O PASTOREIO DE JESUS E A RESPONSABILIDADE AFETIVA

 

          IV DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO C

O PASTOREIO DE JESUS: A IMBRICAÇÃO ENTRE COMPAIXÃO E EMPATIA ATRAVÉS DA RESPONSABILIDADE AFETIVA

UMA TEOLOGIA BÍBLICA ACERCA DO BOM PASTOR

Quinta-Feira – 05/maio/2022


ESBOÇO:
- ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
Breve epistemologia do termo “Pastor e Pastoral”
- DESENVOLVIMENTO TEOLÓGICO-EXEGÉTICO
Uma Teologia Bíblica acerca do Bom Pastor
- ATUALIZAÇÃO
O pastoreio de Jesus: a imbricação entre compaixão e empatia através da responsabilidade afetiva
- CONCLUSÃO
Quem nós elegemos como Pastor de nossas vidas?

ASPECTOS INTRODUTÓRIOS - BREVE EPISTEMOLOGIA DO TERMO “PASTOR E PASTORAL”

  “Ai dos pastores que deixam perder-se e dispersar-se do rebanho de minha pastagem, diz o Senhor!”.

             Mas o que é um Pastor? É uma linguagem bíblica utilizada para se referir àqueles que tem alguma responsabilidade para com o povo, um grupo, uma comunidade, uma família ou mesmo alguém. Ao pastor, portanto, era confiado o cuidado das ovelhas, era o dono delas que lhes confiava aos seus cuidados, e este pastor, por sua vez, deveria cuidar delas como se fossem suas, protegendo-as e amando-as. O pastor relapso/descuidado/irresponsável não cuidava adequadamente das ovelhas e deixava que elas se perdessem ou fossem devoradas pelos lobos.

            É por isso que os grupos evangelizadores de uma paróquia recebem o nome de pastorais, ou seja, porque é através delas que a gente cuida das ovelhas de Jesus como se elas fossem nossas, ou então, não, se formos irresponsáveis para com as coisas de Deus no exercício do nosso ministério e então, a lamentações e gemidos de Jeremias na 1ª Leitura torna-se também os gemidos e as lamentação do próprio Deus em vista das almas dos fiéis em situação de abandono, que nós, como maus pastores, deixamos.

 

DESENVOLVIMENTO TEOLÓGICO-EXEGÉTICO - UMA TEOLOGIA BÍBLICA ACERCA DO BOM PASTOR

A imagem do pastor, conduzindo suas ovelhas às pastagens, era bem conhecida na Palestina, onde a sobrevivência de muitos dependia da criação de ovelhas e cabras.  O cuidado e a defesa das ovelhas tornavam o trabalho dos pastores exigente e perigoso (Gn 31,38-40). As relações entre pastor e rebanho eram associadas a Israel e seus dirigentes: o rei é encarregado por Deus de ser o pastor do povo.  Mas esta função é frequentemente mal exercida, de modo que o povo era “como ovelhas sem pastor” (1Rs 22,17; Zc 10,2 etc.).  Os profetas anunciam a esperança de bons pastores (Jr 3,15; Ez 34,23s), a serviço de Deus, Pastor supremo de seu povo (Sl 23; 80,2; Is 40,11; Jr 31,10; Ez 34,11ss). Deus Pastor, que conduz a humanidade ao longo da história salvífica, revela-se em Jesus Bom Pastor, no qual se realizam plenamente as esperanças proféticas do povo.

O Salmo 23, um hino de confiança, sublinha que estamos nas mãos de Deus, que cuida e protege nossas vidas. O salmista experimenta a atuação favorável do Bom Pastor: “O Senhor é meu pastor nada me falta”.  O pastor anda com seu rebanho à procura de verdes pastagens e de água em lugares de repouso; caminho que expressa a busca da vida digna, que passa pelas “trilhas de justiça por causa do nome do Senhor”.  A presença do Bom Pastor consola e defende em meio ao vale tenebroso, contexto de opressão: “Não temo mal algum, porque tu estás comigo”. O Senhor “prepara a mesa diante dos que afligem”, acolhe e oferece refeição em lugar seguro, sob sua proteção. Convida a participar da abundância de seus bens: “Com óleo/perfume me unges a cabeça e minha taça transborda”.  Neste Salmo podemos reconhecer a imagem de Jesus Bom Pastor.

A imagem de Jesus Bom Pastor, uma das mais comuns na arte primitiva e nas catacumbas de Roma, é relevante nos evangelhos. No quarto domingo da Páscoa, domingo do Bom Pastor, o evangelho é extraído do capítulo 10 de João nos três ciclos litúrgicos: 10,1-10 no ano A; 10,11-18 no ano B e 10,27-30 no ano C. A proclamação de Jesus: “Eu Sou o Bom Pastor” (vv.11.14) evoca a revelação do nome divino (Ex 3,14) e acentua sua presença de ternura e compaixão como o Deus conosco. Jesus apresenta as características que identificam o Bom Pastor: o Pastor entra no redil das ovelhas pela porta (vv.1-2); chama pelo nome as suas ovelhas, as conduz para fora e caminha à sua frente (vv.3.4); as ovelhas ouvem sua voz e o seguem (vv.3.4.27).

O conhecimento mútuo do Pastor e das ovelhas funda-se no recíproco conhecimento do Pai e do Pastor (vv.4.14-15.27). “O Bom Pastor dá sua vida pelas ovelhas” (vv.11.15), ao contrário do mercenário, que abandona as ovelhas e foge diante do lobo (vv.12-13); “dá-lhes a vida eterna” (v.28) e anseia conduzir também as ovelhas que não pertencem ao redil, de modo a haver “um só rebanho e um só Pastor” (v.16). Jesus Bom Pastor “veio para que tenham vida em abundância” (v.10).  Assim, Jesus é o Bom Pastor na qualidade de “Cordeiro Pascal”, que apascenta e conduz às fontes das águas da vida (Ap 7,17), por sua vitória definitiva sobre a injustiça e a morte.  Jesus se manifesta como o Bom Pastor compassivo e misericordioso, que “procura a ovelha perdida e a coloca sobre seus ombros” (Lc 15,3-7). Jesus Bom Pastor é a Palavra que guia o rebanho, confiado pelo Pai, no caminho da vida, da salvação.

Os cristãos experimentam a salvação através da fé e esperança em Jesus, “Pastor e Guardião da vida” (1Pd 2,25; Hb 13,20). Jesus Bom Pastor envia seus discípulos às ovelhas perdidas da casa de Israel (Mt 10,5ss), e a todos os povos (Mt 28,18ss). Pedro exerce um papel de liderança na missão de “apascentar as ovelhas do Senhor” (Jo 21,15ss), assim como Paulo que institui lideranças na comunidade como “guardiães do rebanho” (At 20,17.28ss). Para manter sua Igreja, o Senhor suscita apóstolos, profetas, evangelistas, “pastores” e mestres (Ef 4,11), para estarem a serviço da comunidade. Cristo Pastor deve ser a referência para a missão pastoral dos líderes das comunidades (1Pd 5,1-5). O Papa Francisco exorta a serem pastores no meio do seu rebanho, com o “cheiro das ovelhas” (28/03/2013).

 

- O bom pastor

A imagem do pastor com as suas ovelhas deixa insensíveis muitos crentes. Pois, de fato, não apreciamos muito ser comparados a um rebanho obediente, no qual cada um perde a sua especificidade. Mas, deixando isto de lado, perguntemo-nos sobre o que Jesus quer nos dizer com esta imagem tão característica de certa região e de uma época bem determinada. Hoje vemos igualmente pessoas inscreverem-se em partidos e colocarem-se na defesa de seus líderes quer sejam políticos, confessionais ou ideológicos. Gurus é o que não falta. Jesus paradoxalmente nos convida à liberdade frente a todos os condutores de homens, mesmo quando as circunstâncias nos levam a cerrar fileira com eles, tendo em vista este ou aquele resultado. Não podemos dizer: “Eu sou de Paulo!”, ou “Eu sou de Apolo!”, ou “Eu sou de Cefas!” (1 Coríntios 1,12). Jesus opõe o "bom pastor" ao mercenário, isto é, àquele que trabalha para o seu próprio interesse: dinheiro, notoriedade, poder… Para este, a prosperidade das "ovelhas" não é o seu objetivo; estas são para ele apenas um meio. Assim, mais uma vez, se põe para nós uma questão fundamental: o que buscamos na vida, por detrás de nossas condutas, na superfície muitas vezes louváveis, mas que às vezes têm por fim tão somente nos justificarmos aos olhos dos outros ou aos nossos próprios olhos, para confirmarmo-nos a respeito de nós mesmos? Podemos às vezes ser "ovelhas", quando nos fazemos servidores, e outras vezes, "mercenários", quando nelas buscamos o interesse próprio.

- Um estranho pastor!

Em suas parábolas, Jesus parte das realidades visíveis na vida corrente, mas, geralmente, faz este material inicial sofrer transformações consideráveis. Tanto assim que um pastor de verdade, assalariado ou não, vive do seu rebanho: da sua lã, da sua carne, do preço da venda de determinados animais. Mas este a quem Jesus chama de bom pastor, o verdadeiro pastor, não se parece com nenhum outro. Primeiro, porque para ele não se trata de um rebanho de anônimos: no versículo 10,3 (pouco antes da nossa leitura), ficamos sabendo que este pastor chama as suas ovelhas cada uma por seu nome. Ele as conhece e elas o conhecem. Mas eis que no versículo 7 o pastor não é mais pastor, mas a porta pela qual as ovelhas entram e saem. E, em João, o pastor se tornará finalmente "o Cordeiro de Deus". Jesus ocupa, portanto, todos os postos. É que o Senhor e Mestre fez-se o servidor; o pastor tornou-se o cordeiro imolado, para se oferecer ao rebanho em alimento. Então os membros do rebanho também, por sua vez, acedem ao Senhorio. Uma troca admirável! Assim ficamos sabendo que Este que está na origem de tudo o que existe põe-se a serviço de quem Ele mesmo faz existir. Há, pois, nesta parábola do Bom Pastor, a afirmação silenciosa de que tudo tem a sua origem no amor e que este amor nos acompanha ao longo de todos os caminhos que escolhemos seguir. Ele nos faz atravessar as portas da morte. O Cordeiro imolado, o nosso pastor, está vivo para sempre! Assim, a nossa vida, estando dentro da Sua, permanece inalterável.

- O pastor que dá a sua vida

O «bom pastor», portanto, decididamente, nada tem a ver com os pastores comuns, pois estes vivem do seu rebanho, enquanto o Cristo, pelo contrário, está a falar de um pastor que não é outro senão Ele próprio. Ele é quem dá a vida por suas ovelhas. E estas palavras querem fazer alusão à Páscoa que estava por vir. Jesus, um dia, dirá aos discípulos: «Tomai, todos e comei; isto é o meu corpo que será entregue por vós.» «Tomai, todos e bebei; este é o cálice do meu sangue, que será derramado por vós.» Já no capítulo 6 do evangelho de João, lemos: «Quem come a minha carne e bebe o meu sangue tem a vida eterna» (54) e «Quem come a minha carne e bebe o meu sangue permanece em mim e eu nele» (56). Portanto, não é mais o rebanho que alimenta o pastor, mas o pastor que, com sua própria carne, alimenta o rebanho. Aliás, tudo o que consumimos não é alimento de verdade, porque só nos proporciona um sursis à morte, a sua suspensão temporária. Ora, a Eucaristia significa tudo isso. Faz de nós, por certo, um só «rebanho», um só corpo, mas repartir, tomar e comer este pão só pode produzir frutos se absorvemos, também, a sua Palavra. Que palavra? Em 1 João 3,24, lemos que “quem guarda os seus mandamentos permanece em Deus e Deus nele” (são as mesmas palavras do capítulo 6). E o mandamento de Cristo é que nos amemos uns aos outros, «não com palavras nem com a língua, mas com ações e em verdade». Deveríamos também nós nos dar em alimento para os nossos irmãos? Pois é exatamente isto que está dito em 1 João 3,16.

            

ATUALIZAÇÃO - O PASTOREIO DE JESUS: A IMBRICAÇÃO ENTRE COMPAIXÃO E EMPATIA ATRAVÉS DA RESPONSABILIDADE AFETIVA

 Contudo, na Igreja, quando falamos de Pastor, logo nos vem à mente a ideia ou a imagem da hierarquia de nossa Igreja: o papa, os bispos e os padres. Porém, mesmo esta ideia não estando errada, ela está incompleta porque Pastor é mais que isso: é todo aquele a quem foi confiada uma responsabilidade sobre alguém!

 Já dizia Saint Exupery: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas!”.

 Ninguém passa ou adentra as nossas vidas sem deixar marcas e quando elas são ainda mais profundas e presentes, a nossa responsabilidade sobre o outro, o nosso cuidado, aumenta! É por isso que Deus demonstrou verdadeiro amor divino ao criar a função de pastor entre os homens, pois deseja servir-se dela para melhor simbolizar seu insuperável zelo por todos nós. Assim compreendemos São Gregório Magno ao dizer que “Cristo se apresenta como o Pastor perfeito, pois é aquele que dá a vida por suas ovelhas”.

À essa “responsabilidade” a psicologia da o nome de “responsabilidade afetiva”. Mas o que é isto? “A responsabilidade afetiva é primordial em qualquer relação, seja amorosa, de amizade, familiar, de trabalho ou conjugal. Ou seja, é importante em qualquer situação. Basicamente tem a ver com respeito pelo próximo e, sobretudo, com empatia, que é a capacidade de se colocar no lugar do outro. A falta de responsabilidade afetiva fica evidente em mentiras e traições (não apenas as sexuais, mas as em toda ordem), comportamentos egoístas e abusos psicológicos. Está muito relacionado com expor o outro a um sofrimento desnecessário que poderia ser evitado com cuidado e respeito” (Adriana Nunan, doutora em Psicologia Clínica pela PUC do Rio de Janeiro)

 Mas, o que é traição? Trair não é somente beijar na boca. É flertar, é olhar com maldade, é apagar ou esconder mensagens e conversas, é mentir... No fundo, trair é fazer tudo aquilo que não foi combinado.

 Há um pensamento que diz: “Não segures a minha mão se tens a intenção de soltá-la”.

             Infelizmente, cada vez mais há pessoas que terminam relacionamentos por mensagens, sem sequer dizer um “adeus”: basta apenas excluir a pessoa do facebook, watsapp ou parar de seguir no Instagram. Assim, o ser humano passa cada vez mais a ser visto como uma coisa ou objeto e para ser descartado, não será muito difícil.

            Mas, como a gente desenvolve essa responsabilidade afetiva:

            Amizade: Demonstrar um tipo de carinho, interesse, presença ou até mesmo se tornar um porto seguro para a pessoas sem que se deseje ser de fato, pode vir a causar dores profundas no outro, configurando assim, uma irresponsabilidade afetiva.

            No namoro: Se você percebe as expectativas da outra pessoa, sabendo que o sentimento e o desejo não são recíprocos, é importante comunicar isto de forma empática, para não criar falsas esperanças no outro apenas para alimentar sua autoestima ou apenas para não se sentir sozinho tendo alguém ao seu lado, ou seja, é não prometer as coisas que não vai cumprir!

            Nas pastorais e trabalhos da Igreja: Não assumir trabalhos movidos apenas por carência afetiva, ou por estrelismo, desejo de destaque e, sobretudo, não assumir um cargo só de nome, mas de fato! Não basta ter o nome de coordenador, de ministro, acólito, acolhida, músico... é preciso ser! Eu me torno um irresponsável afetivo quando as pessoas da Igreja, incluindo o padre, contam comigo e eu, simplesmente, não vou, porque eu sou só de nome!

            Jesus poderia ter agido assim, pois, afinal, seus discípulos já haviam pregado e operado milagres e prodígios para aquele povo: era chegado a hora deles descansarem mas aquele povo, sedentos como “ovelhas sem pastor” vão ao encontro de Jesus e de seus discípulos e Jesus, ao descer da barca e ver aquela numerosa multidão que se comprimia, se compadece daquelas ovelhas sem pastor e passa a ensiná-las, contudo, não as instruía, porém, só com palavras. Muito mais! Jesus comunicava a sua graça, sua vida e seu amor pois, mais do que dar a vida por elas, desejava ser a própria vida delas!

De fato, “a misericórdia de Deus é tão grande que até aquilo que a gente faz de errado, se a gente colocar nas mãos de Deus, ele transforma em bem, pois  o mal não vem de Deus e Ele não permite o mal”, reata-nos ter a coragem de fazer como a multidão do Evangelho de hoje e ir ao encontro do Senhor, ir ao encontro dos seus discípulos, para então entregarmos a Ele àquilo que é mal em nossa vida em suas mãos, para que então, ele possa transformá-las em bem. Isso é amar, isso é sentir, misericórdia, isso é sentir compaixão:

 Só se pode ter responsabilidade afetiva sobre o outro quando aprendeu a ser empático, isto é: ter a capacidade de se colocar no lugar do outro, na dor do outro! É compreender que aquilo que NÃO dói em você, pode doer e muito no outro! Por isso que Jesus é o Bom Pastor, porque ele sente compaixão pois ele se colocou no nosso lugar, pegou as nossas dores e as assumiu para si! E se Jesus fez isso conosco, quem somos nós para não fazermos o mesmo com o nosso esposo (a), namorado (a), amigo (a) ou próximo (a).

 

FINALIZAÇÃO - QUEM NÓS ELEGEMOS COMO PASTOR DE NOSSAS VIDAS?

Já dizia Vinicius de Moraes: “Cuidado! A vida é pra valer! E não se engane não, tem uma só. Duas mesmo que é bom, ninguém vai me dizer que tem sem provar muito bem provado, com certidão passada em cartório do céu, e assinada em baixo: Deus! E com firma reconhecida. A vida não é de brincadeira, meu amigo!”. 

Cuidado, a vida não é de brincadeira, então, tome cuidado em quem à tens confiado e se à ela valor tens dado, pois quando não cuidamos e na mão de qualquer um deixamos, é porque valor não a damos: Eu sou o Bom Pastor, aquele que dá a sua vida pelas ovelhas.

 

           

 

  Sem. José Demétrio de Camargo

3º ano de Teologia.

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