COMO VIVER A VERDADEIRA FÉ PASCAL: SÃO PEDRO

 

A VERDADEIRA FÉ PASCAL: RELAÇÕES E DIVERGÊNCIAS ENTRE VER E ACREDITAR NAS TESTEMUNHAS DA RESSURREIÇÃO.


 

ASPECTOS INTRODUTÓRIOS

            À alguns domingos anteriores refletíamos acerca da pedagogia da Igreja para com seus filhos, com o objetivo de educá-los na Fé atrelando, aproximando os mistérios de Cristo, sua Paixão, Morte e Ressurreição da existência humana. A odisseia humana ganha seu sentido por meio dos mistérios da Vida de Cristo. A sabedoria da Igreja advém da sabedoria em essência, que é Jesus Cristo e como tal, é inesgotável. Vejamos um exemplo concreto: a poucos domingos ela nos orientava a entrar em um recolhimento profundo, manifestando assim pela sobriedade litúrgica, silenciamento, imagens veladas. Era o inicio da Semana Santa, tempo de pesar, temor e sofrimento. Como é possível estar diante disso, dos sofrimentos de Cristo, e não lembrar também dos nossos? Da mesma forma, hoje ela se reveste da mais solene alegria. Insere um ímpeto litúrgico à nos impulsionar nesse caminho, na esperança de tornar manifesta toda a alegria do cosmos, não podendo ser mais verdadeiro, estando ainda nítidos em nossos ouvidos a solene proclamação que diz: “Exulte o céu, e os Anjos triunfantes, mensageiros de Deus desçam cantando, façam soar trombetas fulgurantes, a vitória de um rei anunciando” Sim! É com a alegria desse fragmento do Exultet que a Igreja e nós proclamamos a fé e a alegria pascal como centro de toda nossa vida espiritual. Que escutamos o mesmo ressuscitado, vindo ao nosso encontro como uma epifania cultual dizendo: “Ressuscitei, ó Pai, e sempre estou contigo”. Que contemplamos também, a alegria de Cristo. Da mesma forma, é impossível tê-la diante dos olhos e não recordar, também da nossa alegria. Assim, a odisseia humana é chamada a se unir a vida de Cristo, tornar-se uma com ele, pois ao contrário, ela é corrompida, distancia-se de si mesmo e de seu objetivo, pois o ser humano, por natureza, é inclinado a adoração: quando não adora a Deus, adora a si mesmo. Contudo, essa consciência da ressurreição, assim como hoje, não fora sempre clara, nem mesmo para aqueles que comeram e beberam com Jesus. Dessa forma, tendo em mente e iluminado pelos exemplos das “Testemunhas da Ressurreição”,  gostaria de iniciar uma série de reflexões tratando da Verdadeira Fé Pascal, percebendo como a atitude desses homens e mulheres, diante da ressurreição de Jesus, podem ajudar, também a nós, vivermos a contínua ressurreição de nosso Senhor por meio da verdadeira Fé Pascal, pois as dificuldades diante da Ressurreição não se encerraram apenas naqueles dias, mas estendem-se até nossos dias.

 

ESTRUTURA PANORÂMICA.

             O Evangelho nos mostra o dia da Ressureição juntamente com a reação daquelas três pessoas: Pedro, João e Maria Madalena diante desse momento, destacando a incredulidade do Apóstolo Pedro e a imediata credulidade de João diante da Ressurreição. O contraste é eminente: observação e agitação de Pedro diante do “ver” e serenidade de João. João, portanto, torna-se a primeira testemunha da Ressurreição.

            Enquanto o Evangelho apresenta um Pedro incrédulo e agitado diante do sumiço do corpo de Jesus, a 1ª leitura o apresenta como uma verdadeira Testemunha da Ressureição, repleto de vitalidade e entusiasmo, anunciando aquilo que outrora não havia entendido, usando a si mesmo como atestação daquele acontecimento.

            A 2ª leitura mostra os efeitos da ressurreição e o nosso compromisso para com ela: esforçar para alcançar as coisas do alto, onde está Cristo Jesus.

            Dessa forma, diante das incertezas, dificuldades e intempéries dos nossos tempos, somos convidados a ter a consciência de que também para os apóstolos não foi tão fácil acreditar no ressurreto. Contudo, eles acreditaram, da mesma forma, nós também podemos ser testemunhas da ressurreição.

           

DESENVOLVIMENTO

            Porém, como que alguém que antes não acreditava, passa a crer? Mesmo essa pergunta não sendo respondida já na liturgia de hoje, pois trata-se de um processo, é interessante observarmos ele, que tem seu início com a o Evangelho de hoje pelo contraste entre João, Pedro e Maria Madalena, que esboçaram diferentes atitudes diante do tumulo vazio. Esta, assim disse: “'Tiraram o Senhor do túmulo, e não sabemos onde o colocaram”. Pedro assim comportou: “Chegou também Simão Pedro, que vinha correndo atrás, e entrou no túmulo. Viu as faixas de linho deitadas no chão”. João, por sua vez: “Olhando para dentro, viu as faixas de linho no chão, mas não entrou. Ele viu, e acreditou”. Acrescenta também o evangelista de que eles (Maria Madalena e Pedro) “ainda não tinham compreendido a Escritura, segundo a qual ele devia ressuscitar dos mortos”. Pois bem, iniciemos pela atitude de Maria Madalena, que é a primeira a ir ao túmulo de Jesus, logo ao amanhecer daquele dia, que era o domingo. Muito provavelmente ela estaria indo para lá para realizar suas orações, bem como para zelar pelo túmulo e pelo corpo, contudo, ao chegar, se depara com este estando aberto. Nós estamos acostumados apenas com a palavra “ver” para descrever essa atitude, mas o evangelista utiliza 3 palavras distintas para essa mesma ação, e não é à toa que João utiliza o vocábulo βλέπει para dizer como que Maria Madalena “viu” e se comportou diante daquela cena: de tão espantada e chocada com a cena do túmulo aberto, ela nem ao menos procurou “entrar” para ver se Jesus estava lá, mas sim já saiu correndo desesperada para avisar que não sabia onde haviam colocado (ou sepultado) o corpo de Jesus. Maria Madalena viu, mas não compreendeu e consequentemente, não acreditou na Ressurreição. Pedro por sua vez, sai movido por esse desespero e ao chegar ao túmulo, olhou tão detalhadamente que não só percebeu que o corpo estava lá, mas que o sudário (pano que cobria a cabeça de Jesus) estava dobrado, ao lado. Para o “ver” de Pedro, João utiliza a palavra θεωρεῖ, que possui um sentido adicional ao “ver” de Maria Madalena: ele viu, se espantou, abismou, entendeu, mas não compreendeu a ressureição e nem nela acreditou. João, o discípulo amado, por sua vez, tem a atitude mais demorada e rápida, ao mesmo tempo, diante do túmulo vazio, uma vez que ele também é movido pelo desespero inicial, ao ponto de ser o 1º a chegar, porém, ao ver as faixas de linho, fica parado, sem entrar no túmulo, absorto no que aquele sinal poderia indicar. Para ele, estava muito claro o que tinha acontecido: o corpo de Jesus não estava mais ali e o túmulo vazio estava porque Jesus cumpriu sua promessa, ele ressuscitou verdadeiramente! Não era mais necessária nenhuma comprovação, nem mesmo entrar no túmulo e se ater em cada detalhe. Àquele que compreende a Fé, não é necessário muitas e grandes coisas para crer. Como diz o ditado: “Ao bom entendedor, meia palavra basta”. Com João foi assim, uma palavra bastou, e ele viu e acreditou - εἶδεν καὶ ἐπίστευσεν- o “ver” de João é o ver daquele que acredita, cuja palavra é εἶδεν.

 

FINALIZAÇÃO

            Inicialmente, colocávamos nossa meditação na pessoa de Pedro, e assim permanecemos, recordando que a pergunta inicial não será respondida nesta liturgia. Sabemos que aquele homem que antes não acreditava na ressurreição, depois, passou a crer ao ponto de ser uma Testemunha – μάρτυρες da ressureição. Isso é um processo que dado sua grandeza, uma liturgia apenas não consegue abarcar, por isso a Igreja dispõe de 6 domingos que compõe o Tempo Pascal. É por meio dele que descobriremos como Pedro, Maria Madalena, Tomé e tentou outros passaram de uma incredulidade à um estado de Fé, tornando-se testemunhas da ressurreição. Por hora, fiquemos com a imagem de Pedro do Evangelho de hoje: imaginemos ele perturbado diante da ausência do corpo de Jesus. Por hora, corre-se o risco de pensar como que Pedro poderia pensar assim e não perceber a Ressurreição diante seus olhos. Santo Agostinho, ao comentar o Salmo 117 diz “Ora, os perseguidores, espalhando por todo lado a morte devastadora, julgava que morria a Igreja de Cristo” (Enarrationes in psalmos, 117,12). Pois bem, como Pedro, o 1º Papa, não haveria de perturbar-se diante daquela cena? Pois naquele momento, não era somente o corpo de Jesus que sumia, mas também a Igreja de Cristo a Pedro confiada. Morreu, junto com Cristo, a promessa que um dia, aquele Galileu fez no mar de Tiberíades a Pedro: “Vós sereis pescadores de homens”. Mas como, se além de morto, nem seu corpo, nem o corpo de Jesus estava no seu meio?

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