que as feridas e fracassos do
passado, os temores e ansiedades face ao futuro, está esta verdade: somos
filhos amados. E o amor de Deus por nós não depende nem dependerá jamais de
nós: é amor gratuito. Esta noite não encontra outra explicação, senão na graça.
Tudo é graça. O dom é gratuito, sem mérito algum da nossa parte, pura graça.
Um
filho nos foi dado. O Pai não nos deu uma coisa qualquer, mas o próprio Filho
unigénito, que é toda a sua alegria. Todavia, ao considerarmos a ingratidão do
homem para com Deus e a injustiça feita a tantos dos nossos irmãos, surge uma
dúvida: o Senhor terá feito bem em dar-nos tanto? E fará bem em confiar ainda
em nós? Não estará Ele a sobrestimar-nos? Sim, sobrestima-nos; e fá-lo porque
nos ama a preço da sua vida. Não consegue deixar de nos amar. É feito assim,
tão diferente de nós. Sempre nos ama, e com uma amizade maior de quanta
possamos ter a nós mesmos. É o seu segredo para entrar no nosso coração. Deus
sabe que a única maneira de nos salvar, de nos curar por dentro, é amar-nos.
Não há outra maneira! Sabe que só melhoramos acolhendo o seu amor incansável,
que não muda, mas muda-nos a nós. Só o amor de Jesus transforma a vida, cura as
feridas mais profundas, livra do círculo vicioso insatisfação, irritação e lamento.
Um
filho nos foi dado. Na pobre manjedoura dum lúgubre estábulo, está precisamente
o Filho de Deus. E aqui levanta-se outra questão: porque veio Ele à luz durante
a noite, sem um alojamento digno, na pobreza e enjeitado, quando merecia nascer
como o maior rei no mais lindo dos palácios? Porquê? Para nos fazer compreender
até onde chega o seu amor pela nossa condição humana: até tocar com o seu amor
concreto a nossa pior miséria. O Filho de Deus nasceu descartado para nos dizer
que todo o descartado é filho de Deus. Veio ao mundo como vem ao mundo uma
criança débil e frágil, para podermos acolher com ternura as nossas fraquezas.
E para nos fazer descobrir uma coisa importante: como em Belém, também conosco
Deus gosta de fazer grandes coisas através das nossas pobrezas. Colocou toda a
nossa salvação na manjedoura dum estábulo, sem temer as nossas pobrezas.
Deixemos que a sua misericórdia transforme as nossas misérias!
Um
Filho nos foi dado, o próprio unigênito do Pai, Deus de Deus, Luz da Luz, Deus
verdadeiro de Deus Verdadeiro, gerado, não criado, consubstancial ao Pai! Por
isso Ele armou sua tenda entre nós e nós vimos a sua glória! Glória esta que
faz com que o Cristo seja a forma dei, a Gestalt gottes, a imagem do Pai entre
nós!
CONCLUSÃO
Contudo,
ainda resta uma questão, ao fazer-se carne, palavra, Deus se fez comunicável,
assim sendo, o que ele quer nos comunicar? Aquilo que é a própria natureza de
Deus: o Amor! Mas, se “Deus é Amor” como afirma São João, até onde
Deus pode ir quando ama? Aqui temos a total indefesa do amor absoluto, o
encontro entre a Manjedoura e a Cruz, possíveis somente através do Prólogo
Joanino: a contradição com este amor e, na em si, ele não pode e não quer
tolerá-lo, uma vez que chegar até o fim da verdade significa para o Filho,
responder adequadamente à autodoação total do Pai que, ao implicar diretamente
do drama da salvação, não significa de modo algum que a Trindade Imanente se vê
revestida de uma forma mitológica no destino do mundo, mas ao contrário, pois é
este que é elevado ao plano da Trindade Econômica, que segue fundada na
Imanente, enquanto que a distância eterna e santa do Filho em relação ao Pai no
Espírito é o fundamento de que a distância ímpia do pecado do mundo pode ser
assumida, remontada e superada naquela: o drama entre Deus e o mundo se
representa nos atos temporais do concreto acontecimento Cristo e de suas
consequências cuja maior expressão é a Cruz. O acontecimento da Cruz, portanto,
é um enfático e pungente julgamento do mundo e a respeito do juízo divino capaz
de tornar visível, proporcionar a percepção da verdadeira forma de Deus
mediante o crucificado: a Cátedra da verdade acerca de quem é Deus Pai, um Deus
de Amor onipotente pois é exatamente na ausência de poder que Jesus apresenta a
verdadeira face de Deus e seu poder: o Amor é o onipotente Amor de Deus. Eis
até onde Deus pode chegar quando ama: até o fim, a ponto de um simples ser
humano valor o sangue de um Deus, pois “tendo amado os seus que estavam no
mundo, amou-os até o fim” , em razão disso, a Cruz como julgamento mediante
suas palavras e acontecimentos expressam a kênosis da Crucifixão em que o peso
da Cruz mediante os paralelismos bíblico-teológicos a constituem, ou seja: pela
Cruz in laudem gloriae et vidimus gloriam eius, logo, a Cruz é a Cátedra da
Verdade, de quem é Deus Pai, um Deus de Amor onipotente.
Essa
é a Razão da Encarnação. Essa é a Razão do Natal e a causa que hoje celebramos.
Encerro com o auxílio da literatura de Rigueira, quando diz:
A tenda está arrumada.
Habitas no meio de nós.
Numa Manjedoura, está a Palavra encarnada
E o mundo já escuta a sua voz:
A Palavra que tudo criou,
O infinito que tudo formou,
A razão que tudo esclareceu,
O Amor que tudo renovou,
A Vida que tudo floresceu,
A Luz que as trevas dissipou,
Agora habita no meio da humanidade,
Para recriá-la com traços de divindade,
Para ensiná-la a viver plenamente,
Sendo humana, amando toda a gente.
Eis a razão da Encarnação:
Diante da criação corrompida,
Vens, e com tua vida, mostras a lição,
Para tornar pleno o sentido da vida”
Um Santo e Feliz Natal a todos!



Comentários
Postar um comentário