A LADAINHA TEM SUA IMPORTÂNCIA - XVII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO C
ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
Certa vez disse Soren Kierkegaard: “A função da oração não é influenciar
Deus, mas especialmente mudar a natureza daquele que ora”.
Pessoas que
tem uma imagem muito abstrata de Deus experimentam geralmente dificuldade com
oração de súplica. Acham bom rezar para adorar ou agradecer, mas para pedir que
Deus se ocupe com nosso dia a dia lhes parece metafisicamente ingênuo e
praticamente pouco atraente, pois torna Deus muito familiar. Mas aquele que
sustenta todo ser também não sustenta nosso dia a dia?
ESTRUTURA PANORÂMICA
A Primeira Leitura conta, de maneira popular, como
Abraão “pechincha” com Deus para que não destrua completamente o povo de Sodoma
e Gomorra. Parece até que Abraão lê a lição a Deus: “Não podes perder os justos
com os injustos, é uma questão de honra!”. E Deus atende. Por isso, o Salmo
Responsorial nos encoraja a pedir a Deus com toda a confiança “cada vez que te
invoquei, me deste ouvido”.
No Evangelho, Jesus ensina a pedir e a suplicar, até com
insistência. Lemos, primeiro, o texto do Pai-Nosso segundo Lucas, um pouco mais
breve que em Mateus, mas sem diferença quanto ao sentido. Depois em Lucas,
Jesus conta, com um toque de humor, a parábola do homem que em plena noite,
acorda o vizinho para pedir um pouco de pão para um hóspede que acaba de
chegar. Como o vizinho não atende logo, ele fica batendo até que o outro se
levante para se ver livre do incômodo. Deus, porém, atende não para se ver
livre do incômodo, mas porque é um Pai preocupado com seus filhos, aos quais dá
o pão de cada dia. E assim como no Pai-Nosso, depois de pedir o pão de cada
dia, pedimos também para não cair na provação do mal, Jesus ensina, na
continuação da parábola, que Deus não nos dará coisas que fazem mal.
DESENVOLVIMENTO EXEGÉTICO-TEOLÓGICO
É impressionante não somente o fato de Jesus nos ter
mandado rezar, nos ter ensinado a rezar, mas sobretudo, o fato de ele mesmo ter
rezado com muitíssima frequência. Basta recordar o início do Evangelho de hoje:
“Jesus estava rezando num certo lugar”. Nós sabemos que ele passava noites
inteiras em oração, que rezava antes dos grandes momentos de sua vida, que
morreu rezando.
Afinal, por
que rezar? Para nos abrir para Deus, para nos fazer tomar consciência dele com
todo o nosso ser, para que percebamos com cada fibra do nosso ser, do nosso
consciente e do nosso inconsciente que não nos bastamos a nós mesmos, mas somos
seres chamados a viver a vida em comunhão com o Infinito, em relação com o
Senhor. Sem a oração, perderíamos nossa referência viva a Deus, cairíamos na
ilusão que somos o centro da nossa vida e reduziríamos o Senhor Deus a uma
simples ideia abstrata, distante e sem força. Todo aquele que não reza, seja
leigo, seja religioso, seja padre, perde Deus, perde a relação viva com ele.
Pode até falar dele, mas fala como quem fala de uma ideia, de uma teoria e não
de alguém vivo e próximo, que enche a vida de alegria, ternura, paz e amor. Sem
a oração, Deus morre em nós. Sem a oração é impossível uma experiência
verdadeira e profunda de Deus e, portanto, é impossível ser cristão. Por tudo
isso, a oração tem que ser diária, perseverante e fiel.
Assim, quando
agradecemos, reconhecemos que tudo recebemos de Deus; quando suplicamos,
reconhecemos e aprendemos que dependemos dele e da sua providência; quando
intercedemos, aprendemos e experimentamos que tudo e todos estão nas mãos
amorosas de Deus; quando pedimos perdão, reconhecemos que nossa vida é vivida
diante dele e a ele devemos prestar contas da existência que recebemos.
Portanto, a oração nos abre, nos educa, nos amadurece, nos faz viver em
parceria com o Senhor.
Quanto aos
modos de rezar, são variados. A melhor forma é com a Sagrada Escritura: tomando
a Palavra de Deus, lendo-a com os lábios, meditando-a com o coração e
procurando vivê-la na existência. Tome diariamente a Bíblia, leia-a com fé,
repita as palavras ou frases que tocaram seu coração e derrame sua alma diante
do Senhor. Nunca esqueçamos que essa Palavra de Deus é viva e eficaz,
transformando a nossa vida e dando-lhe um novo sentido. Também é importante a
oração espontânea, com nossas palavras e a oração vocal, aquela decorada, como
o Pai-nosso e a Ave-Maria. Aqui, é bom recordar o terço, que tanto bem tem
feito ao longo dos séculos. Mas, a oração por excelência é a própria Missa. Aí,
de modo pleno, nós somos unidos à própria oração de Cristo, participando do seu
sacrifício pela salvação nossa e do mundo inteiro.
FINALIZAÇÃO
Encerro com um pensamento de Antoine de Saint-Exupéry: “A grandeza da oração
reside principalmente no fato de não ter resposta, do que resulta que essa
troca não inclui qualquer espécie de comércio”.
Portanto, a oração não
é uma negociata com Deus nem é para dobrar Deus aos nossos caprichos. É, antes,
para nos tornar disponíveis à vontade do Senhor a nosso respeito. Uma das
coisas muito belas da oração é que, tendo rezado e pedido, o que acontecer depois
podemos saber com certeza que é vontade de Deus! É nesse sentido que Nosso
Senhor afirmou que tudo quanto pedirmos em seu nome, o Pai no-lo concederá.
Ora, o que é pedir em nome de Jesus? É pedir como Jesus; “Pai, não se faça a
minha, mas a tua vontade”. Rezar assim é entrar no cerne da oração de Jesus.
Então, tudo que nos vier, saberemos que é vontade do Pai, pois sabemos que
nossa oração foi atendida; e nisto teremos paz.
Por fim, se
porventura em nosso vier a sensação de que aquilo que dizemos a Deus é uma mera
repetição, não nos acanhemos, ao contrário, tomemos como exemplo Abraão que
quase como uma Ladainha diante de Yaweh suplica ao mesmo que poupe os justos de
Sodoma. É mister ter em mente outro dado: se faz presente a súplica insistente
tanto na Primeira Leitura quanto no Evangelho evocando praticamente a imagem
daquela criança que plica à mãe quase que irritantemente puxando a barra de sua
saia. Não é atoa que Santo Agostinho certa vez disse que a Oração é a maior
força do homem e única fraqueza de Deus. Portanto, a Ladainha tem sua
importância.
Sem. José Demétrio de Camargo
3º ano de Teologia.



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