A BEM-AVENTURANÇA DA PERSEGUIÇÃO COMO CAMINHO DE SANTIDADE - SOLENIDADE DE TODOS OS SANTOS
ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
Ainda antes da vinda do Salvador Jesus, um famoso arquiteto chamado Marco Agrippa elevara em Roma um magnífico templo chamado Panteon, consagrado a todos os deuses, conhecidos e desconhecidos.
Quando Roma foi convertida ao cristianismo, esse templo não foi destruído: se os pagãos tinham os seus deuses mentirosos, não tínhamos nós os nossos santos honrar? Por isto, pelo Papa Bonifácio IV, foi ele consagrado ao culto dos mártires que em todas as partes da terra haviam oferecido a Deus seu sangue e sua vida. Do culto de todos mártires ao culto de Todos os Santos foi um passo muito breve: eis a razão. Dessa forma quer nos convidar a voltar nossos olhos para a Jerusalém celeste onde vivem os que foram “santificados no sangue do cordeiro” depois de terem passado “pela grande tribulação”, comemorando portanto, os santos canonizados através dos tempos e os milhares de homens e mulheres anônimos que atingiram uma eminente santidade de vida mesmo sem receber a honra dos altares, lembrando-nos que todos somos chamados à santidade; de que o nosso destino é Deus; de que não temos morada definitiva nesta terra. Caminhamos, portanto, para o amanhã de nossos dias construindo no tempo que passa nosso rosto interior de santidade nas tarefas de cada dia e no compromisso com o Evangelho. Dessa forma, a santidade não é somente questão de preces e de orações, pois é Deus que nos santifica e assim passamos a ter um agir tal que corresponda a nossa dignidade de santificados por Deus.
ESTRUTURA PANORÂMICA.
A Primeira Leitura tem com o objetivo descrever a felicidade dos mártires e dos santos enquanto pertencentes à realidade celeste, ou seja, no céu, e como essa realidade é invisível, João recorre a uma visão.
O Salmo mostra que para adentrarmos o Reino dos Céus é necessário a bem-aventurança dos corações puros e que nós, enquanto Igreja, somos esse povo que caminha rumo à santidade.
A Segunda Leitura nos recorda que desde o nosso Batismo, ou melhor, a partir dele, somos chamados de Filhos de Deus e que dessa forma, somos convidados, por meio da nossa vida, levando em conta nossas dificuldades, a nos aproximarmos de Cristo, pois é assim que alcançaremos a contemplação da face de Deus.
O Evangelho recorda que no Reino celeste nos é reservado a Felicidade, uma vez que ele é a fonte da Alegria.
Dessa forma, há um elemento de união em toda a Liturgia de hoje: de que a santidade é a condição para nossa Felicidade enquanto verdadeiros filhos de Deus, e é sobre isso que gostaria de discorrer no dia de hoje, tendo em mente a última Bem-aventurança apresentada por Jesus, como um excelente meio para alcançar a Santidade, fim último e causa da verdadeira Felicidade.
DESENVOLVIMENTO EXEGÉTICO-TEOLÓGICO
Em nossa sociedade é gritante a deturpação da ideia de Santidade, ao ponto que esta não é mais vista como um dever do cristão, chegando até mesmo ao extremo de ver essa concepção como uma fuga do tempo presente, ou seja, pensar em ser santo torna-se sinônimo de fugir dos próprios problemas, de não aceitar-se e nem aceitar os sofrimentos, e quando isso vai sendo enraizado no modo de viver das pessoas, estas vão se tornando frias, extremamente calculistas e pessimistas, pois acaba vivendo sem ter motivos, apenas pensando nos prazeres imediatos e nas “alegrias” da vida, pois essa concepção, em nome de uma liberdade e de uma autonomia de vida cerceia uma das maiores contribuições do cristianismo: a capacidade de ressignificar os acontecimentos da vida. A 1ª Leitura e o Evangelho mostram exatamente isso, seja na “tribulação” na 1ª leitura, seja na “perseguição” presente no Evangelho a “nova forma de ver as coisas” será dada por meio do exercício da justiça, ou seja, aquele que pratica a justiça torna-se capaz de conferir um novo sentido as perseguições e situações da vida. Aqui vale esclarecer um aspecto importante que trás luz a respeito dessa justiça: Mateus, ao falar da justiça utiliza uma palavra muito importante: δικαιοσύνης (dikaiosynēs) que expressa que essa justiça não se trata somente de uma justiça humana, baseada em Leis, contratos ou um conjunto teórico juridicamente estabelecido, mas indica algo muito maior e mais importante: é o ato de fazer o que Deus quer ou exige, de modo que o v.10 no nosso Evangelho poderia ser traduzido de: “Bem-aventurados os perseguidos por causa da justiça” para “Felizes os que são perseguidos por fazerem o que Deus quer. Ou seja, a justiça que nos encaminha para uma vida de Santidade é a justiça humana, mas sim a de Deus! Quem de nós diante de uma situação não dissemos: “Mas isto não é justo!”. Ou então, para justificar nossa raiva, inveja, não dissemos: “Justiça seja feita!”, ou então até Deus envolvemos para justificar a impureza de nossos corações: “Bem feito, Deus é justo, Ele não falha!”. Será que fato, quando utilizamos a palavra justiça, realmente estamos conscientes de que ela é “fazer a vontade de Deus”?
Dessa forma, torna-se possível compreender em que consiste a justiça que Mateus coloca no texto que acabamos de ler, contudo, para ficar ainda mais visível a nós, podemos caminhar mais adiante e entender o porque esse “fazer a vontade de Deus” nos conduz a santidade. Esta, como bem nos lembra o Papa Emérito Bento XVI é a “plenitude da vida cristã”, ou seja, Deus, ao criar o homem o criou para ser Santo! Este é o nosso maior tesouro e perder essa certeza é distanciar de nossa própria finalidade, nossa própria condição, de modo que ser Santo não consiste em realizar fatos extraordinários mas, de conformar nossas pequenas atitudes nas de Cristo, ou seja, de por em prática as outras Bem-aventuranças: ser humilde em espírito, mansos de coração, consolados em Deus, ter fome e sede de sua divina vontade, ou seja, é praticar a humildade, consolação, mansidão, justiça, misericórdia, pureza e paz a cada dia de nossas vidas ao ponto que, vencendo nossas limitações, essas características vão se tornando nossas e nós, mais próximos e semelhantes a Cristo, ou seja: Santos!
ILUSTRAÇÃO: Quando nós veneramos os Santos, não somos idólatras, porque toda a honra deferida a estes termina sempre em Deus, a quem somente se deve a honra, a glória, a adoração. Se vós admirais e louvais um quadro de valor, acaso o pintor se ofenderá? Pois bem, os Santos são as obras artísticas de Deus, o qual esculpiu e pintou o seu semblante na alma deles!
CONCLUSÃO
A Igreja, em sua infinita sabedoria, para que diante de tamanha grandeza que é a nossa Vocação universal à Santidade, não desanimemos ou deixemos nossas limitações e fraquezas nos dominarmos, nos coloca o exemplo dos Santos, homens e mulheres que fizeram de suas vidas um verdadeiro “fazer a vontade de Deus” tornando como que verdadeiros candeeiros acesos no ponto mais alto para que possam iluminar a todos em sua volta, e nisso consiste a Liturgia de hoje: de lembrar-nos que a Bem-aventurança da perseguição é o caminho para a santidade, pois seremos perseguidos por causa da caridade, do Amor, e se assim o fomos, é sinal de que estamos no caminho certo.
Portanto, abramo-nos à ação do Espírito Santo para que Ele transforme a nossa vida e nos capacite à formar esse grande mosaico de Deus que é a santidade, para que o rosto de Cristo resplandeça em nós e no mundo, para que “não tenhamos medo de tender para o alto, para as alturas de Deus; não tenhamos medo que Deus nos peça demasiado, mas deixemos guiar em todas as ações diárias pela sua Palavra, mesmo se nos sentirmos pobres, inadequados, pecadores: será Ele que nos transformará segundo o seu Amor”. (Papa Emérito Bento XVI.
Sem. José Demétrio de Camargo
2º ano de Teologia


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