O PODER "CRIADOR" E "DESTRUIDOR" DAS NOSSAS PALAVRAS: AS 3 LIÇÕES DO EVANGELHO PARA CONTROLAR AQUILO QUE SE DIZ.
ESBOÇO:
- ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
A necessidade de um guia seguro
- DESENVOLVIMENTO TEOLÓGICO-EXEGÉTICO
A Revelação de Deus no Antigo Testamento: o valor noético da Palavra de
Deus
- ATUALIZAÇÃO – PSICANÁLISE:
O poder criador e destruidor das nossas palavras: as 3 lições do
Evangelho para controlar aquilo que se diz.
- CONCLUSÃO
O sábio nunca diz tudo o que pensa, mas pensa sempre tudo o que diz.
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ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
A NECESSIDADE DE UM
GUIA SEGURO
“A missão de conduzir as almas ao Reino dos Céus é confiada por Nosso
Senhor Jesus aos humildes, por reconhecerem a própria insuficiência. Por isso,
seus esforços pela salvação das almas coroam-se de bons frutos”. Monsenhor Clá
Dias
Num mundo em que a
verdadeira caridade em relação ao próximo vai se tornando rara pelo predomínio
do egoísmo, grande é o drama daqueles que atravessam a vida sem alguém que lhes
indique o caminho da verdadeira felicidade. A esse respeito, o desejo de ser
ensinado e a busca de um guia seguro constituem uma característica das almas
retas, que sentem sua própria contingência e natural capacidade de chegar, por
si só, às sublimidades da Revelação. Por isso, elas se voltam para os que
receberam o mandato de ensinar em nome de Deus, desejando ser instruídas por
eles na via das bem-aventuranças. O papel de quem recebeu essa incumbência é
indicar o caminho certo, sem desviar-se dos preceitos da Religião, “nem para a
direita nem para a esquerda” (I Mac 2, 22).
Contudo, nessa tarefa
de exercer o pastoreio que a nós também é destinado, muitas vezes, dado a nossa
fraqueza, erramos ao dizer determinadas colocações; basta trazer à memória
quantas não foram as vezes que tivemos inúmeras perdas simplesmente por uma
palavra mal colocada, perdas essas que podem ser tanto no plano material e
imanente, por tanto, quanto no plano metafísico e transcendente
Certa vez, disse Vitor Hugo: “As
palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade.”.
Dessa forma, apreender a controlar nossas
emoções e vontades diante do ímpeto em sempre estar com a razão e tentar
expressar isso com palavras se faz necessário, pois como o próprio Jesus dirá
no Evangelho de hoje:
“Mas o homem mau tira coisas más
do seu mau tesouro, pois sua boca fala do que o coração está cheio. (Cf. Lc 6,
45b)”.
DESENVOLVIMENTO TEOLÓGICO-EXEGÉTICOA REVELAÇÃO DE
DEUS NO ANTIGO TESTAMENTO: O VALOR NOÉTICO DA PALAVRA DE DEUS
Ao ouvirmos Jesus dizer que
a boca fala do que o coração está cheio, automaticamente devíamos nos
perguntar: a palavra, enquanto dita, tem algum peso ou importância?
Pois
bem, o esboço de história da Revelação já nos dá uma ideia sobre o sentido e o
valor da Palavra de Deus em Israel. Se é constatada a etimologia do termo dabar,
seu uso dá-nos a conhecer seu alcance preciso. Dabar é o que sai da boca ou
dos lábios do homem, mas que tem sua fonte no coração. O dabar exprime e
exterioriza aquilo que o homem já proferiu em seu coração ou o que lhe vem ao
coração, ou então ao seu espírito. A palavra não é, pois, , a simples expressão
de ideias abstratas, está carregada de sentido, tem um conteúdo noético que vem
da concentração do coração sobre um objeto ou de pensamentos que dele apossam,
traduzindo ao mesmo tempo um estado de alma, que de algum modo impregna a palavra pronunciada, articulada. Pedersen
tem razão quando afirma que a
“Palavra
é a expressão corporal do conteúdo da alma, pois por de trás da palavra
subsiste a totalidade da alma que a criou. Se quem proferiu a palavra é uma
alma enérgica, então sua palavra exprimirá mais realidade que uma alma fraca.
Quem dirige uma palavra a outro, faz nascer um pouco de sua própria alma na
alma do outro”.
Para Israel a palavra tem duplo
valor: noético e dinâmico. É expressão de pensamentos, intenções, projetos,
decisões, é discurso inteligível, esclarece o sentido dos acontecimentos, ela
nomeia as coisas pois o nome é a realidade enquanto inteligível. Por outro
lado, é uma força ativa, um poder que realiza o que significa: opera o que o
homem medita e decide no seu coração. Palavra de desejo, de promessa, de
preceito, permanece sua ação enquanto dura o processo que desencadeou. Sua
eficácia é um tanto maior , quanto mais potente a vontade que lhe deu origem ou
então mais profunda a fonte que a jorrou (amor, ódio). A palavra libera uma
energia que já não poderá ser recuperada: sua eficácia aparece principalmente nas
mudanças de nome que determinam uma nova atribuição ou vocação e nas formas de
benção ou maldição. O realismo da palavra é confirmado ainda pelo fato de dabar designar não apenas a palavra, mas também a
coisa, a realidade, o acontecimento que ela suscita. Em resumo, a palavra é uma
força atuante cujo dinamismo se fundamenta no dinamismo mesmo de quem a
pronunciou. Mal se distingue da pessoa, cujo modo de ser e de agir ela é. Por
isso é reveladora e ninguém fala sem se revelar.
É por isso que uma árvore boa jamais dará frutos ruins ou vice-versa.
É por isso que antes de tirar o cisco do olho do outro é necessário tirar o nosso.
É por isso que a ética das contradições jamais poderá ser lícita.
É por isso que jamais os fins justificarão os meios.
Para ficar ainda mais ilustrativo, se
faz necessário perceber visualmente esse deslocamento de dabar – logos –
verbum através de uma pequena exegese:
Primeiro, a explicação do Genesis:
Em Gênesis, por exemplo,
lemos: Deus disse: Façamos o homem a nossa imagem e semelhança, homem e mulher
os fez (cf. Gn 1,26-27), Deus diz e faz. Deus diz, cria e realiza um ato de
amor, de relacionamento, e faz o ser humano.
Ou
seja, Deus tudo criou pela força de sua palavra, ao ponto que São João, ao
redigir seu Evangelho, no Prólogo, estabelece um resgate desse poder criador da
palavra de Deus, e mesmo logos possuir mais um caráter contemplativo do
que criação, percebemos então o deslocamento de dabar para logos:
“Ἐν
ἀρχῇ ἦν ὁ Λόγος, καὶ ὁ Λόγος ἦν πρὸς τὸν Θεόν, καὶ Θεὸς ἦν ὁ Λόγος”.
(Jo 1,1)
Ao
ponto que no século III e IV, São Jerônimo ao traduzir a Septuaginta para a
Vulgata demonstra o segundo deslocamento, agora do logos para o verbum:
“In
principio erat Verbum, et Verbum erat apud Deum, et Deus erat Verbum”.
(Jo 1,1)
Chegando
então para nós a expressão palavra que, se admitida apenas no seu sentido no
nosso idioma, corre-se o risco de cometer um “assassinato” com a literatura
bíblico-sagrada, pois não se trata de uma palavra qualquer, mas sim, de uma que
de certo modo, possui um poder de criação:
“No
princípio era o Verbo, e o Verbo estava junto de Deus e o Verbo
era Deus." (Jo 1,1)
Assim compreendemos a
pergunta que inicialmente colocávamos inserindo uma outra temática, não como
nova mas sim como complemento que é a dabar ligada a pureza de coração,
pois não se pode ocultar o fato de jesus ter inserido o coração como local do
tesouro do homem, seja de aspectos bons ou maus; nesse sentido, Jesus Cristo
fala de pureza de intenção, pois, da mesma maneiras que os frutos dão a
conhecer a árvore que os produziu, as obras e as palavras acabam por revelar os
desejos mais ocultos do nosso coração
ATUALIZAÇÃO
- PSICANÁLISE
O PODER “CRIADOR” E “DESTRUIDOR”
DAS NOSSAS PALAVRAS: AS 3 LIÇÕES DO EVANGELHO PARA CONTROLAR AQUILO QUE SE DIZ.
Nesta esteira, portanto
da mesma forma que as palavras do criador tem a força de criar, as nossas, de
forma imperfeita, também possuem a mesma potência, ou seja, nós também podemos
construir ou criar e também, se não ao mesmo tempo, destruir com aquilo que
dizemos. Assim compreendemos quando Shakespeare, certa vez disse:
“Descobre que se
leva anos para se construir confiança e apenas segundos para destruí-la, e que
você pode fazer coisas em um instante, das quais se arrependerá pelo resto da
vida”.
“A morte e a vida
estão no poder da língua; e aquele que a ama comerá do seu fruto. ” Provérbios,
18, 21
“O que você vai
dizer antes de dizer à outra pessoa, diga a você mesmo". Sêneca
“O homem bom tira
coisas boas do bom tesouro do seu coração. Mas o homem mau tira coisas más do
seu mau tesouro, pois sua boca fala do que o coração está cheio”. Lc 6,45
Essas frases, retiradas
dos mais diversos contextos, tempo e autores acabam por expressar uma única coisa:
que o que falamos é o que sentimos de modo que nos conduz também para um outro
aspecto: quando falamos, ministramos vida ou morte.
Neste sentido, por mais
paradoxal que possa parecer, o próprio Freud por meio da psicanálise e daquilo
que consistirá na sua principal técnica de abordagem pode lançar luzes a esse
ensinamento e perceber que, na verdade, aquilo que por Freud fora desenvolvido,
de certo modo e guardado suas devidas proporções, o próprio Cristo já
executara. Esta é uma das diversas teses psicológicas de Jesus de Nazaré que se
encontram registradas nos Evangelhos. Ela aparece naquele que talvez tenha sido
o discurso mais contundente de Jesus contra os fariseus, em que Ele os chama de
“raça de víboras”. Curiosamente, quando nos lembramos dessa frase “A boca
fala…” nos esquecemos de que ela é a resposta da pergunta retórica que Jesus
dirige aos fariseus nesses termos:
“Raça de víboras,
como podem vocês que são maus, dizer coisas boas?”
Estou chamando sua
atenção para essa questão porque ela evidencia um interessante alinhamento
entre as concepções de Jesus e as da Psicanálise. Com efeito, ao insinuar que
os fariseus, sendo maus, não poderiam dizer coisas boas, Jesus está
implicitamente afirmando que nós não controlamos nossa fala. A conclusão “A
boca fala do que está cheio o coração” é justamente um reforço dessa
ideia. Para Jesus, o Eu parece não ter
autonomia completa sobre a fala. Por mais que tente controlar o que sairá de
sua boca, no fundo é o Coração quem estará realmente no comando.
Ora, quem disse
exatamente a mesma coisa, mas utilizando outros termos, foi o velho Freud.
A invenção da técnica da
associação livre e, juntamente com ela, a ênfase na análise dos sonhos e atos
falhos mostram justamente que, também para Freud, a verdade sempre escapa do
controle do Eu. Quando os psicanalistas seguem a recomendação freudiana e pedem
para os seus pacientes que falem tudo o que lhes vier à cabeça, estão atestando
a confiança de que da boca deles sairá NECESSARIAMENTE a verdade.
Quando não se trata de um
lapso do paciente apenas como um errinho irrelevante, mas o convida a
interpretá-lo, estamos demonstrando nossa convicção de que… “A boca fala
do que está cheio o coração”.
Ao perguntar
retoricamente aos fariseus “como podem vocês que são maus, dizer coisas boas?”,
Jesus estava sugerindo que existe uma correspondência entre o SER e o DIZER.
Em outras palavras, o que
efetivamente DIGO atesta quem verdadeiramente SOU, ainda que “pelo meu muito
falar” eu queira farisaicamente convencer os outros e a mim mesmo de que sou o
que GOSTARIA DE SER.
Assim sendo, uma vez que
compreendemos que existe uma relação com as afirmações de que “o que falamos é
o que sentimos” e que isso expressa uma tênue correspondência entre o ser e o
agir, se faz necessário, como elemento organizativo de todo esse descontrole e
desordem presente no ser humano, trabalhar-se o controle emocional, pois este
nada mais é do que trabalhar a habilidade em lidar com os nossos sentimentos em
momentos críticos de nossa existência. Porém, evidentemente, à luz da Palavra
de Deus:
AS 3 MANEIRAS DE CONTROLAR
AQUILO QUE SE DIZ – EXEGESE PARCIAL DE LC 6, 39-45
1)
HUMILDADE É RECONHECER AQUILO QUE SE É.
“Um discípulo não é
maior do que o mestre; todo discípulo bem formado será como o mestre”.
Lutemos para não correr o
nefasto erro de confundir descaso, relaxo, descuido, falta de zelo,
inferioridade ou baixa autoestima com humildade. Humildade não é sentir-se
inferior aos outros ou sempre insuficiente ou bom... humildade é reconhecer
aquilo que se é.
2)
CONHECE-TE A TI MESMO.
“Por que vês tu o cisco no olho do teu irmão, e não
percebes a trave que há no teu próprio olho?”.
Lutemos também para não
cometer o erro de desviar o olhar sobre nós para o olhar para o outro: só pode
ajudar aquele que foi ajudado... só pode amar aquele que se ama e permite ser
amado.
3)
BUSQUE TER UM CONTROLE EMOCIONAL EQUILIBRADO
“O homem bom tira
coisas boas do bom tesouro do seu coração. Mas o homem mau tira coisas más do
seu mau tesouro, pois sua boca fala do que o coração está cheio”.
Por fim, lutemos para não
correr o risco de praticar o pior dos erros: conformar-se com nossas limitações,
erros, defeitos ou falhas ao ponto de achar que mesmo sendo “maus” podem ainda
dar “bons frutos” sem ser trabalhados, dado a “misericórdia de Deus”. Uma árvore que não é podada e cuidada jamais
produzirá fruto algum.
CONCLUSÃO
O
SÁBIO NUNCA DIZ TUDO O QUE PENSA, MAS PENSA SEMPRE TUDO O QUE DIZ.
Sem olhar para si não é possível reconhecer os maus e os bons frutos e reconhecer que também nós erramos.
Sem reconhecer que erramos e perceber os maus e os bons frutos em nós não somos capazes de cuidar dos bons e extirpar os maus.
E assim, na medida em que vamos nos fechando para a vida, vamos nos abrindo para a morte, de modo que mais cedo ou mais tarde, ao invés de proferirmos palavras capazes de dar a vida, proferimos então aquelas que só levam a morte e a destruição. Lembremos de Sócrates, quando disse:


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