ONDE ESTÁ DEUS? APROXIMAÇÕES ENTRE O “CRISTIANISMO ANÔNIMO” DE KARL RAHNER E A TEOL. BÍBLICA DE SÃO PAULO E SÃO JOÃO - UMA LEITURA EXEGÉTICO-TEOLÓGICA DA SOLENIDADE DA EPIFANIA DO SENHOR
- ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
Natal e a Epifania: público conhecimento da divindade do Menino-Jesus
- DESENVOLVIMENTO EXEGÉTICO-TEOLÓGICO
A Epifania através da Sagrada Escritura: desenvolvimento exegético
O “Cristianismo Anônimo de Karl Rahner: desenvolvimento teológico
A Fé que opera pelo Amor – Aproximações entre Rahner, São Paulo e São João
- CONCLUSÃO
Onde está Deus? Onde há caridade e amor, Deus aí está - Ubi caritas et amor, Deus ibi est.
ASPECTOS INTRODUTÓRIOS - NATAL E A EPIFANIA: PÚBLICO CONHECIMENTO DA
DIVINDADE DO MENINO-JESUS
A
Solenidade da Epifania era celebrada no Oriente desde o séc. IV sendo uma das
mais antigas comemorações cristãs, bem como a Ressurreição de Nosso Senhor.
Não nos devemos
esquecer que a Encarnação do Verbo se tornou efetiva logo após a Anunciação do
Anjo, entretanto, apenas Maria, Isabel, José e provavelmente Zacarias tiveram
conhecimento do grande mistério operado pelo Espírito Santo. O restante da
humanidade não se deu conta do que se passava no período de gestação do Filho
de Deus humanado. A Revelação feita pelos Profetas era voltada em certo
mistério que só após o testemunho dos Apóstolos se tornou evidente.
Se, por assim dizer,
no Natal Deus se manifesta como homem, na Epifania esse mesmo homem se revela
como Deus. É como disse, certa vez, Santo Agostinho:
“Celebramos, recentemente, o dia em que o Senhor nasceu entre os
judeus; celebramos hoje o dia em que foi adorado pelos pagãos. Naquele dia, os
pastores o adoraram; hoje, é a vez dos magos”.
A epifania, portanto,
é a manifestação de Cristo aos povos pagãos representados nos magos do Oriente
que vieram visitá-lo e adorá-lo em Belém. Todos nós sabemos que Deus “deseja
que todos os homens se salvem e cheguem ao conhecimento da verdade” (1 Tm 2,4).
Todos são chamados à salvação, à santidade, à felicidade eterna.
Há muitas pessoas bem intencionadas que,
ainda que não conheçam Jesus Cristo, no fundo gostariam de conhecê-lo. Nós, os
cristãos, devemos ser os instrumentos eficazes nas mãos de Deus para dá-lo a
conhecer e para fazê-lo amado entre os homens e as mulheres deste mundo. Hoje
em dia, como outrora, muitos fazem a seguinte pergunta: “Onde está o rei dos
judeus que acaba de nascer? Vimos a sua estrela no oriente e viemos adorá-lo”
(Mt 2,2). O que responder?
Onde está Deus? O cristão tem que saber a resposta a essa
pergunta para apresentá-la aos seus semelhantes. Mas um cristão que não procura
estar perto de Deus através da oração, dos sacramentos e da caridade, não
poderá dar a resposta certa. Muitos seres humanos continuam tateando na
escuridão com uma pequena lanterna pendurada na mão e com uma tênue luz, a da
consciência; esta é a luz que não os deixa apagarem-se completamente em meio a
tantos ventos fortes das propagandas enganosas. Essas pessoas perguntam a si
mesmas e aos que passam ao seu lado: onde está Deus?
DESENVOLVIMENTO TEOLÓGICO-EXEGÉTICO
A EPIFANIA ATRAVÉS DA SAGRADA ESCRITURA: DESENVOLVIMENTO EXEGÉTICO
A Sagrada Escritura, no intento de também
responder esta pergunta, estabelece um lúcido e pungente caminho:
Na segunda leitura, São Paulo nos falou de um
Mistério escondido e que agora foi revelado: “os pagãos são admitidos à mesma
herança, são membros do mesmo corpo, são associados à mesma promessa em Jesus
Cristo, por meio do Evangelho”. Eis: com a visita dos magos, pagãos vindos de
longe, é prefigurado o anúncio do Evangelho aos não-judeus, aos pagãos, aos que
desconheciam o Deus de Israel. Ainda Santo Agostinho, explicando o mistério da
festa hodierna, explicava muito bem: “Ele é a nossa paz, ele, que de dois
povos fez um só (cf. Ef 2,14). Já se revela qual pedra angular, este
Recém-nascido que é anunciado e como tal aparece nos primórdios do nascimento.
Começa a unir em si dois muros de pontos diversos, ao conduzir os pastores da
Judéia e os Magos do Oriente, a fim de formar em si mesmo, dos dois, um só
homem novo, estabelecendo a paz. Paz para os que estão longe e paz para os que
estão perto”. É este um dos sentidos da solenidade da santa Epifania do
Senhor!
Hoje, cumpre-se o que o profeta Isaías falara
na primeira leitura: “Levanta-te, Jerusalém, acende as luzes, porque chegou
tua luz, apareceu sobre ti a glória do Senhor! Eis que está a terra envolvida
em trevas, e nuvens cobrem os povos; mas sobre ti apareceu o Senhor, e sua
glória já se manifesta sobre ti! Levanta os olhos ao redor e vê: será uma
inundação de camelos de Madiã e Efa; virão todos os de Sabá, trazendo ouro e
incenso e proclamando a glória do Senhor!” Mas, estejamos atentos, porque a
festa de hoje esconde um drama: a Jerusalém segundo a carne não reconheceu o
Salvador: “O rei Herodes ficou perturbado, assim como toda a cidade de
Jerusalém”. Ela conhecia a profecia, mas de nada lhe adiantou, pela dureza de
coração. É na nova Jerusalém, na Igreja, que somos nós, na nossa Mãe católica,
que esta profecia de Isaías se cumpre. É a Igreja que acolherá todos os povos,
unidos não pelos laços da carne, mas pela mesma fé em Cristo e o mesmo batismo
no seu Espírito.
Que contraste, no Evangelho de hoje!
Jerusalém, que conhecia a Palavra, não crê e, descrendo, não vê a Estrela, não
vê a luz do Menino. Os magos, pagãos, porque têm boa vontade e são humildes,
veem a Estrela do Rei, deixam tudo, partem sem saber para onde iam, deixando-se
guiar pela luz do Menino… e, assim, atingem o Inatingível e, vendo o Menino,
reconhecem nele o Deus perfeito: “ajoelharam-se diante dele e o adoraram”. Com
humildade, oferecem-lhe o que têm: “Abriram seus cofres e lhe ofereceram
presentes: ouro, incenso e mirra”: ouro para o Rei, incenso para o Deus,
mirra para o que, feito homem, morrerá e será sepultado! Os magos creem e
encontram o Menino e “sentiram uma alegria muito grande”. Herodes, o tolo, ao
invés, pensa somente em si, no seu título, no seu reino, no seu poder… e tem
medo do Menino! Escravo de si e prisioneiro de suas paixões, quer matar o
Recém-nascido! A Igreja, na sua liturgia, zomba de Herodes e dos herodes, e
canta assim: “Por que, Herodes, temes/ chegar o Rei que é Deus?/ Não rouba aos
reis da terra/ quem reinos dá nos céus!”. Que bela lição, que mensagem
impressionante para nós: quem se deixa guiar pela luz do Menino, o encontra e é
inundado de grande alegria, e volta por outro caminho. Mas, quem se fecha para
esta luz, fica no escuro de suas paixões, na incerteza confusa de suas próprias
certezas, tão ilusórias e precárias… e termina matando e se matando!
O “CRISTIANISMO ANÔNIMO DE KARL RAHNER: DESENVOLVIMENTO TEOLÓGICO
Contudo, quem são os pagãos dos nossos
tempos? Será que a via do Ecumenismo tão apregoada pelo Concílio Ecumênico
Vaticano II tem sido respeitada? Será que temos preferido os muros às pontes?
Pois bem, nesta esteira,
o teólogo alemão e padre jesuíta Karl Ranher, lançou à termo o conceito de “Cristianismo
Anônimo” que muito pode contribuir para a presente reflexão. Para muitos
especialistas, sua teologia marca a entrada da Igreja Católica na modernidade.
Para outros, teve um papel decisivo na adesão à conceitos e teorias até então
considerados de difícil digestão dentro da Igreja Católica, sendo bastante
criticado por teólogos e estudiosos que condenam o Concilio Vaticano II. Entre
outros temas, Rahner aborda o pluralismo religioso, a espiritualidade, o
pós-modernismo, o ecumenismo, a ética e seus desdobramentos na política.
Participou como perito conciliar (teólogo) do Concílio Vaticano II (1962-1965).
Em 1965, foi um dos fundadores da revista Concilium, juntamente com Antonie van
den Boogaard, Paul Brand, Yves Congar, O.P., Hans Küng, Johann Baptist Metz e
Edward Schillebeeckx, O.P. A revista se tornou um importante fórum da teologia
católica contemporânea. Vale salientar sua ligação com o então Card. Joseph
Ratzinger e Von Balthasar, sendo considerado por Battista Mondin o maior
teólogo do Século XX.
Passado as
apresentações, se faz apto e necessário o desdobramento conceitual, pois
afinal, o que é o “Cristianismo Anônimo” desenvolvido por Karl Rahner?
Se a vontade de Deus é a
salvação universal, como vimos, e se Deus não conhece limites outros que a
liberdade humana que ele mesmo quis como tal, então deve obrigatoriamente haver
a possibilidade de que todos os seres humanos se salvem, dentro ou fora do
cristianismo. Rahner afirma que aqueles que não aderem a Cristo explicitamente
e não pertencem institucionalmente à Igreja Católica são, na verdade, “cristãos
anônimos”. Este conceito parece inspirar-se nas “sementes do Verbo”, que,
segundo Justino de Roma, do século II, estavam presentes já na filosofia grega,
e que preparam as culturas para receber a verdade do cristianismo. Mas Rahner
vai muito além: para ele, não se trata de esperar que as “sementes do Verbo”
germinem e se tornem também cultura cristã. De fato, pelo mistério da
Encarnação, crê-se que Jesus é verdadeiramente o “mediador entre Deus e os
seres humanos” (1Tm 2,5) e não apenas entre Deus e a cristandade. A redenção
acontece realmente pela entrega de Cristo na consumação de seu sacrifício por
amor e na ressurreição que o eleva à condição de cabeça não somente da Igreja,
mas da humanidade inteira.
Para Rahner, “a revelação expressamente
cristã se torna a afirmação explícita da revelação da graça que o ser humano
sempre experimenta implicitamente nas profundidades de seu ser” . Assim, Rahner
acredita que, sem cair no relativismo em relação à unicidade da salvação por
meio de Cristo, é possível afirmar que a salvação não está confinada nos
limites da instituição católica ou do cristianismo. Mas com isso a Igreja não
perde sua identidade nem sua importância. A Igreja é a tematização da presença
salvífica da graça incriada no mundo a partir da encarnação: “...o cristão
não é mais tanto alguém que possui a graça (como se fosse mais ou menos certo
que este não fosse o caso dos não-cristãos), mas alguém no qual a graça deseja
revelar-se historicamente”.
Com esse argumento, Rahner propõe a solução
para vários problemas teológicos que a Igreja passa a enfrentar com o advento
da modernidade: (a) a justificação pela fé e a importância das obras, tema que
emergiu na Reforma protestante; (b) a liberdade religiosa e a necessidade
implícita ou explícita da Igreja para se receber a salvação; (c) o diálogo
ecumênico e inter-religioso; (d) a tarefa missionária da Igreja frente às
culturas não-cristãs etc.
É justamente por causa desse insight que Karl
Rahner é considerado um dos mais importantes teólogos do Vaticano II, que foi
onde o catolicismo finalmente tornou oficial essa interpretação aberta e
inclusivista do “Extra ecclesiam nulla salus”.
É importante registrar algumas das críticas
que esta teoria rahneriana do cristianismo anônimo recebeu por parte dos
teólogos seus contemporâneos: enquanto os conservadores a atacam ainda hoje
por, segundo eles, relativizar a necessidade de Cristo para a salvação, por
outro lado, para Moltmann, por exemplo, Rahner praticamente identifica
humanidade com cristianismo e natureza com graça, e tal postura, longe de ser
favorável a uma antropologia ponderada, eleva-a à condição de totalitária e
triunfalista, pois, no fim das contas, “ser um humano torna-se a
universalização da particularidade de ser um cristão; e ser um cristão torna-se
a particularização da universalidade de ser um humano”, o que esvaziaria a
validade de qualquer religião não-cristã buscar em si mesma a verdade da
salvação.
A FÉ QUE OPERA PELO AMOR – APROXIMAÇÕES ENTRE
RAHNER, SÃO PAULO E SÃO JOÃO
De acordo com Rahner, se o terreno para a
autocomunicação salvadora de Deus não é exclusivamente a Igreja católica, uma
vez que a graça incriada é dada a todo ser humano independentemente de
religião, então a graça criada que realiza a salvação não é tanto a primeira
virtude teologal, a fé – como tematização da graça –, quanto a terceira virtude
teologal, a caridade, que é o que atematicamente refere todas as coisas a Deus.
Rahner afirma que na Escritura existe uma
extensa variedade de termos para expressar o todo da salvação. Não há apenas
uma palavra que contenha todo o significado da resposta humana à graça
sobrenatural, que possibilita a salvação. “Para São Paulo, por exemplo, a
‘palavra de ordem’ é ‘fé’. […]. A palavra-chave para tudo em São João não é fé,
mas amor, enquanto os sinóticos substituem mesmo isso por ‘conversão’
(metanoia)” . Assim sendo, em diferentes épocas, podem-se eleger palavras
diversas para expressar esta mesma realidade.
Rahner defende que “o ‘amor ao próximo’ pode
facilmente ser o radical que realmente move as pessoas e a palavra-chave para
hoje”. Pressupondo que o amor ao próximo já é amor a Deus atematizado , sem
necessidade de qualquer referência explícita, Rahner defende que “o amor
teologal necessariamente e por sua própria natureza já integra e conserva a fé
e a esperança dentro de si”, isto é, o amor-caridade equivale à fé como
exigência intrínseca da salvação.
De fato, São Paulo afirma que “a fé opera
pelo amor” (Gl 5,6) e chega a afirmar que “ainda que eu tivesse toda a fé, a
ponto de transportar montanhas, se não tivesse o amor, eu nada seria” (1Cor
13,2). Ora, se a fé tem tal dependência do amor para ter validade salvífica,
isso significa que o amor, de certa forma, é superior à fé ou pelo menos tem precedência
em relação a ela. Portanto, seguindo o argumento de Rahner:
“Onde quer que haja um compromisso absolutamente moral de um modo
positivo no mundo e dentro da presente economia da salvação, ali também existe
um evento salvífico, fé, esperança e caridade, um ato da graça divinizante e,
assim, a caritas é exercitada nele. [...]. Há uma possível distinção lógica,
mas não real, entre um ato moral e um ato salvífico”.
Como se percebe, para Rahner, o amor é a linguagem da graça, a forma plena de correspondência à graça incriada. De fato, “o amor vem de Deus e todo aquele que ama nasceu de Deus e conhece a Deus. Aquele que não ama não conheceu a Deus porque Deus é amor” (1Jo 4,7-8). Nessa afirmação, São João não faz referência a uma exigência a mais do que o próprio amor para se conhecer a Deus. O amor possui em si mesmo todo o necessário para que o ser humano experimente a salvação, como já diz o antigo hino entoado na Quinta-feira Santa, ubi caritas et amor, Deus ibi est.
CONCLUSÃO: ONDE ESTÁ DEUS? ONDE HÁ CARIDADE E AMOR, DEUS AÍ ESTÁ - UBI CARITAS ET AMOR, DEUS IBI EST.
A Solenidade que hoje celebramos nos ensina a
Adorar! Nós devemos ser os primeiros a prostrarmo-nos diante do Deus Criador,
Redentor e Santificador dos seres humanos. Não podemos perder a dimensão de
adoração no cristianismo. Para uma pessoa que entendeu isso, dá pena ver como
em alguns ambientes se trata a eucaristia, o grande dom atual de Deus aos
homens! Dá pena observar algumas celebrações eucarísticas: sem zelo e sem a
observação das prescrições da Igreja para a correta celebração da santa missa,
por parte dos ministros de Cristo; entre conversinhas e atendimentos de
celulares, por parte de muitos fiéis que participam do santo sacrifício da
missa. Desta maneira, não poderíamos apontar a adoração como momento de
encontro com Deus! Eles, os que não conhecem a Deus explicitamente, desejariam
conhecê-lo e adorá-lo. Mas, nós que o conhecemos… Será que o conhecemos mesmo?
Certa vez, disse o saudoso Dom Henrique
Soares: “Que nós tenhamos discernimento: não procuremos esta Estrela do Menino
nos astros, nos céus! Não perguntemos sobre ela aos astrônomos, aos cientistas,
aos historiadores. Sobre essa luz, sobre essa Estrela bendita, eles nada sabem,
nada têm a dizer! Procuremo-la dentro de nós: o Menino é a Luz que ilumina todo
ser humano que vem a este mundo!”.
Portanto, onde está Deus?
Onde há caridade e amor,
Deus aí está
Congregou-nos em Um, o
amor de Cristo
Exultemos, e n'Ele
alegremo-nos
Temamos, e amemos ao
Deus vivo
E de coração sincero nos
amemos!


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