As Bem-Aventuranças e as duas Sabedorias em confronto: Sábios como as serpentes e simples como as pombas.
ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
Não é preciso muito esforço para compreender
qual é o anúncio central que a liturgia quer que meditemos:
“Maldito o homem que confia em outro homem [...]. Bendito o homem que
deposita sua confiança no Senhor; Salmo responsorial: Bendito o homem que põe a
esperança no Senhor... não assim o homem, cujo caminho leva a ruína; Evangelho:
Bem-aventurados vós que sois pobres, mas ai de vós, ricos”. ”.
Quem
são aqueles que são proclamados bem-aventurados pela Palavra de Deus e quem são
aqueles declarados infelizes? Ficando ao pé da letra da expressão evangélica,
os bem-aventurados seriam os pobres e os malditos, os ricos em nossa linguagem
equivaleria dizer que os bem-aventurados são os que não possuem riquezas, nem
prestígio e que não contam na sociedade; os malditos, ao invés, aqueles que tem
tudo, que são poderosos e respeitados aos olhos do mundo. Mas uma contraposição
tão simplista não dá conta de todo o Evangelho e da atitude de Jesus, o qual,
por exemplo, não se recusa, às vezes, a falar com os ricos e a comer também com
eles.
DESENVOLVIMENTO TEOLÓGICO-EXEGÉTICO
Para compreender com mais profundidade o pensamento
de Jesus é necessário confrontar as duas frases ouvidas, parte por parte:
“a)
bem-aventurados vós, os pobres; b) porque vosso é o Reino de Deus. A) Ai de
vós, ricos, b) porque já tendes vossa consolação”.
O Senhor transforma os conceitos de pobreza e de riqueza; revela um
tipo diferente de riqueza revelando assim um tipo diferente de riqueza e de
pobreza, de modo que a “bem-aventurança” e o “ai de vós” podem ser
parafraseados deste modo:
“Bem-aventurados vós, os pobres, porque na realidade sois ricos! Ai de
vós, ricos, porque na realidade sois pobres!”.
Assim, mostra ter compreendido a bem-aventurança de
Jesus o apóstolo Tiago quando escreveu:
“Não escolheu Deus os pobres deste mundo para que fossem ricos na fé e
herdeiros do Reino prometido por Deus aos que o amam?”. Tg 2,5
A verdadeira oposição,
portanto, não é entre ricos e pobres, mas entre ricos em relação ao mundo e
ricos em relação com Deus. Dessa forma, os conceitos que se deve entender para
compreender o sentido das bem-aventuranças não é tanto, como se vê, o de pobres
e o de ricos quanto o de pobreza e o de riqueza, ou melhor ainda: o de Reino de
Deus, porque é da posse ou da privação deste último que depende o ser ricos ou
o ser pobres.
Neste sentido, uma
pergunta se instaura: o que é a verdadeira riqueza que nos torna
bem-aventurados? Pois bem, a resposta não pode ser outro senão o Reino de Deus
e eis a contradição: pobres que possuem um reino! E o possuem já e agora de
modo que mesmo Jesus tendo aludido à uma compreensão futura deste reino, a
posse presente deste não é anulada, pelo contrário, há uma validação!
Percebemos isso ao vermos Jeremias ao trazer a comparação a uma árvore plantada
ao longo de um riacho, que estende as suas raízes para a torrente; não teme o
calor, suas folhas continuam verdes e produz frutos. A imagem, repetida também
no Salmo Responsorial, descreve o homem que plantou a sua vida na fé em Deus,
como sobre uma fonte inexaurível de consolação e esperança. Quanto mais afunda
nele as suas raízes, quanto mais aprofunda seu mistério e confia nele, mais
verdejante é a sua existência e produz frutos, mesmo quando ao seu redor
perdura a seca. Dessa forma, Jeremias nos oferece uma imagem insuperável para
compreender a real situação deste homem que pode muito bem ser cada um de nós
ao dizer que o contrário dos bem-aventurados, os ricos são como um cardo de
estepe, ou seja, uma planta árida e estéril, condenada a viver no deserto, numa
terra onde ninguém pode viver, para onde estende suas raízes, só encontra areia
ardente e seca
CONCLUSÃO
A Palavra de Deus de
hoje é realmente aquela “espada de duplo corte” que nos divide de forma
pungente interpelando-nos: e agora, entremos em nós mesmos e perguntemo-nos, de
que lado estamos? Entre os que constroem a própria vida sobre si mesmos ou
aqueles que a constroem sobre o Reino de Deus? Entre os que procuram,
primeiramente o reino de Deus ou as consolações meramente humanas e que são
oferecidas neste mundo? Ouvimos que a riqueza dos pobres de Jesus é o Reino de
Deus. Este Reino agora está para vir misteriosamente entre nós e em nós na
pessoa de Jesus que, repartindo seu pão, nos dá a si mesmo. Nós somos, neste
momento, os pobres que alcançam o reino e para conseguirmos êxito em tal feito,
tenhamos o justo equilíbrio que, certa vez, o próprio Cristo mensurou ao dizer,
quando enviou os doze:
“Sede, pois, sábios
como as serpentes, e simples como as pombas - γίνεσθε οὖν φρόνιμοι ὡς οἱ ὄφεις
καὶ ἀκέραιοι ὡς αἱ περιστεραί.”. Mt 10,16
É interessante que a palavra para expressar
sabedoria ou então, “sábios” presente em Mateus tem a mesma raiz da palavra Phronesis. A frônese (do
grego antigo: φρόνησις, translit. phrónesis), na ética aristotélica (ver, por
exemplo, o Livro IV da Ética a Nicómaco), distingue-se de outras palavras com
que se designa a sabedoria por ser a virtude do pensamento prático, sendo
traduzida habitualmente como sabedoria prática. Tem como objetivo descrever
claramente os fenômenos da ação humana, sobretudo mediante o exame dialético
das opiniões, e não apenas descobrir os princípios imutáveis e as causas dessa
ação, e admite que, a partir da opinião (doxa), é possível atingir o
conhecimento (episteme). Para Gadamer, a phrónesis se situa entre o logos e o
ethos.
Sob influência de Heidegger, Gadamer também
tem, na ideia de phronesis (sabedoria prática), um elemento central do seu
pensamento. Para Heidegger, o conceito é importante não apenas como um meio de
dar ênfase ao nosso "estar-no-mundo" prático - em oposição e como
superação da apreensão teórica -, mas, além disso, pode ser considerado como
constituinte de um modo de apreender tanto a nossa situação prática, como,
principalmente, a nossa situação existencial. Portanto phronesis constitui um
modo de autoconhecimento. O modo pelo qual Gadamer concebe 'entendimento' e
'interpretação' é orientado para a prática — como um modo de apreensão que tem
a sua racionalidade própria, irredutível a normas, que não pode ser diretamente
ensinado e que é sempre orientado para o caso particular presente. O conceito
de phronesis de Gadamer pode ser considerado como sendo uma elaboração da
concepção dialógica de entendimento, já presente em Platão . Ambos os termos,
phronesis e diálogo, constituem um ponto de partida essencial para o
desenvolvimento da hermenêutica filosófica de Gadamer.
Sem.
José Demétrio de Camargo
3º ano de Teologia.


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