Amar como Jesus amou - V Domingo da Páscoa
V
DOMINGO DA PÁSCOA - ANO
C
SÓ O AMOR É DIGNO DE FÉ
Quinta-Feira – 12/maio/2022
ESBOÇO:
- ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
A síntese do Tempo Pascal
- ESTRUTURA PANORÂMICA
- DESENVOLVIMENTO TEOLÓGICO-EXEGÉTICO
Amar como
Jesus amou
- CONCLUSÃO
Só o
Amor é digno de Fé
ASPECTOS
INTRODUTÓRIOS – A SÍNTESE
DO TEMPO PASCAL
“Embora constatemos a instintiva
repugnância de nossa natureza em relação a todo sofrimento, é nele que se
encontra a porta da autêntica felicidade, e no amor ao próximo o sinal
característico do cristão”. Monsenhor Clá Dias
Parece anacrônico falar de
sofrimento no Tempo Pascal e essa relação se torna ainda mais complicada à nós
quando entre o sofrimento ou a dor e a Páscoa inserimos o Amor. Talvez por esta
razão, mas sobretudo pelas limitações de nosso estado de contingência, se
tivéssemos de imaginar um salvador, este teria de ser glorioso, transcorrendo
sua missão de vitória em vitória e coroada por um esplendoroso triunfo final.
Contudo, essa mentalidade não é própria dos nossos tempos mas já perdura desde
a época de Cristo, de modo que acompanhou o povo eleito – inclusive os
Apóstolos -até a descida do Espírito Santo. Não é por acaso que eles
perguntavam: “Senhor, é porventura agora que ides instaurar o Reino de Israel?”,
contudo, ainda não compreendiam que o reino do Senhor não era desse mundo.
De fato, o
grande mistério de um Homem-Deus padecente e moribundo, pregado numa Cruz entre
dois ladrões, abandonado por seu povo, desprezado por todos e mais
especialmente pelas altas autoridades, só é admissível com uma vigorosa fé. A
glória não esteve ausente na Paixão do Senhor, como já ensinara a Estaurologia
– A Teologia da Cruz. Muito pelo contrário, é impossível imaginá-la maior ou,
até mesmo, acrescível de alguma fímbria, por minúscula que seja. Porém, ela não
pode ser vista por um prisma meramente temporal, pois esta glória só é
concebível mediante a eternidade.
Este é o
plano de fundo presente na Liturgia de hoje e é esta também a via eleita por
Deus para a eleição
ESTRUTURA PANORÂMICA.
O tema
fundamental da liturgia
deste domingo é
o do amor:
o que identifica
os seguidores de Jesus é a capacidade de amar até ao dom total da vida.
No
Evangelho, Jesus despede-Se dos seus discípulos e deixa-lhes em testamento o
“mandamento novo”: “amai-vos
uns aos outros, como Eu vos amei”. É nessa entrega radical da vida que se
cumpre a vocação cristã e que se dá testemunho no mundo do amor materno e
paterno de Deus.
Na primeira
leitura apresenta-se a vida
dessas comunidades cristãs
chamadas a
viver no amor. No meio das
vicissitudes e das crises, são comunidades fraternas, onde os irmãos se ajudam,
se fortalecem uns aos outros nas dificuldades, se amam e dão testemunho do amor
de Deus. É esse projeto que motiva Paulo e Barnabé e é essa proposta que eles levam, com a generosidade de quem ama, aos confins da Ásia Menor.
A segunda
leitura apresenta-nos a meta final para onde caminhamos: o novo céu e a nova
terra, a realização da utopia, o rosto
final dessa comunidade de chamados a viver no amor.
Para tanto,
é natural que uma pergunta se instale em nosso coração em meio este cenário: é
possível uma vida sem sofrimento? É evidente que não. Então, temos uma outra
pergunta: como balizar sofrimento e bem-estar em nossas vidas? Como ver o
sofrimento de uma forma diferente? Tudo isso mediante a relação entre amor,
sofrimento e Páscoa
DESENVOLVIMENTO TEOLÓGICO-EXEGÉTICO – AMAR
COMO JESUS AMOU
“Filhinhos, por pouco tempo estou ainda convosco. Eu vos dou um novo
mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis
amar-vos uns aos outros. Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se
tiverdes amor uns aos outros”.
Pois bem,
qual é o cenário em que estamos? É a última ceia de Jesus com os seus
discípulos. Nessa ceia do adeus, Jesus deixa o seu testamento, suas duas
últimas vontades: a fração do pão e o serviço fraterno. Para a literatura
joanina, o tema do amor ocupa lugar central. Especificamente para o quarto
evangelho, a Paixão é expressão do Amor de Jesus pelos seus, um amor até o fim.
A salvação é dom de amor, e como tal ela precisa ser compreendida e recebida. O
mal que domina o coração de Judas é uma força de sedução que distorce a
realidade e atenta contra a vida. A resistência de Pedro em permitir que Jesus
lavasse os seus pés é a dificuldade em reconhecer no servo a figura do Messias.
Mais ainda, é a dificuldade em aceitar um Messias que tenha que passar pelo
sofrimento e pela morte e em última instância, tendo-a como fundamental,
resposta de Jesus a Pedro afirma que a salvação é dom gratuito e, como tal,
precisa ser recebida, e o gesto simbólico deve se traduzir como atitude
permanente na vida do discípulo. Ser discípulo é ser servidor ao modo de Jesus.
O gesto do lava-pés condensa toda a vida de Jesus, que ‘não veio para ser
servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate de muitos’
Mais significativo ainda se torna
esse aspecto quando detemos nossa atenção ao início do Evangelho, quando diz:
“Depois que Judas saiu, do cenáculo disse Jesus: 'Agora foi glorificado
o Filho do Homem, e Deus foi glorificado nele. Se Deus foi glorificado nele, também
Deus o glorificará em si mesmo, e o glorificará logo”.
O mandamento do Amor instituído por
Cristo na Quinta Feira Santa e pela liturgia de hoje recordado não é dado após
um momento festivo, de júbilo, de alegria: é dado após um momento de traição,
de angústia, de decepção! De fato, aqui compreendemos quando Jesus disse: “Se te
esbofetearem o rosto, oferece também o outro lado”; “se tens duas túnicas, dê
uma a quem não tem” “Se fazeis o bem somente àqueles que te querem bem, que
recompensa tereis?” “Amai-vos uns aos outros, assim como
eu vos amei”.
É como, quase que uma hermenêutica desse texto, disse a música de Legião
Urbana: “É preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã; por que se você
parar pra pensar, na verdade não há”.
ILUSTRAÇÃO: Perceba o drama que se tem em um leito de morte:
quando uma pessoa está prestes à morrer, o que geralmente ela pede ao médico:
Dr. Me dê mais um tempo de vida pra eu pagar minhas contas? Me dê um tempo à
mais pra que eu possa continuar sendo arrogante, superior aos outros. Me dê
mais um dia de vida para que eu possa humilhar meus filhos, minha esposa, meus
pais ou avós. Deixa-me viver mais um dia para que eu possa mandar em mais gente
ou falar mal de mais pessoas... Não, elas não dizem isso, mas na verdade,
apertando as mãos daquele médico com as últimas doses de forças que ainda lhe
restam, dizem: “Dr, por favor, deixa eu ficar vivo só mais um pouco pra dizer
pra minha esposa, pra minha mãe, meus filhos, meus amigos, que tanto os amo.
O próprio São João, no início desta narrativa já
recordava: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o Fim”.
Quando amamos alguém, não é bom,
gostoso estar com essa pessoa, participar da vida com ela conversando, rindo e
muitas vezes, chorando? Pois bem, Jesus amou seus discípulos, Jesus nos ama,
Cristo ama a mim e à você e percebendo que esse amor não partia só dele mas
também daqueles que sentavam-se à mesa com ele e que estes não poderiam ir ao
Pai junto dele, o Cristo Jesus deixa um novo mandamento, o mandamento do amor
como preceito e critério de comunhão com Ele!
Contudo, esse amor é condicionado: “Amai-vos
uns aos outros COMO EU VOS AMEI”
Como Cristo nos amou? Evidentemente que
pela Cruz, mas para compreendê-la ainda mais profundamente precisamos voltar
para o episódio, ainda da Ceia: é natural que o questionamento: Por
que é necessário que o Amor se traduza em atitudes? Para tanto, se faz
necessário ter em mente o precioso diálogo entre São Pedro e nosso Senhor no
qual o Apóstolo apresenta uma posição de inconformidade com a proposta de Jesus
de lavar seus pés, pois o que se está em jogo é aceitar a “nova” proposta de
Amor dada por Jesus e aqui diz-se “nova” no sentido de atualização, pois não se
trata de uma inovação mas sim de seu pleno sentido naquilo que é próprio de sua
natureza e como tal, da essência mesma de Deus: o Ágape
João coloca a última ceia na dimensão
da despedida, do serviço e do mandamento do amor. Por meio deste Evangelho
torna-se perceptível aquilo que na Missa da Ceia do Senhor é celebrado, as duas
importantes instituições: da Eucaristia e do sacerdócio ao mesmo tempo que, o
que Jesus nos pede é que sigamos seu exemplo e seu testemunho, que é amar e
servir indistintamente. Nisso se resume toda a nossa vida cristã. O Mestre, com
atitudes de escravo, ensina-nos que o avental deve vestir o coração de todo cristão.
Disse o Papa Francisco: “A Eucaristia,
o serviço, a unção: eis a realidade que vivemos hoje, nesta celebração. O
Senhor quer ficar conosco na Eucaristia, e nós tornamo-nos tabernáculos
permanentes do Senhor. Trazemos conosco o Senhor, a ponto de Ele próprio nos
dizer que, se não comermos o seu Corpo e não bebermos o seu Sangue, não
entraremos no Reino dos Céus. Este é o mistério do Pão e do Vinho, do Senhor
conosco, em nós, dentro de nós.
O serviço: um procedimento que é
condição para entrar no Reino dos Céus. Servir, sim; servir a todos. Mas o
Senhor, na troca de palavras que teve com Pedro (cf. Jo 13, 6-9), faz-lhe
compreender que, para entrar no Reino dos Céus, devemos deixar que o Senhor nos
sirva, que o Servo de Deus seja nosso servo. E isto é difícil de compreender.
Se não deixo que o Senhor seja o meu servo, que o Senhor me lave, me faça
crescer, me perdoe, não entrarei no Reino dos Céus
Percebe-se, portanto de uma prática do Amor -
πράξις της Αγάπης que se torna, ao mesmo tempo, Revelação, pois aquilo que
Deus quer dizer aos homens em e por meio de Cristo não pode encontrar sua norma
no mundo em geral nem no homem em particular, mas tem que ser algo
necessariamente teo-lógico, ou melhor dizendo, teo-pragmático: ação de Deus
para o homem, ação que Ele mesmo mostra ante e para o homem. Assim
compreendemos quando se diz que “Só o Amor é digno de Fé” pois em Jesus Cristo,
através de sua morte na Cruz, amando o homem até o extremo e paradigmático
momento da morte, Deus se Revelou como sendo Amor; Amor capaz de matar um Deus,
como o próprio Santo Agostinho, certa vez, disse: “Queres saber o teu
valor? Olhe para a Cruz: tu vales um Deus morto e crucificado”; Amor
que na Ressurreição torna-se coroamento de sua Glória, da qual, por meio de um
sacrifício incruento, a Eucaristia se torna esse mesmo ato presente aqui e
agora, pois a Eucaristia é a síntese dessa manifestação de Amor que teve
sérias e angustiantes implicações que o então Papa Bento XVI recordava ao
dizer:
“A Quinta-feira
Santa não é apenas o dia da instituição da Santíssima Eucaristia, cujo
esplendor se estende sem dúvida sobre tudo o mais, tudo atraindo, por assim
dizer, para dentro dela. Faz parte da Quinta-feira Santa também a noite escura
do Monte das Oliveiras, nela Se embrenhando Jesus com os seus discípulos; faz
parte dela a solidão e o abandono vivido por Jesus, que, rezando, vai ao
encontro da escuridão da morte; faz parte dela a traição de Judas e a prisão de
Jesus, bem como a negação de Pedro; e ainda a acusação diante do Sinédrio e a
entrega aos pagãos, a Pilatos. Nesta hora, procuremos compreender mais
profundamente alguma coisa destes acontecimentos, porque neles se realiza o
mistério da nossa Redenção.
Jesus embrenha-se na noite. A noite
significa falta de comunicação, uma situação em que não nos vemos um ao outro.
É um símbolo da não compreensão, do obscurecimento da verdade. É o espaço onde
o mal, que em presença da luz tem de se esconder, pode desenvolver-se. O
próprio Jesus – que é a luz e a verdade, a comunicação, a pureza e a bondade –
entra na noite. Esta, em última análise, é símbolo da morte, da perda
definitiva de comunhão e de vida. Jesus entra na noite para a superar,
inaugurando o novo dia de Deus na história da humanidade.
Contudo, deve-se ter muito cuidado com o sofrimento:
não se trata aqui em buscar o sofrimento, mas sim em significá-lo quando este
sobrevier! O sofrimento e a Cruz não devem se tornar uma lei
Como disse Paulo Mendes Campos: “Às vezes uma pessoa se
abandona de tal forma ao sofrimento, com tal complacência, que tem medo de não
poder sair de lá. A dor também tem o seu feitiço, e este se vira contra o
enfeitiçado. Por isso Alice, depois de ter chorado um lago, pensava: “Agora
serei castigada, afogando-me em minhas próprias lágrimas”. Conclusão: a própria
dor deve ter a sua medida: é feio, é imodesto, é vão, é perigoso ultrapassar a
fronteira da nossa dor”.
FINALIZAÇÃO – SÓ O AMOR É DIGNO DE FÉ
Muito mais do que lavar nossos pés, o
próprio Deus se fez homem. Saiu da Trindade Imanente à caminho da Trindade
Econômica com o único objetivo de Revelar aquilo que lhe é mais íntimo e
próprio: seu Amor extremado por nós, pelo gênero humano. O que seria a
Eucaristia que agora adoramos se não o maior gesto de humildade e serviço que
podemos ver? Portanto, é possível afirmar que só o Amor é digno de Fé
pois Deus, tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim à
ponto de, entregando-se na Cruz, fazendo de sua kênosis a atitude de
maior servidão à humanidade pois o que é também, senão servir, a compreensão de
que um Deus morreu na Cruz por mim? A Eucaristia, diante de nós é a síntese
desse Amor, pois sem o aparente e humilde gesto de “lavar os pés” não seria
possível Jesus morrer na Cruz, pois o fim (Cruz) é a plenitude de uma vida dedicada
ao outro (início) que constitui sua plena Verdade. Portanto, amar é servir.
Sabiamente, Aristóteles proferiu e S. Tomás de Aquino defendeu que há o “primado
do intelecto sobre as paixões” do qual aqui afirma que quem detém é o homem
espiritual, capaz de perceber as minúcias de Deus, assim como a carne e o
sangue de Cristo eram naquele momento, pois a Eucaristia é o alimento
que comunica a virtude vivificante e se torna fonte de vida para a alma e o
corpo, para a matéria e o espírito, para cada um de nós. Ela é a lente que expurga a nossa miopia, ou por vezes, nossa cegueira
espiritual, reestabelecendo as forças necessárias para continuar a caminhada,
vivendo no amor a exemplo de Cristo, sendo operado assim, além de uma
ressurreição da carne, uma ressurreição do espírito e da mente.
Sem. José Demétrio de Camargo
3º ano de Teologia.



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