A SALVAÇÃO QUE VEM DE DEUS: A GLÓRIA DA BELEZA E O ESPLENDOR DA FORMA EM VON BALTHASAR E BRUNO FORTE - II DOMINGO DO ADVENTO
PALAVRAS-CHAVE: Esplendor. Glória/Glorificação. Ver.
ESBOÇO:
- ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
- DESENVOLVIMENTO EXEGÉTICO - SITZ IM LEBEN
A espera de Israel
- HERMENÊUTICA
A glória da Beleza
e o Esplendor da glória em Hans Urs von Balthasar e Bruno Forte
- CONCLUSÃO
A Encarnação do Verbo como manifestação
do Esplendor da Glória de Deus: por que é necessário preparar-se para este dia?
ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
Este é um tempo de espera. Um tempo a nos recordar que a humanidade toda espera, mesmo sem saber: neste mundo cansado e ferido, o coração humano espera um sentido para a vida, espera a paz, espera o Amor, espera a plenitude... Para utilizar a linguagem bíblica: espera a salvação! A humanidade esperou e espera. Contudo, como sentir e acreditar nessa salvação hoje, no nosso contexto histórico?
Pois bem, o discernimento das sutilezas do erro que se esconde como verdade para que o esplendor da beleza do mistério da revelação divina possa aparecer, tem sido a principal missão da teologia desde os Padres da Igreja, entre outros Ireneu de Lião. Esta foi também a intuição de Hans Urs von Balthasar perante a armadilha do racionalismo ocidental, contra a qual nos convida a rever o caminho da auto revelação de um Deus que se mostra, se dá e diz a si mesmo para que o homem possa entrar no seu mistério. Isto levou-nos a confiar no caminho balthasariano para exortar ao discernimento do elemento cristão no nosso contexto. O que está em jogo nesta abordagem cujo início é dado no II Domingo do Advento e que culminará na Solenidade do Natal é que, no final, o homem se assume plenamente na figura de Cristo, na medida em que ele é a glória de Deus manifestada e revelando à natureza humana a sua plenitude de si mesmo.
DESENVOLVIMENTO EXEGÉTICO - SITZ IM LEBEN
A ESPERA DE ISRAEL
Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus e põe na cabeça o
diadema da glória do Eterno”. Br 5, 1-2
Esta
perícope do Livro de Baruc tem muitas semelhanças e pontos de contato com o
Deutero-Isaías: o convite a alegrar-se , a tirar as vestes de luto e a vestir
trajes de festa; o retorno alegre dos exilados que voltam, livres, por um
caminho de glória; o caminho de retorno preparado por Deus: montes abaixados,
vales enchidos; a estrada do deserto plantada de árvores. Tanto estas
semelhanças, como o contexto todo, indicam que o autor está referindo-se ao
retorno do exílio. Convida Jerusalém, que aqui simboliza e sintetiza o Povo de
Deus a exultar de alegria pelas maravilhas que Deus vai operar pelos seus
filhos.
Jerusalém, representada na imagem de
uma Rainha, é convidada a depor as vestes de luto, a esquecer os sofrimentos da
destruição, da morte de seus filhos, da vergonha e desonra do exílio e a
revestir-se com vestes de festa e de alegria. Deus mesmo vai oferecer-lhe o que há de mais precioso: um manto de justiça
e um diadema de glória. Isto é, de salvação e glória.
Deus toma a iniciativa de manifestar
diante de toda a terra, isto é, perante todas as nações, a glória e a honra de
seu povo. A humilhação foi causada pelos pecados de Israel, mas Deus, agora
encarrega-se de mostrar que Israel continua sendo seu Povo, a quem ele ama com
ternura e predileção. Então Deus, para isto, muda a situação de Israel e como
sinal desta mudança dá-lhe um novo nome: Paz da Justiça e Glória da Piedade.
Isto significa que, de agora em diante reinará entre o povo de Deus, a paz como
fruto da justiça, a paz que é o supremo bem messiânico, não importa pelas
armas, mas que brota como um fruto espontâneo, da atitude correta frente a Deus
e ao próximo. E a glória da piedade: a glória, a honra e a felicidade que
surgem da adoração amorosa que o povo cultiva para com Deus.
Assim sendo, o Povo de Israel também
esperou. Nos momentos de escuridão da sua história, Israel levantou-se e
continuou o caminho, porque alicerçado na promessa do seu Deus.
Também o povo de Israel esperou. Nos
momentos de escuridão da sua história, Israel levantou-se e continuou o
caminho, porque alicerçado na promessa do seu Deus. A primeira leitura da Missa
de hoje apresenta-nos esta realidade de modo comovente: quando o Povo estava na
maior escuridão do exílio de Babilônia, Deus lhe falou de esperança. Estas
palavras ainda hoje nos tocam e comovem, ainda hoje são para nós: “Depõe a
veste de luto, e reveste, para sempre, os adornos da glória vinda de Deus!
Cobre-te com o manto da justiça que vem de Deus e põe na cabeça o diadema da
glória do Eterno!” Deus promete ao Seu Povo a felicidade, a bênção, a glória –
não quaisquer umas, mas aquelas que vêm de Deus! Nosso Deus foi e sempre será o
Deus da promessa, o Deus que nos aponta para um futuro de bênção, que nos enche
de esperança, que faz nosso coração palpitar, sonhando com a paz que ele dará!
Ora,
esta esperança, esta bênção, esta paz, esta plenitude, este futuro, têm e terá
sempre um nome: Jesus Cristo! Tudo se cumpre Nele, tudo se resume Nele; Nele,
tudo é pleno e duradouro: Ele é o Sim de Deus para Israel e para toda a
humanidade!
A
salvação que a humanidade esperou e os profetas prometeram a Israel, no
Evangelho deste Domingo aparece tão próxima: ela entra na história humana; não
fica lá em cima, no céu; entra nas coordenadas dos nossos pobres dias: “No
décimo quinto ano do império de Tibério César, quando Pôncio Pilatos era
governador da Judeia, Herodes administrava a Galileia, seu irmão Filipe, as
regiões da Itureia e Traconítide, e Lisânias a Abilene; quando Anás e Caifás
eram sumos sacerdotes...” Nossa fé não é um mito, nossa esperança não é uma
quimera: ela veio, entrou no nosso mundo, no nosso tempo, no nosso espaço, na
nossa pobre vida, nos nossos dias tão pequenos: “... foi então que a Palavra de
Deus foi dirigida a João, filho de Zacarias, no deserto”. Como é belo o
Advento! João anuncia que chegou o tempo, que com Aquele que vem, o próprio
Deus, em pessoa, faz-Se presente: tempo de salvação, tempo decisão, tempo de
acolher o convite para o Reino! Deus cumpriu e cumprirá Sua promessa, ao enviar
Jesus; Deus satisfez o sonho que Ele mesmo colocara no coração humano, no nosso
coração, ao nos dar Jesus. Deus é fiel!
HERMENÊUTICA – A GLÓRIA DA BELEZA E O ESPLENDOR DA GLÓRIA EM HANS URS VON BALTHASAR E BRUNO FORTE
Nossa
palavra inicial – escreve, ao inaugurar sua obra maior – se chama beleza. A
beleza é a última palavra que o intelecto pensante pode ousar pronunciar porque
ela outra coisa não faz senão coroar, qual auréola de esplendor inaferrável, o
dúplice astro da verdade e do bem e sua indissolúvel relação. É a beleza
desinteressada sem a qual o velho mundo era incapaz de se entender, mas que se
despediu de mansinho do mundo moderno dos interesses, para abandoná-lo a sua
ambição e tristeza.
De certa
forma, Balthasar denuncia o reinado do feio e do mal, afirmando que nenhuma
outra iniciativa, para melhorar a condição humana, pode ser válida longe da
beleza. Os argumentos da verdade têm força à luz da beleza.
Diante
dessa premissa, a falta de sentido pelo belo ocasiona a crise do bem e do
verdadeiro. ―Num mundo sem beleza também o bem perdeu sua força de atração, a
evidência
Não se
trata de uma visão puramente individualista. É o mundo, a humanidade, toda
pessoa, o conjunto, portanto, da comunidade mundial, que fica defasada. Mas,
onde se pode encontrar a beleza? Quem pode anunciá-la? Anuncia-a somente aquele
que a descobre. De tal forma que há uma passagem de um estado místico para o
estético. Ou seja, a experiência da beleza é capaz de moldar o coração e os
sentidos.
Encontrar a
beleza é, então, tarefa vital de cada ser. Embora a dimensão social seja
necessária e válida, trata-se de uma experiência pessoal de contemplação,
caminho que pode e deve ser trilhado na solidão de cada pessoa. Nesse sentido,
Agostinho, mais uma vez, é o protótipo de toda busca sincera pela verdade e luz
que não confundem.
Balthasar
desenvolve também a ideia do Todo no fragmento. Essa possibilidade, que se
concretizou na encarnação do Verbo, não significa um esgotamento do mistério de
Deus revelado na carne humana, como se, analisando o fragmento, pudéssemos ter
uma descrição esgotada do Todo. Ademais, Von Balthasar admira a graça do totalmente
outro auto comunicar-se com a parte, realizando a ascensão da mesma a um
conhecimento fragmentado. Embora tenha sua dignidade, pode diluir-se no Todo.
Mas não é sua vontade, nem sua pedagogia. ―A beleza (...) é o acontecimento da
entrega totalmente gratuita e imprevisível do Todo divino no fragmento, que
realmente o transmite, sem com isso dissolvê-lo em si. Esta poderosa dialética
é plenamente realizada e revelada no evento da encarnação do Filho eterno, a
beleza em pessoa‖.
A beleza é,
pois, o próprio Filho encarnado e crucificado. É nele que Deus assume o tempo,
enquanto criação sua e história, como construção humana. Deus antecipa as alegrias
de sua beleza, manifestando-se de forma presencial e profundamente humana,
sendo capaz de experimentar a real condição física, econômica, política e
religiosa de qualquer pessoa.
Para
Balthasar, compreende-se a estética teológica como a materialização das
palavras eternas. Deus é beleza infinita, incriada e criadora de tudo o que
existe. O tempo e o espaço nada mais são que categorias criadas por Deus. Não
se pode compreender Deus adequando-o a essas categorias que são, apenas, como
tudo mais, obras do Criador. No entanto, pode-se contemplar a capacidade do
Todo, do universal, de Deus ―descer‖ e comunicar-se por meio de realidades que,
embora não se esgotem, apontam para o alto. ―Descer do Eterno‖ e adentrar na
história é, certamente, manifestação da beleza. A percepção dessa realidade
requer, além de uma análise formal, uma atitude de contemplação mística. Já o
ato de contemplar, contém em si, uma relativa beleza. Sobre a estética
teológica destaca Bruno Forte:
“A ―forma‖ do Cristo é a medida mundana que circunscreve e transmite o
divino em seu livre oferecer-se aos homens: a percepção desta forma (Schauder
Gestalt) é o espaço seguro em que a glória da beleza pode resplender mesmo nas
trevas e na provisoriedade característica de toda experiência dos habitantes do
tempo”.
Para o teólogo italiano, beleza está ligada, portanto, à revelação. Na estética teológica de Von Balthasar, há dois momentos fundamentais do movimento estético da fé: o belo apreende a forma com que o outro se manifesta e deixa-se apreender pela contemplação. Quando se diz que só a beleza salvará o mundo, tem-se presente, de um lado, esse momento e essa concepção de revelação de Deus, e a resposta humana, de outro. A revelação, como mensagem transmitida na gratuidade e no amor, necessita do interlocutor que a decodifique. Dessa forma, o papel do ser humano é de extrema importância; sem ele a revelação tornar-se- ia estéril. No entanto, essa esterilidade resultaria em conseqüência para o próprio ser humano, que ficaria sem a graça, uma vez que Deus não perde sua força pela falta de reciprocidade. Nesse sentido, comenta Forte:
“Aplicando a este fundamento último da percepção da beleza a dúplice
chave, colhida na ontologia do belo, Von Balthasar deduz os dois âmbitos
fundamentais da estética teológica: de uma parte, ela apreende a ―forma‖ em que
o Outro se disse e nesse ato precisa as condições de possibilidades e de
exercício de um real conhecimento do divino pelo humano, a partir da revelação;
doutra, ela se deixa apreender no movimento transgressivo da beleza e,
portanto, na contemplação teológica tanto do descensus Dei, que é a revelação e
o dom da graça, quanto do ascensus hominis, que é a salvação tornada assim
possível”.
Mais uma
vez volta à tona a questão se a estética teológica pode atingir um nível
universal. A indagação não é de fácil resposta e explicação. Além de ser uma
discussão teológica, adentra no campo filosófico, principalmente num diálogo
com Kant, que desenvolveu um estudo sobre estética e crítica da razão. Bruno Forte
concorda com Balthasar quando trabalha as categorias universal e particular,
conjugando-as na perspectiva teológica.
Por todo o
exposto, percebe-se que beleza, para Balthasar, está inserida num âmbito em que
Cristo é o centro, ou seja, o Todo no fragmento é a beleza salvífica, o Todo de
Deus que se manifesta em Jesus. Para o teólogo suíço, somente pela percepção da
beleza é que o homem poderá recuperar a Verdade e o Bem. A autocomunicação de
Deus apregoada alhures, também é prestigiada em Balthasar, e a estética e a
forma de glorificação de Deus. A estética teológica de Balthasar é objetiva
enquanto relacionada com a forma e com a revelação de Deus que se mostra para a
humanidade. Também é subjetiva, enquanto esplendor e contemplação, uma vez que
diante da beleza de Deus, o homem se torna passivo, deixando-se encher com a
glória e esplendor do Criador.
A
alteridade da beleza chama à contemplação, atrai pela indescritível
transcendência do mistério de Deus que se revela aos olhos do homem. Em
Balthasar a beleza se revela no fragmento, a beleza que se oculta no rosto do
Filho, escondida no Verbo que se fez carne, é caminho de meditação a respeito
do conceito de beleza. Portanto, beleza, como esplendor da forma, se mostra no
evento da encarnação e a glória de Deus se manifesta essencialmente no amor de
Deus.
CONCLUSÃO – A ENCARNAÇÃO DO VERBO COMO
MANIFESTAÇÃO DO ESPLENDOR DA GLÓRIA DE DEUS: POR QUE É NECESSÁRIO PREPARAR-SE
PARA ESTE DIA?
Contudo,
qual é a primeira manifestação gloriosa do Senhor? Von Balthasar diz que a
primeira kênosis de Deus foi o nascimento de Jesus Cristo, a encarnação do
Verbo, ou seja, a Encarnação do Verbo é a Manifestação da Glória de Deus, é a
manifestação da nossa Salvação, escondida na forma daquela pequena e frágil criança.
Que,
por hora, enquanto a coroa do esplendor de Deus não pode ser colocada sobre a
nossa cabeça ao menos nos vistamos com o manto da justiça que vem da sua
Palavra proferida por João Batista: preparai o caminho do Senhor!”.


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