ONDE FALTA A SABEDORIA DE DEUS, SUPERABUNDA A INFERIORIDADE DO HOMEM! - XXVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO B
PALAVRAS-CHAVE: Sabedoria. Revelar. Riqueza. Inferioridade. Abatimento. Desistência
ASPECTOS INTRODUTÓRIOS – NÓS
FOMOS CRIADOS COM UMA FINALIDADE
“Aquele que chegara correndo e se ajoelhara sôfrego diante de Nosso
Senhor, retirou-se de sua presença triste e abatido. Preferiu conservar seus
bens terrenos, desprezando – fato inédito no Evangelho – o ‘tesouro no céu’
oferecido pelo próprio Deus”. Mons. Clá Dias.
Partindo de São Tomás de Aquino temos a consciência de que “desde toda a eternidade, esteve prevista na mente divina a criação, no tempo, de Nosso Senhor Jesus Cristo enquanto Homem”. Contudo, Deus não o concebeu de forma isolada uma vez que partindo de sua vontade divina quis que servíssemos seu amado Filho. Logo, no ato de pensamento de Deus acerca de Jesus, nós fomos incluídos! Dessa forma, Jesus Cristo torna-se o modelo tomado por Deus para a nossa Criação já que Ele é a nossa causa exemplar: a nossa existência enquanto Filhos de Deus se dá mediante os méritos de Jesus Cristo; desde o início da nossa concepção, já no “pensamento de Deus” cada ser humano está ligado a Cristo; assim compreendemos quando João irá dizer que “todos nós recebemos da sua plenitude graça sobre graça. Assim, à isto chamamos de causa eficiente e por termos sido criados para servir a Cristo e adorá-lo, chamamos de causa formal.
Acerca disto, a Sagrada Escritura atesta inúmeras vezes ao dizer que “n’Ele foram criadas todas as coisas nos Céus e na Terra, as criaturas visíveis e invisíveis, Tronos, Dominações, Potestades: tudo foi criado por Ele e para Ele” (Col 1,16), ou seja, o ser humano foi concebido por e para Jesus!
Nessa
perspectiva, configura-se um chamado feito a nós desde todo o sempre: somos
chamados à santidade, tendo como Mater et Magistra neste ofício a Santa
Igreja. Contudo, por meio deste chamado mais genérico, o próprio Cristo no
chama para um chamado mais específico: o chamado à santidade é universal,
contudo, este não exclui a forma pela qual nós seremos convidados a alcançar
essa santidade. A isto a Igreja chama de chamado particular ou então, numa
linguagem mais pós-moderna: subjetivo.
O Novo
Testamento apresenta inúmeros exemplos a respeito desses chamados subjetivos
feitos pelo próprio Cristo: Mateus é chamado durante seu trabalho na coletoria
de impostos; Paulo é interpelado pela Vox Dei no caminho à Damasco;
Pedro, pasmado diante da pesca milagrosa é convidado a tornar-se pescador de
homens. Tal como Mateus, Paulo ou Pedro, que tudo abandonaram para seguir este
Mestre, o Jovem Rico no Evangelho e hoje sofre a mesma interpelação, contudo,
diferentemente deles, não ouve um consentimento: abatido, retirou-se da
presença de Jesus. A pergunta que se instaura é: por que?
DESENVOLVIMENTO EXEGÉTICO-TEOLÓGICO
- SITZ IM LEBEN
O EPISÓDIO DO JOVEM
RICO
Estamos no capítulo 10 do Evangelho de São Marcos, que,
tão sintético em outras passagens mostra-se minucioso ao narrar o episódio do
Jovem Rico, apresentado como imerso numa procura sôfrega do caminho da
salvação:
A narrativa
vai se desenvolvendo ao ponto de Jesus, movido de amor, dirigir um convite todo
especial aquele rapaz: “Vem e segue-me” de modo que para ajudar aquele rapaz em
sua resposta, no seu discernimento, o próprio Cristo vai apresentando elementos
ou então atributos de sua divindade, como bem compreende-se quando diz: “Por
que me chamas de bom? Só Deus é bom e mais ninguém” uma vez que Cristo procura
chamar a atenção daquele rapaz para algo que está para além das aparências,
para além do simplesmente visível: o lado humano de Jesus. Assim sendo, o
caminho do discernimento tem seu início com o convite à se olhar para o lado
divino de Jesus, pois do contrário, aquele jovem estaria impressionado apenas
com as obras de Jesus, esquecendo-se que elas são um sinal, um indicativo da
divindade do mestre?
Ainda não é
possível responder essa pergunta, mas com ela chega-se ao fulcral da perícope:
a resposta daquele jovem diante do convite de Jesus, sendo que tal convite não
era qualquer convite, mas o mesmo proferido aos apóstolos ao ponto que Filion
comenta:
Diante das
inúmeras possibilidades, fiquemos com a que o texto evidencia: o convite de
Jesus é por demais grandioso para aquele jovem que diante de tal, não se vê
suficientemente apto para dizer sim ao seguimento do Messias. Movido então por
uma insuficiência, um sentimento de “não ser capaz”, aquele homem diz não para
a sua finalidade. Tinha tudo, mas lhe faltou o mais necessário, a sabedoria. Sem a sabedoria nós não atingimos nossa finalidade,
não conseguimos a força e a coragem necessária para o seguimento de Jesus;
antes, desistimos!
ATUALIZAÇÃO
INFERIORIDADE: A
PSICOLOGIA DO DESÂNIMO E DA DESISTÊNCIA
Mesmo fazendo parte da natureza de muitos,
estes não podem ou ao menos não devem deixar-se levar e ser dominados pela
inferioridade, pois a mesma paralisa o homem, o impede - assim como impediu o
jovem rico de vender tudo e seguir a Jesus - de atingir a nossa finalidade.
Pois não nos enganemos, não é somente o dinheiro e o amor as coisas (como no
caso do Evangelho) que nos impede de atingirmos a nossa finalidade. O
questionamento que aqui se instaura é: o que tem impedido o homem de atingir
sua finalidade? Um desses impedimentos que atualmente, de forma gritante tem se
manifestado na existência humana é a inferioridade, ou então o “não ser bom
suficientemente necessário” para algo que se torna expresso mediante o choque
deste ante uma interpelação (assim como no Evangelho).
Um complexo de inferioridade, nos campos
da psicologia e da psicanálise, é o sentimento de que uma pessoa é
inferior a outra, de alguma forma. Tal sentimento pode emergir de uma
inferioridade imaginada por parte da pessoa afligida. É, frequentemente,
inconsciente, e pensa-se que leva os indivíduos atingidos à supercompensação, o
que resulta em realizações espetaculares, comportamento antissocial, ou ambos.
Diferentemente de um sentimento normal de inferioridade, que pode atuar como um
incentivo para o progresso pessoal, um complexo de inferioridade é um estágio
avançado de desalento, frequentemente resultando numa fuga
das dificuldades. Os trabalhos pioneiros neste campo foram realizados por
Alfred Adler (1917), que usou o exemplo do complexo de Napoleão para ilustrar
sua teoria. Alguns sociólogos propuseram que um complexo de inferioridade pode
também existir num nível mais amplo, afetando culturas inteiras. Esta teoria
controversa é conhecida como inferioridade cultural. A psicologia adleriana
clássica faz uma distinção entre os sentimentos de inferioridade primário e
secundário. Diz-se que um sentimento de inferioridade primário está enraizado
na experiência original de fraqueza, desamparo, e dependência experimentadas
por uma criança pequena. Ela pode ser intensificada por comparações com outros
irmãos e adultos. Um sentimento de inferioridade secundário relaciona-se às
experiências de um adulto em atingir um objetivo final inconsciente, fictício,
de segurança e sucesso subjetivos para compensar-se por sentimentos de
inferioridade. A distância percebida daquele objetivo levará a um sentimento
"negativo" que pode então instigar o sentimento de inferioridade
original; este composto de sentimentos de inferioridade pode ser experimentado
como acabrunhante.
Neste sentido, tanto o jovem rico quanto alguns homens e
mulheres de nosso tempo são acometidos, se não por uma síndrome, um complexo de
inferioridade, do qual, como visto, mesmo sendo uma característica da natureza
humana e se fazendo presente em alguns momentos, não pode se tornar
comportamental, ou seja, uma normativa existencial. Para tanto, a própria
Palavra de Deus nos recorda que:
CONCLUSÃO – EM COMPARAÇÃO
COM A SABEDORIA JULGUEI SEM VALOR A RIQUEZA.
Assim compreendemos quando, ao sintetizar a 1ª Leitura, a Igreja a coloca como “Em comparação com a sabedoria, julguei sem valor a riqueza” pois diante do convite de Jesus à nós acerca da nossa busca pela santidade, que é a finalidade do homem, corremos o risco de espantarmos, não nos acharmos suficientes e desistirmos, dizer não ao chamado de Cristo, pois como Ele bem nos lembra: “Meus filhos, como é difícil entrar no Reino de Deus!”
Que, movidos pelo espanto de tamanha proposta de Amor de Jesus à nós, ao perguntarmos: “Então, quem pode ser salvo?” nos recordemos que “'Para os homens isso é impossível, mas não para Deus.
Para Deus tudo é possível”. Ao ponto de então buscarmos a Sabedoria que vem do alto, a Sabedoria de Deus, pois onde falta a Sabedoria de Deus, superabunda a Inferioridade do homem e esta o impede de alcançar a sua finalidade!
Sem. José Demétrio de Camargo
2º ano de
Teologia.


Comentários
Postar um comentário