AS 4 LIÇÕES DAS ‘BODAS DE CANÁ’: COMO TRANSFORMAR A VIDA DA ÁGUA PRO VINHO - II DOMINGO DO TEMPO COMUM – ANO C

 

ASPECTOS INTRODUTÓRIOS

            Como já mencionado na Festa do Batismo do Senhor, em certo sentido, a liturgia deste Domingo comum ainda está ligada ao Santo Natal, tempo da manifestação do Senhor: na liturgia da Igreja antiga, a festa da Epifania, da Manifestação do Senhor, celebrava, de uma só vez e num só dia, a visita dos Magos, o batismo de Jesus e as bodas da Caná, pois são três momentos da Manifestação do Senhor Jesus Cristo:

1)     1)  aos Magos, Ele Se manifestou como Rei dos Judeus pelo brilho da Estrela;

2)     2) no batismo, o Pai O manifestou como Messias de Israel, ungindo-O com o Espírito Santo para a missão e,

3)     3)  em Caná, Jesus manifestou a Sua glória ao transformar a água em vinho, e os Seus discípulos creram Nele.

Portanto, o clima de Manifestação, de Epifania Daquele que veio do Pai para nossa salvação continua pungente!

 

DESENVOLVIMENTO  TEOLÓGICO-EXEGÉTICO           

No domingo passado, com a festa do Batismo do Senhor, demos início ao caminho do tempo litúrgico chamado “comum”: Mas, o que é o Tempo Comum? Para isso podemos ter duas respostas:

1)     1)   O tempo em que seguimos Jesus na sua vida pública, na missão para a qual o Pai o enviou ao mundo.

2)     2)  É o tempo que, pelos milagres ou sinais de Jesus, somos convidados a percebe-lo no cotidiano de nossa vida, pois perceber Deus nas grandes solenidades é fácil. 

 No Evangelho de hoje (cf. Jo 2, 1-11) encontramos a narração do primeiro milagre de Jesus. O primeiro destes sinais prodigiosos decorreu na aldeia de Caná, na Galileia, durante a festa de um matrimónio. O mais surpreendente, no evangelho de hoje, é que João usa a imagem de um casamento para falar-nos das relações de Deus com a humanidade. Tudo acontece no contexto de um casamento, a festa humana por excelência, o símbolo mais expressivo do amor, a melhor imagem da tradição bíblica para evocar a comunhão definitiva de Deus com o ser humano.

 Não é por acaso que no início da vida pública de Jesus haja um casamento, porque n’Ele Deus se uniu à humanidade: é esta a boa nova, embora quantos o convidaram ainda não saibam que à sua mesa está sentado o Filho de Deus e que o verdadeiro esposo é Ele. Jesus manifesta-se como o esposo do povo de Deus, anunciado pelos profetas, e revela-nos a profundidade da relação que nos une a Ele: é uma nova Aliança de amor.

 

Mas será que realmente é uma aliança de Amor para conosco? Como perceber isso? Ora, recorramos ao texto!

 

“Naquele tempo: Houve um casamento em Caná da Galiléia. A mãe de Jesus estava presente. Também Jesus e seus discípulos tinham sido convidados para o casamento”.

 

Ao narrar a festa de casamento, São João não informa nada sobre o nome dos noivos... “Houve um casamento”, mas, casamento de quem? O verbo HAVER (como neste caso) quando tem o sentido de existir, acontecer ou de tempo decorrido é impessoal, ou seja, não possui sujeito. Então, de quem é o casamento?

 Ora, meus caros, é de caso pensado! O Evangelista tomou um fato histórico e deu-lhe um sentido espiritual e teológico:

- O verdadeiro noivo é o Cristo, Deus em pessoa que vem desposar Sua esposa, o Povo de Israel e, mais precisamente, o novo Israel, a Igreja, representada pela Mulher – a Virgem Maria!

Tudo, na perícope do Evangelho, fala disso: porque o Messias-Esposo chegara, a água da Antiga Aliança e é neste contexto que compreende-se plenamente o sentido do símbolo do vinho, que está no centro deste milagre. Precisamente quando a festa chega ao ápice, acaba o vinho; Nossa Senhora dá-se conta disto e diz a Jesus: ”Não têm vinho”(v. 3). Porque teria sido desagradável continuar a festa com água! Uma má figura para aquelas pessoas. Nossa Senhora dá-se conta e, dado que é mãe, vai ter imediatamente com Jesus. As Escrituras, especialmente os Profetas, indicavam o vinho como elemento típico do banquete messiânico (cf. Am 9, 13-14; Jl 2, 24; Is 25, 6). A água é necessária para viver, mas o vinho exprime a abundância do banquete e a alegria da festa. Uma festa sem vinho? Era inconcebível! Por isso que Jesus transforma a água em vinho: 

a)      A água (da purificação segundo os ritos judaicos da Lei de Moisés) foi transformada no vinho da Nova Aliança (o vinho, símbolo da alegria e da exultação do Espírito Santo, que é fruto da Morte e Ressurreição do Senhor).

É esta a glória que Jesus manifestou, é este o sinal: TRANSFORMA A LEI DE MOISÉS EM EVANGELHO, PORTADOR DE ALEGRIA. 

ATUALIZAÇÃO

Bem, até aqui vemos e compreendemos o sentido teológico e espiritual que a liturgia de hoje quer nos mostrar, porém, qual o sentido disso tudo pra minha vida? O que, de prático, posso levar pra casa?

Pois bem, percebamos o seguinte:

“Sinal” não é um simples milagre; “sinal” é um gesto do Senhor Jesus, carregado de sentido profundo, que revela Sua Pessoa, Sua missão e Sua obra de salvação.  Então, qual era a missão de Jesus? Transformar, mudar, fazer novo de novo! A transformação aqui é o que Cristo quer fazer em ti: transformar a sua vida da água pro vinho, de algo que é sem gosto, sem cheiro e sem sabor em algo com um gosto marcante, agradável, de vívida cor e pleno de vida e alegria. Mas para isso acontecer, precisamos aprender a fazer 3 lições que o Evangelho de hoje nos dá:

 

1)      Recorra, sempre, à Virgem Santíssima

Assim diz o Evangelho: “Como o vinho veio a faltar, a mãe de Jesus lhe disse: 'Eles não têm mais vinho'.

Jesus respondeu-lhe: 'Mulher, por que dizes isto a mim? Minha hora ainda não chegou.' Sua mãe disse aos que estavam servindo: 'Fazei o que ele vos disser'.

 

            Ora, se faltou vinho, é porque antes havia vinho. Já vimos que o casamento é também o sinal da aliança de Deus para conosco. Sempre que você sentir que na sua vida a sua alegria está acabando, junto com ela as suas forças estão sendo perdidas e que você não vÊ mais sentido em viver, existir, que não sente mais forças para continuar, que tudo parece que está dando errado, QUE O VINHO ACABOU, recorra sempre à Virgem Santíssima, a Virgem Maria!

 

2)      Deus opera milagres e atende pedidos, sim! Mas você deve fazer a sua parte para isso acontecer

 

Diz o Evangelho: “Estavam seis talhas de pedra colocadas aí para a purificação que os judeus costumam fazer. Em cada uma delas cabiam mais ou menos cem litros. Jesus disse aos que estavam servindo: 'Enchei as talhas de água'. Encheram-nas até a boca.

 

            Vejam o cenário: o casamento estava no maior sucesso, todos animados, acaba o vinho, Jesus pede pra que eles carreguem as talhas, levem para fora, encham de água (cada uma delas), depois pede pra que eles as trouxessem para dentro e então levem ao mestre-sala. Não seria mais fácil Jesus já ter enchido as talhas direto? Sim, mas Deus opera milagres e atende pedidos, sim! Mas você deve fazer a sua parte para isso acontecer.

            Tem gente que vive pedindo milagre pra Deus mas não faz nada! Ou então, vive cobrando Deus mas também não faz nada!

 

Dante Alighieri: “Oh homem, fostes feito para o alto, para a glória! E se contentas em rastejar seu rosto no pó!”.

 

3)      Questione menos, agradeça mais!

 Diz o Evangelho: “ O mestre-sala experimentou a água, que se tinha transformado em vinho. Ele não sabia de onde vinha, mas os que estavam servindo sabiam, pois eram eles que tinham tirado a água. O mestre-sala chamou então o noivo e lhe disse: 'Todo mundo serve primeiro o vinho melhor e, quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora!'

 

As vezes nos preocupamos demais com coisas que não saíram da nossa cabeça, com coisa que sequer existiram! As vezes perguntamos demais e ficamos maquinando as coisas na esperança de encontrar uma solução, inclusive quando as coisas boas acontecem, temos a audácia de desconfiar... Pare! Quando coisas boas acontecerem em sua vida e você não souber a origem, agradeça, pois com certeza veio de Deus!

 

4)      Pra Deus, dê sempre o seu melhor! 

Assim diz o Evangelho: “'Todo mundo serve primeiro o vinho melhor e, quando os convidados já estão embriagados, serve o vinho menos bom. Mas tu guardaste o vinho melhor até agora!'.

 Jesus sempre nos dará o melhor vinho, mesmo que o processo pareça trabalhoso, penoso ou demorado, Ele sempre nos dará o melhor! E nós, será que fazemos o mesmo? Tem gente que em suas orações pede chuva à Deus, mas quando chove, não vai a Igreja porque está chovendo... ou então está frio demais, calor demais... Passa metade do dia falando da calça do outro, da roupa do outro, de como ele está mal vestido, mal arrumado, ou seja, passa o dia cuidando mais da vida do outro do que a própria vida e quando vem à Igreja e a Celebração e a Missa passa de 1 hora, já não aguenta mais ficar sentado naquele banco... Tanto tempo dispõe para as outras coisas e nada para Deus.

Mas tu guardaste o vinho melhor até agora... Será mesmo que temos guardado? Ou será que ao invés de vinho, temos ofertado vinagre à Nosso Senhor? 

CONCLUSÃO

O Senhor manifestou a Sua glória e Seus discípulos creram Nele! O Senhor Se manifesta agora, pela Sua Palavra e pela Sua Eucaristia, e nos reúne na força amorosa do Espírito Santo! Creiamos! E que nossa Eucaristia seja toda ungida, toda doçura, toda renovação da nossa vida em Cristo: “Felizes aqueles que foram convidados para o banquete das núpcias do Cordeiro” (Ap 19,9). 

Certa vez, no Angelus, disse o Papa Francisco: “Gostaria de evidenciar uma experiência que certamente muitos de nós tiveram na vida. Quando nos encontramos em situações difíceis, quando surgem problemas que não sabemos como resolver, quando sentimos muitas vezes ansiedade e angústia, quando nos falta a alegria, vamos ter com Nossa Senhora e dizemos: “Não temos vinho. Acabou o vinho: olha como estou, olha para o meu coração, olha para a minha alma”. Digamo-lo à Mãe. E Ela irá ter com Jesus para lhe dizer: “Olha para este, olha para esta: não têm vinho”. E depois, voltará para nos dizer: “Fazei o que Ele vos disser!”.

 Para cada um de nós, haurir da ânfora equivale a confiar-se à Palavra e aos Sacramentos para experimentar a graça de Deus na própria vida. Então também nós, como o chefe de mesa que provou a água transformada em vinho, possamos exclamar: “Tu, porém, guardaste o melhor vinho até agora!”.(v. 10). Jesus surpreende-nos sempre. Falemos à Mãe para que diga ao Filho, e Ele surpreender-nos-á, pois por mais inúmeras e imprevisíveis que sejam as situações e momentos de nossa vida, “todas estas coisas as realiza um e o mesmo Espírito, que distribui a cada um conforme quer”.

 

Sem. José Demétrio de Camargo

 3º ano de Teologia.

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