AMOR X IDOLATRIA - XXXI DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO B

 ASPECTOS INTRODUTÓRIOS

            Amar a Deus, amar ao próximo. Há coisa mais repetida em sermões, conferências, retiros, palestras, encontros? Haveria necessidade de lermos o Evangelho deste domingo, para mais uma vez repetirmos e ouvirmos repetir o mandamento do Amor? A esse respeito, o Mons. Clá Dias ao expressar que somos “criados para amar” descreve que o Santo Cura d’Ars, retornando em certa ocasião do povoado francês  de Savigneux, começou a chorar... Algum tempo depois, revelou ele num sermão o motivo de seu pranto: “Eu voltava de Savigneux. Os passarinhos cantavam no bosque, e eu me pus a chorar. Pobres animaizinhos, pensava eu, Deus os criou para cantar e vós cantais... O homem que foi feito para amar a Deus não O ama!”. Por meio dessa atualização fica evidente que, no entanto, é necessário proclamar o referido Evangelho sempre novamente e aprofundar também teoricamente a centralidade do duplo mandamento para a vivência cristã. O texto do Evangelho e a Leitura do Deuteronômio deste XXXI Domingo do T.C propiciam aprofundar a raiz teológica do Amor a Deus e ao próximo.

DESENVOLVIMENTO EXEGÉTICO-TEOLÓGICO-EXISTENCIAL

AMOR A DEUS X IDOLATRIA

De acordo com a narração dos sinóticos, as contendas entre o Divino Mestre e seus inimigos atingiram o auge  nas vésperas da Paixão. São Marcos relata a sequência de invectivas movidas pelos príncipes dos sacerdotes, escribas e anciãos, fariseus e herodianos, e finalmente, pelos saduceus. Esses últimos que não admitiam a ressurreição dos mortos, indagaram com quem deveria ficar, post mortem, aquela que fora esposa de sete maridos. A resposta de Jesus mostrou o erro que incorriam, por negarem a ressurreição e por considerarem a vida futura de modo materialista. A respeito do ódio que os fariseus nutriam por Cristo, causou-lhes não pequena satisfação comprovar como ele deixara seus interlocutores de lábios amarrados, pois a ressurreição era um dos pontos de divergência entre ambas as seitas.

Neste contexto, a atitude do doutor da Lei a interpelar Jesus acerca de qual seria o maior mandamento, o próprio Cristo cita o texto do Deuteronômio: “Shemá Yisrael Ado-nai Elohênu Ado-nai Echad” que todo judeu piedoso repetia como profissão de Fé e compromisso de Vida. O amor total e absoluto a Deus é fundamento na unicidade de Deus. Adonai é o único Deus, por isso não dispersarás teu coração, honrando a outros deuses. Centrar a vida em Deus é o programa que Dt 6 apresenta ao povo de Israel.

A relação com a unicidade de Deus leva-nos a opor o amor a Deus exigido pelo Deuteronômio à prática da idolatria. Idolatria é adorar o não-adorável, absolutizar o relativo, por como valor supremo da existência o que é um valor não-último. Se Adonai é o único Deus, toda a tentativa de centrar a vida em outra realidade que Adonai, o Deus libertador, é idolatria.

Mas a idolatria já não é algo ultrapassado? Os israelitas do tempo do Deuteronômio poderão ter sido tentados pela idolatria dos povos vizinhos e dos povos dominadores e vitoriosos de então. Os contemporâneos de Jesus também poderão ter sido tentados pela religião dos gregos e dos romanos. Mas nós hoje, em nosso mundo cristão, estamos incorrendo em idolatria? Quais os nossos riscos, fatores ou indícios?

Exatamente nós, hoje, somos fortemente tentados e até compelidos à idolatria. Porque idolatria não requer templos que se considerem formalmente tais, nem estátuas que se adorem, pois a idolatria está presente na vida, quando o valor determinado de nossa existência é qualquer bem que não seja o Bem supremo, nem conduza a ele.

O Documento de Puebla recorda o perigo moderno da idolatria ao apresentar a riqueza, o poder e o prazer como os três ídolos predominantes em nossa cultura. A sociedade capitalista em que vivemos converte a riqueza em ídolo, levando as pessoas a absolutiza-la e a concentrar todo seu esforço em obtê-la ou cobiça-la, fazendo do dinheiro o valor supremo da sociedade. Daí a predominância do capital sobre o trabalho e a brecha cada vez mais aguda entre ricos e pobres. Para assegurar a ordem centrada no capital, ou seja, este modelo, estabelecem-se regimes de força, mais ou menos disfarçados, do qual o poder é um meio de garantir a alguns poucos o acesso tranquilo à acumulação de capital. O prazer, por sua vez, é a válvula de escape nessa luta de vida e morte pela posse do deus supremo e, ao mesmo tempo, prova de poder desse deus que tudo compra, inclusive o amor. Assim se forma a trindade suprema do panteão capitalista: riqueza, poder e prazer.

AMOR AO PRÓXIMO X IDOLATRIA

            Seria a idolatria à riqueza, poder e prazer o único risco que se pode incorrer? É evidente que não pois Jesus acrescenta ao primeiro mandamento um segundo que lhe é inseparável: o amor ao próximo. Aqui parece que nos distanciamos da problemática da idolatria, mas se assim pensar, incorre-se em um grandioso erro que, na tentativa de não eleger os bens materiais como um deus assim o faz das pessoas, pois quando se idolatra algo, põe-se o finito no lugar do infinito, o relativo no lugar do absoluto. Que decorre daí, na prática? O finito, o relativo são sempre limitados , isto é, afirmar-se em oposição ao outro. Para um corpo ocupar determinado lugar no espaço, outros precisam ceder, porque sendo finitos, delimitados, são eles mesmos enquanto não começa o outro de modo que um ente desse tipo, elevado à condição de ser supremo, continua com a mesma tendência: tudo deve ceder para que ele se possa afirmar como valor supremo. Por isso, todo ídolo esmaga, suprime a quem não o serve, consome seus próprios adoradores: o ídolo é insaciável, possessivo, controlador, absolutizador e torna os seus seguidores com as mesmas, senão, características semelhantes, pois o mesmo desfigura e ofusca, deixando a suprema compreensão do amor em uma débil e frágil distorção, exigindo de seus adoradores não somente o sacrifício de si, mas também os outros a quem os adoradores não duvidam em sacrificar para poderem aproximar-se mais do seu deus, pois quando o amor deixa de ser livre e passa a ser uma imposição, o mesmo deixa de trazer vida e passa a fomentar a morte.

            É extremamente necessário tomar o máximo de cuidado para não converter o “amor ao próximo” em “idolatria ao próximo”, pois entre eles existe uma tênue e sutil diferença que pode alterar toda a sua configuração:

             “Um amor possessivo vigia, desconfia, ameaça, intimida, oprime, prende, machuca e pode até matar. Um amor abnegado solta, liberta, confia, cuida, apoia, abençoa e é capaz de dar a própria vida”. Belkis Braz

 

ATUALIZAÇÃO – DEPENDÊNCIA EMOCIONAL: A NEBLINA À OFUSCAR O AMOR

            Dessa maneira, compreende-se o motivo pelo qual o Amor de Deus não é um Amor imposto pois uma vez que tal objeção  é um contrassenso e que não é possível pois o Amor é a coisa mais livre que existe e não se alcança por uma imposição externa, não é possível, também,  existir um “mandamento do amor” pois quando se experimenta o Amor das pessoas livres, a reverência de escravos perde sua consistência, pois para amar é necessário ser semelhante, ter algo em comum ou ao menos ser complementar: é assim que os amigos se amam e o homem ama a sua esposa. Contudo, essas relações de Amor podem ter certos entraves em seu caminho, muitos deles até patológicos do qual a pessoa nem sempre possui controle sobre seus atos, por mais que ela se esforce. Dentre essas patologias destaca-se a Dependência Emocional:

            A Dependência Emocional é uma dependência afetiva que ocorre em relacionamentos interpessoais (amorosos, familiares, amizades). São pessoas com dificuldades de viver bem sem essa figura de dependência ao seu lado. É depositada no outro a expectativa de preencher o vazio, buscando uma completude. Uma pessoa emocionalmente dependente sente medo de errar e assim ser rejeitada, o que faz com que ela não se sinta capaz de tomar decisões ou realizar ações sozinha. Há forte tendência a depender dos outros também para reconhecer suas virtudes e realizar seus objetivos. Alguns sinais que são característicos da dependência emocional: – Dificuldade de dizer não e discordar, por medo de rejeição; – Hábito de fazer tudo pelos outros, com o objetivo de sempre manter a pessoa por perto e fortalecer a dependência; – Ciúme exagerado e exigência de atenção; – Falta de interesse por outras amizades ou relacionamentos; – Incapacidade de planos pessoais que não envolvem a outra pessoa; – Insegurança e hábito de ser possessivo e controlador. Assim compreende-se os motivos que fazem da Dependência Emocional ofuscar o Amor: por meio dela o dependente escraviza o outro, oferece-o e a si mesmo em sacrifício à um ídolo de modo que ambos se tornam escravos, fazendo com que este Amor não possa ser vivido nem entre os homens e muito menos para com Deus. Não! Este não é o parâmetro do Amor, esse é o parâmetro da idolatria.

 OS 4 AMORES – C.S LEWIS

            Contudo, como visto, nem todas as pessoas que sofrem de dependência emocional agirão dessa forma: conceber uma generalização seria um erro colossal, pois vários outros fatores, traumáticos em geral infundiram no sujeito determinadas configurações à serem expressas comportamental e afetivamente em suas relações que não chegam a tal ato, pelo contrário, muitas pessoas assim possuem traços semelhantes e reconhecem suas limitações e dificuldades, sabem que quando imersas nesse estado psíquico-afetivo-social elas se machucam, ferem a si e aos outros. Estas pessoas se sentem num estado de angústia profunda permeada por uma sensação de inferioridade, medo e frustração, sentindo-se sempre inseguras e não suficientes. Elas querem mudar, mas muitas vezes não conseguem reunir as forças necessárias para tal ato, necessitando assim da ajuda do outro, muitas vezes, daquele que sem querer, ela mesma o feriu. Nessa mesma esteira, temos uma outra variante acerca desses aspectos que é a sensação eminente e constante daqueles que possuem, em algum grau a dependência emocional de se sentirem culpados por algo que não está existindo.

            C.S. Lewis, certa vez, disse: “Nós nascemos indefesos. Assim que adquirimos consciência plena, descobrimos a solidão. Precisamos dos outros física, emocional e intelectualmente; precisamos deles para conhecer o que quer que seja, inclusive a nós mesmos”.

            A questão fundamental é a seguinte: como resolver esses e outros imbróglios? A resposta já fora dada por São João Paulo II, quando certa vez escreveu um poema com o seguinte verso: “O amor me explicou tudo”. Somente o verdadeiro amor é capaz de resolver essa situação. Seja ela no matrimônio ou na amizade, somente o verdadeiro e abnegado Amor é capaz de resolver. Somente o Amor é capaz de fazer com que dois seres cruzem as barreiras, obstáculos e limitações que os constituem e num esplêndido encontro realinhem-se e centralizem-se, pois o Amor explica tudo e o Amor tudo cura, tudo renova, tudo fortifica.

            Para auxiliar neste intento, é necessário saber bem quais são os amores que existem e as funções das quais eles devem operar, pois em uma sociedade hedonista e líquida que estamos inseridos, restaurar a noção de Amor é crucial. Para tanto, o escritor britânico e professor universitário C.S Lewis desenvolveu, a partir do próprio Cristo a Ideia dos Quatro Amores, à saber:

            Amor fraternal – Storge (στοργη): é o afeto com a família, especialmente entre os membros da família ou pessoas que se encontraram nesse círculo social. É descrita como a mais natural, emotiva, e difundida forma do amor: natural que existe sem a coerção; emotiva porque é o resultado do afeto devido à familiaridade; e difundido o mais extensamente porque dá menos atenção aquelas duas características julgadas “valiosas” ou dignas do amor e, em consequência, pode transcender a maioria de fatores discriminadores. Ironicamente, sua força, entretanto, é o que a faz vulnerável. A afeição tem a aparência de estar “pré-fabricada” ou “pronta”, diz Lewis. Em consequência disto, as pessoas esperaram sua presença e comportamento naturalmente.

Amizade - Philia (φιλια): é uma forte ligação entre pessoas que compartilham um interesse ou uma vida comum, é a amizade entre amigos e companheiros. Lewis explicitamente diz que a definição de amizade é mais estreita do que o mero companheirismo: A amizade em seu sentido real existe somente se houver algo para que a amizade esteja “embasada”. Esta é a menos natural dos tipos de amores, citados por Lewis; pois não é necessário um(a) progenitor(a) para ter afeição (storge), não tem o amor romântico e desejo envolvidos (eros) ou amor incondicional e divino (ágape).Ele tem menos associação com impulso ou emoção. Apesar destas características, era a opinião dos antigos (e do próprio Lewis) que ele é o mais admirável dos amores porque ele não olha ao amado (como o eros), mas ele olha em busca do “embasamento”- por que o relacionamento lhe deu forma. Sem o benefício da amizade para enfraquecer a solidão e outros aspectos da psique humana, a humanidade certamente estaria em ruínas. A amizade em si é o maior dos bens.

Amor romântico – Eros (έρως) é o amor no sentido de “amor romântico”. Muitas vezes associado à sexualidade e suas vertentes, com seus pecados e prazeres. Lewis identifica o Eros como indiferente. Isto é bom porque promove a apreciação do amado não obstante com todo o prazer que puder ser obtido dele. Pode ser mal, entretanto, porque esta devoção cega esteve na raiz de muitas das tragédias, das mais abomináveis da história. De acordo com seu aviso que o “amor começa a ser demoníaco…”, adverte de encontro ao perigo da elevação do Eros ao status de um deus, ou seja, a idolatria do amor. É intenso e um dos piores tipos de amor, pois pode ser cruel e inebriante ao mesmo tempo.

Amor incondicional - Ágape (αγαπη) é um amor considerado divino e incondicional. Lewis reconhece este como o maior dos amores, e vê-o como uma virtude especificamente cristã. O capítulo focaliza a necessidade de subordinar os amores naturais ao amor de Deus, que está repleto de amor caridoso. Lewis indica que “está assim cheio pelo fato que transborda e não pode ajudar-nos a amar.” Lewis compara metaforicamente o amor com um jardim, a caridade com os utensílios do jardineiro, o amante como o próprio jardineiro, e Deus como os elementos da natureza. O amor e a orientação de Deus agem em nosso amor natural (que não pode remanescer o que é por si) como o ato do sol e da chuva em um jardim: sem um ou outro, o objeto (metafórico do jardim; realisticamente o amor próprio) cessaria de ser bonito ou digno.

Assim, compreende-se que, a partir dos 4 Amores em C.S. Lewis, é o Amor romântico – Eros (έρως) que, quando não cuidado, não zelado, pode inferir e transmutar em uma idolatria, seja do próximo, seja das coisas. Ter a consciência da ação desses amores possibilita à pessoa uma clareza maior diante de seus atos e de sua própria existência: O Amor incondicional - Ágape (αγαπη) é destinado a Deus e por fim, o Amor Amizade - Philia (φιλια) constitui de uma beleza ímpar capaz de restaurar vidas.

 

CONCLUSÃO - TER POR CRISTO ACESSO AO PAI É SEGUIR O CAMINHO DE JESUS: SER PARA OS OUTROS. O RESTO É RETÓRICA.

O escriba, reconhecendo a identidade entre adoração a Deus, Amor a Deus e Amor ao próximo (ou negativamente entre idolatria e morte do irmão), não está longe do Reino de Deus. E Jesus o declara abertamente, porque aqui está a medida da nossa religião. Estamos ligados a Deus, adoramo-lo de verdade, quando o Amor ao próximo é realidade em nossa vida. Se não, todo o gesto ritual de adoração é oco. Como também haverá muitos que se pensam ateus e, no entanto, são verdadeiros adoradores do Pai em Espírito e verdade.

Ter por Cristo acesso ao Pai é seguir o caminho de Jesus: ser para os outros. Nisso consiste “Amar a Deus de todo o teu coração, de toda a tua alma, de todo o teu entendimento e com toda a tua força! E o teu próximo como a ti mesmo! O resto, é retórica.

 

                                                                                 

Sem. José Demétrio de Camargo
 2º ano de Teologia.

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