A TRANSFORMAÇÃO DO HOMEM CARNAL (ANTHROPOS SARKINOI) PARA O HOMEM RACIONAL (PSYCHIKOS ANTHROPOS) MEDIANTE O ESPLENDOR DA JUSTIÇA DA CRUZ - IV DOMINGO DA QUARESMA – ANO C
IV DOMINGO DA QUARESMA –
ANO C
Quinta-Feira, 24 de Março de 2022
ESBOÇO:
- ASPECTOS
INTRODUTÓRIOS
A Anamnese de um Amor
sempre presente
- DESENVOLVIMENTO
TEOLÓGICO-EXEGÉTICO
- COMPOSTO
TEOLÓGICO-CATEQUÉTICO
A transformação do
homem carnal (anthropos sarkinoi) para o homem racional (psychikos anthropos)
mediante o esplendor da justiça da cruz – Paralelismos entre a Estaurologia de
von Balthasar e a Antropologia Paulina
- CONCLUSÃO
ASPECTOS
INTRODUTÓRIOS - A ANAMNESE DE UM AMOR SEMPRE PRESENTE
Constantemente, a Igreja nos recorda da
grandiosidade do Amor de Deus por nós, manifesto através de sua compaixão e
misericórdia. Consequentemente, para corresponder a esse Amor, nos é pedido um
senso de responsabilidade. Amor e responsabilidade andam juntos, de modo que
quem ama, respeita. Quem ama, cuida. Quem ama, se esforça e se entrega. O problema
consiste em que algumas vezes esquecemos da interligação entre essas coisas.
Por isso, a mesma Igreja nos ensina que temos a urgente necessidade de voltar
os nossos corações para o Senhor, redirecionar a nossa vida para Deus, lugar
este que ela nunca deveria ter saído, mas, que por nossa desobediência, assim o
fazemos. Contudo, a fraqueza diante dos nossos pecados e limitações podem
fazer-nos cegos diante da promessa de Jesus conduzindo-nos a uma desistência
dos propósitos quaresmais.
Dom Henrique Soares, a esse
respeito, certa vez disse: “Coragem, também nós: estamos a caminho; nossa Terra
Prometida é Cristo, nossa Páscoa é Cristo, nosso maná é Cristo! Ele, para nós,
é, simplesmente, tudo! Estão chegando os dias solenes de celebração de Sua
Páscoa bendita e santa!”.
Consciente disso, em pleno espírito de recolhimento e austeridade quaresmal, a Igreja insere a Laetare Domenica – Domingo da Alegria “Laetare, Ierusalem, et conventum facite omnes qui diligites eam; gaudete cum laetitia, qui in tristitia fuistis; ut exsultetis, et satiemini ab uberibus consolationis vestrae - Alegra-te, Jerusalém! Reuni-vos, vós todos que a amais; vós que estais tristes, exultai de alegria! Saciai-vos com a abundância de suas consolações”. Porém, qual o motivo dessa alegria exultante a impulsionar nossa vitalidade de conversão? Pelo que devemos nos alegrar?
DESENVOLVIMENTO TEOLÓGICO-EXEGÉTICO - O PODER DA COMPAIXÃO
A data de hoje marca um lugar
especial dentro do Corpus Liturgicum de hoje, ao ponto que um destes
indicativos é o fato de que depois deste Domingo, o tom da Quaresma muda. A
partir de amanhã, até a Semana Santa, quase todos os Evangelhos da Missa serão
de São João. Isto porque o Quarto Evangelho é, todo ele, como um processo entre
os judeus e Jesus: os judeus levarão Jesus ao tribunal de Pilatos. Este
condena-Lo-á, mas Deus haverá de absolvê-Lo e ressuscitá-Lo! A partir de amanhã
também, a ênfase da Palavra de Deus que ouviremos na Missa de cada dia, deixa
de ser a conversão, a penitência, a oração e a esmola, para ser o Cristo no
mistério de Sua entrega de amor, de Sua angústia, ante a Paixão e Morte que se
aproximam.
Nesta esteira, quando que,
preludiando de forma indireta, Fernando Pessoa nos dá o primeiro elemento a
complementar a nossa vida espiritual, quando este diz:
“A única atitude intelectual digna de uma criatura
superior é a de uma calma e fria compaixão por tudo quanto não é ele próprio.
Não que essa atitude tenha o mínimo cunho de justa e verdadeira; mas é tão
invejável que é preciso tê-la”.
Compaixao! Essa
palavra aparece tanto no Antigo Testamento pela palavra ḥā·mal quanto no
Novo como ἐλέει. A 1ª lembra-nos hesed, palavra não tão familiar. Já a
2ª remete a uma invocação muito próxima a nós: ἐλέει-eleison que está
presente no Ato-Penitencial das nossas missas e celebrações, cuja difícil
tradução chega a nós como misericórdia ou piedade. Dessa forma,
compaixão é aquele que sendo bondoso preocupa-se com alguém que se encontra em
sérias dificuldades. Preocupando-se, sentindo compaixão, aproxima-se, age com
misericórdia e manifesta o amor. É dessa ideia de compaixão que partiremos.
Contudo, isso não é próprio
somente do Novo Testamento uma vez que no Antigo Testamento já é possível
perceber indícios dessa aproximação diante alguém necessitado:“ o Senhor
Deus de seus pais, dirigia-lhes frequentemente a palavra por meio de seus
mensageiros, admoestando-os com solicitude todos os dias, porque tinha
compaixão - ḥā·mal, hesed - do seu
povo”. A idolatria florescia mesmo em meio a calamidade envolvendo a todos,
desde o rei aos plebeus. A Terra que ora fora Prometida e querida por Deus,
agora estava cheia de abominações e violência. Mas a compaixão de Yahweh-Elohim
continuou tentando convencer aquele povo teimoso e estúpido, tentando proteger
os que lhe pertenciam: seu próprio povo e sua própria terra. Mas, sem efeito, o
amor e o cuidado do Pai desgastaram-se, foi desprezado e transformado no mais
severo castigo, conduzindo aquele povo ao exílio na Babilônia. Porém, “o
Senhor moveu o espírito de Ciro, rei da Pérsia” ao ponto que por meio de um
decreto, o povo outrora exilado, ganha a liberdade. Mais uma vez, mesmo tendo
sido rejeitado, Deus não rejeita seu povo. Assim compreendemos o salmo quando diz:
“Que se prenda a minha língua ao céu da boca, se de ti Jerusalém, eu me
esquecer”. Jerusalém não consiste somente na cidade, mas sim numa
consciência, ou seja, da consciência da ação misericordiosa e compassiva de
Deus para com seu povo. O pagão sacraliza o mal considerando-o como um
efeito da vontade divina. Para o cristão, pelo contrário, o que é sagrado é a
compaixão, a ajuda, tudo o que pode lutar contra esse mal.
Porém, isto que deveria ser claro, muitas vezes é ofuscado diante de nós
e o Evangelho relembra exatamente isso! Contudo, o que deveria ser claro? O
Amor de Deus por nós na forma do Pai que, por meio de uma série de atitudes,
acaba por expressar, exatamente, esse amor ao ponto que em um contraste
brilhantemente colocado entre as atitudes dos dois filhos, também se torna
expresso que, não é suficiente estar presente existencialmente diante do amor e
da misericórdia de Deus, mas sim, é necessário construir e fomentar uma
consciência desse amor trinitário, que tem seu cerne e ápice na morte redentora
de Jesus na Cruz.
COMPOSTO
TEOLÓGICO-CATEQUÉTICO: A TRANSFORMAÇÃO DO HOMEM CARNAL (ANTHROPOS SARKINOI) PARA O HOMEM RACIONAL (PSYCHIKOS ANTHROPOS) MEDIANTE O ESPLENDOR DA JUSTIÇA DA
CRUZ
A esse respeito, para compreender com a
devida honra e justeza a intensidade de tal ato, se faz necessário debruçarmos
no Evangelho de hoje. A atitude do Filho mais novo beira o absurdo diante das
leis judaicas uma vez que em sua idade era permitido somente um terço da
herança, mas mesmo assim o pai concede o absurdo que lhe fora pedido. Contudo,
é interessante notar a motivação daquele jovem e para isso, utilizaremos de uma
linguagem própria da antropologia paulina que, ao utilizar o termo anthropos
sarkinoi assim o faz referindo-se ao homem carnal, ou seja, aquela criatura
humana que age movida somente por seus impulsos carnais e aqui não devemos cair
na tentação que são apenas aqueles de inclinação sexual, mas sim todos aqueles
atos que ao nos desviarem, também desviam a nossa conduta moral. Na mesma
esteira, o Aquinate utiliza o termo de seres bestiais ao designar esses homens
do qual o Catecismo faz uma bela síntese entre ambas visões teológicas, ficando
necessário reter em nosso conhecimento o seguinte: o homem, sem Deus, sem a sua
graça capaz a iluminar o nosso entendimento, desfigura a sua própria natureza,
perde-se de si mesmo, distancia-se do ser próprio do homem que é ser humano e
aproxima-se das bestas, das feras e dos animais. Essa era a configuração do
filho pródigo no inicio do Evangelho de hoje: aquele jovem era na verdade, um c.
Contrapondo a isso, Paulo elenca mais dois
tipos de homem: o psychikos anthropos – o homem racional e o anthropos
pneumatikós – o homem espiritual ou integral, que para o autor, será o
modelo que todos nós devemos ansiar e almejar, porém, não podemos atribuir essa
versão ao filho pródigo, mas sim, uma outra:
“O rapaz queria matar a fome com a
comida que os porcos comiam, mas nem isto lhe davam. Então caiu em si e disse: 'Quantos
empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome. Vou-me
embora, vou voltar para meu pai e dizer-lhe: `Pai, pequei contra Deus e contra
ti; já não mereço ser chamado teu filho. Trata-me como a um dos teus
empregados'.
Ou seja, diante do momento mais
paradigmático, o filho percebe a deplorável situação que ele estava vivendo, da
qual não podemos reduzir a gravidade apenas no fato dele estar passando fome e
desejar comer lavagem de porcos... Não, definitivamente não! A gravidade é
muito maior pois naquele gesto e naquela visão ele percebe que ao sair de sua
casa, na verdade, era de si mesmo que estava saindo. Ao agir segundo a carne
estava por sufocar o espírito. Ao agir conforme as suas vontades, estava na
verdade, matando a parcela de Deus em si. Em busca da liberdade e da vida,
encontrou a escravidão e a morte. Parece um pouco com a nossa história, não é
verdade? E assim, com essa consciência, aquele jovem inicia seu processo de
transformação de um anthropos
sarkinoi – um homem carnal para
um c psychikos anthropos – o homem racional que terá sua plenitude em um
detalhe, do qual, é importante
reter-nos uma vez mais no evangelho ao dizer:
“Quando ainda estava longe, seu pai o avistou
e sentiu compaixão. Correu-lhe ao encontro, abraçou-o, e cobriu-o de beijos. O
filho, então, lhe disse: 'Pai, pequei contra Deus e contra ti. Já não mereço
ser chamado teu filho'. Mas o pai disse aos empregados: `Trazei depressa a
melhor túnica para vestir meu filho. E colocai um anel no seu dedo e sandálias
nos pés. Trazei um novilho gordo e matai-o. Vamos fazer um banquete. Porque
este meu filho estava morto e tornou a viver; estava perdido e foi encontrado'.
Compreendemos também, anexo a isto, BentoXVI
quando diz que:
“O amor apaixonado de Deus por seu povo – pelo
homem – é ao mesmo tempo um amor que perdoa. E é tão grande que chega a virar
Deus contra Si próprio, seu amor contra a justiça. Nisso o cristão vê já
esboçar-se veladamente o mistério da Cruz: Deus ama tanto o homem que, tendo-Se
feito Ele próprio homem, segue-o até a morte, e desse modo, reconcilia justiça
e amor (10)”.
E aqui, parafraseando-o, podemos compreender
o seguinte: o jovem só fora capaz de transformar-se de um homem carnal em um
homem espiritual e sair daquela situação de escravidão mediante o abraço
misericordioso de sua Pai e aqui, lanço novamente a pergunta de Ratzinger: onde
está Jesus na parábola de hoje? Ora, o próprio von Balthasar nos auxilia na
resposta que pode ser a seguinte: Jesus está nos braços do Pai que, não mais é
um abraço físico, mas sim um abraço dolorosamente aberto na Cruz... Sim, Deus
nos acolhe em sua sagrada e divina festa através dos tendões dilacerados e dos
braços abertos de Jesus na Cruz pois é como já profetizara Isaias ao dizer que:
“Carregou os nossos pecados em seu corpo
sobre o madeiro para que, mortos aos nossos pecados, vivamos para a justiça.
Por fim, por suas chagas fomos curados".
Por suas chagas, fomos abraçados por
Deus e para Ele reconciliados. Mediante o esplendor da divina justiça na Cruz,
somos transformados de um anthropos sarkinoi – um homem carnal para um c psychikos anthropos – o homem
racional capaz de alcançar um anthropos pneumatikós – o homem espiritual
ou integral.
CONCLUSÃO
Eis o tempo de conversão, de recordação da compaixão de
Deus por nós, pois o alerta Evangelho é pungente: “a luz veio ao mundo, mas
os homens preferiram - ἠγάπησαν - as
trevas à luz, porque suas ações eram más” Quem pratica o mal odeia a luz e não
se aproxima da luz, para que suas ações não sejam denunciadas. Mas quem age
conforme a verdade aproxima-se da luz, para que se manifeste que suas ações são
realizadas em Deus.”. ἠγάπησαν, os homens não só preferiram, mas amaram
mais as trevas que a luz, e por isso, suas obras não dão testemunho da verdade,
nem tampouco da salvação, mas sim da maldade e das trevas. A Luz denuncia a
mentira. A verdade, denuncia a maldade.
Que as nossas ações não sejam denunciadas pela luz, mas
testemunhadas por ela, pois “Deus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho
unigênito, para que não morra todo o que nele crer, mas tenha a vida eterna”.
Para aquele que se entregou inteiro por amor a nós, é necessário seguir seu
exemplo, dar tudo, se entregar também inteiramente por ele”.
Retenhamos o seguinte:
“Vós, Redentor, amastes o
homem de tal modo que, quem considerar este amor, não pode deixar de vos amar.
O Vosso amor faz violência aos corações (São João de Ávila)”.
Sem.
José Demétrio de Camargo
3º
ano de Teologia.


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