A TEOLOGIA DA CRUZ E O ESCÂNDALO DA MORTE DE DEUS: RELAÇÃO ENTRE O SOFRIMENTO, A ESPERANÇA E O ESPÍRITO SANTO - XXIX DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO B

 ASPECTOS INTRODUTÓRIOS – A TEOLOGIA BÍBLICA DO SOFRIMENTO

“É possível viver sem sofrimento? Não seria esta a vida ideal para ser almejada? E para alcançar tal objetivo, o melhor não seria fugir sempre da Cruz e procurar satisfazer em tudo o nosso egoísmo? A vida sem dor é utopia, pura ilusão. E o pior sofrimento para o homem é o de não sofrer ordenadamente, em razão de uma finalidade que não justifique a sua vida”. Mons. Clá Dias.

 Certa vez, ao ouvir o relato da Morte de Cristo, Clóvis, Rei dos Francos disse: “Ah, se eu estivesse lá com os meus francos!”. Assim como para Clóvis, quanto para os apóstolos e evidentemente para nós, custa imaginar como pôde o Divino Salvador ser morto de maneira tão injusta e cruel, sem que ninguém se apresentasse para defende-lo: aquele que tanto curou, tanto libertou, tanto defendeu, terminou seus dias sozinho, distante de todos.

Porém, qual o motivo de tamanha dificuldade em ver em Jesus o Messias prometido? Qual a dificuldade em reconhecer a necessidade de sua morte? A resposta se dá mediante a presente liturgia ao tratar daquilo que podemos denominar como a Teologia do sofrimento.

Na 1ª Leitura, o Profeta Isaías mostra ter Cristo padecido tudo quanto era possível para redimir o gênero humano, como bem nos recorda São Tomás de Aquino, pois “O Senhor quis macerá-lo com sofrimentos. Oferecendo sua vida em expiação, Ele terá descendência duradoura e fará cumprir com êxito a vontade do Senhor. Por esta vida de sofrimento, alcançará luz e uma ciência perfeita. Meu Servo, o justo, fará justo inúmeros homens, carregando sobre Si suas culpas”. Aprouve ao Pai permitir que o Filho fosse macerado com sofrimentos, atribuindo a si o mesmo processo que o trigo é submetido à fim de ser triturado e a uva para ter seu suco extraído: Não era mais o trigo, mas sim o Cordeiro, a divina carne de Cristo, que macerado, triturado no lenho da Cruz teve extraído o Sangue da redenção.

Por meio de sua morte, comprou não somente a nossa salvação, mas essa “ciência perfeita” da qual Isaías menciona, ou seja, para comprar o conhecimento para os outros, devia Jesus padecer. Mostra-se assim Isaías quanto é pela via do sofrimento que, à imitação do Messias, se chega à perfeição: Pelo sofrimento, chega-se à ciência perfeita; pelo sofrimento, se chega à perfeição.

Porém, qual a complicação de tudo isso? Pois bem, é que nossa natureza é avessa à Cruz, tem verdadeiro pânico do sofrimento e o instinto de conservação nos leva a fugir da dor. Esta situação, tão comum à condição humana nos é apresentada pelo Evangelho do 29ª Domingo do Tempo Comum.

 

DESENVOLVIMENTO EXEGÉTICO-TEOLÓGICO - SITZ IM LEBEN

A ÚLTIMA SUBIDA A JERUSALÉM

Jesus Cristo está subindo para Jerusalém e os Apóstolos tentam dissuadi-Lo alegando o quanto punha em risco sua vida devido ao tremendo ódio das autoridades religiosas contra Ele. Porém, Cristo está decidido. Ficam então entre a insegurança do instinto de conservação e a confiança naquele poder misterioso e arrebatador manifestado por Ele em tantas ocasiões. É evidente e expresso a dificuldade que ao Apóstolos tinham de entender a possibilidade de morte de Jesus, pois estes imaginavam um Messias de acordo com a inteligência especulativa deles, com uma perfeição segundo seus critérios humanos que deveria assumir o governo político da nação; nos dizeres de Neusner e partilhada por Jon Day, temos a especificação da libertação de Israel conduzindo-os portanto, para a salvação, mas não somente isto: conduzia-se para um domínio futuro de Israel restaurado sobre as terras circunvizinhas, constituindo-se de um domínio indulgente e benéfico. Contudo, este não era o único motivo pelo qual os judeus não reconheceram Jesus como Messias e que consequentemente dificultava os Apóstolos de reconhece-lo, pois como bem recorda o renomado exegeta Raymond Brown, Cristo inverteu a lógica messiânica de seu tempo, como um ato de dar a ela seu verdadeiro e pleno termo ao ponto de João expor o absurdo que foi o não reconhecimento por parte dos Judeus em perceber que as cogitações e as vias do Salvador eram bem outras e rumavam em direção oposta, do qual, explicitamente o próprio Cristo manifesta nos versículos anteriores à perícope de hoje quando diz que “Eis que subimos a Jerusalém e o Filho do Homem será entregue aos príncipes dos sacerdotes e aos escribas: condená-Lo-ão à morte e entregá-lo-ão aos gentios. Escarnecerão d’Ele, cuspirão n’Ele, açoitá-Lo-ão e hão de mata-Lo, mas ao terceiro dia Ele ressurgirá”.

Porém, paradoxalmente, logo após essa revelação da parte de Cristo, como que fazendo objeção completa do que acabavam de ouvir, Tiago e João fazem então um ousado pedido à Cristo, um pedido despropositado que é acolhido com bondade por Jesus, que mesmo conhecendo muito bem a intenção deles, não os recusa.

 A esse respeito, disse Lagrange: “Parece, pois, que a lição dos sofrimentos ainda não causou séria impressão aos discípulos; não suspeitam qual a finalidade destes na obra messiânica. De qualquer modo, porém, todo o resto não passa de um episódio sobre o qual o pensamento deles desliza para deter-se nessa glória.

 Assim sendo, a ousada pergunta de ambos elucida que estão supondo uma glória terrena, com Jesus tornando-se rei de Israel, ou seja, a glória de um Messias humano conquistando o poder político, social e financeiro da nação eleita. Tinham a impressão de que isto não estava longe de acontecer e, valendo-se da condição de familiares do Mestre, tentam obter bons cargos mediante o nepotismo. O mais impressionante é que Jesus não cancela a pergunta, mas a modifica mediante a sua proposta, pois ele quer dar muito mais: a felicidade eterna no Céu, transferindo assim o pedido da Terra para a glória celeste por meio do Amor à Cruz. É por isso que Jesus sempre quer nos dar o melhor, pois débeis e frágeis assim como Tiago e João, não sabemos pedir, falta-nos a ciência perfeita que de Cristo emana. Ao contrário, como que imersos numa profunda cegueira, distancia-se do cálice da dor, como bem expressa a pungente afirmação de Tiago e João ao bradar: “Podemos!”. Contudo, imersos nessa cegueira não estavam apenas Tiago e João, mas todas as demais colunas da Igreja, como bem expressa a disputa no Colégio dos Apóstolos ao se indignarem diante da atitude de Tiago e João pois também os demais tinham a mesma visão messiânica distorcida de Jesus, evidenciando o quanto os doze tinham, antes da descida do Espírito Santo em Pentecostes, uma visão político-social de Jesus Cristo estando com seus olhares fixos na conquista do poder temporal.

Dessa forma, compreende-se a normativa de Jesus para resolver tal imbróglio que havia sido instaurado mediante a confusão dos Doze:

 “Pois também o Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos”.

 Jesus não é somente o “caminho”, mas também o “pioneiro do caminho”. A mais alta expressão desta vontade de serviço é a entrega da própria vida como resgate de modo que Jesus expressa aqui, de maneira evidente e precisa uma clara referência ao Servo Sofredor de Yaweh: une-se aqui o Evangelho à 1ª Leitura. Portanto, essa aversão ao sofrimento movido por uma herança cultural judaica dificultou João e Tiago de perceberem o verdadeiro caminho da felicidade. Mas será que essa dificuldade permaneceu somente neles? O que isto interfere diretamente em nós? Sabemos lidar saudavelmente com o sofrimento em nossas vidas? O que de nós precisamos crucificar junto à Jesus e a Ele dar?

ATUALIZAÇÃO - PAIXÃO E SENTIDO NO SOFRIMENTO: COMO ABRAÇAR A CRUZ

A PSICOLOGIA DO SOFRIMENTO

           Essa característica da nossa constituição humana ficou ainda mais evidenciada nas configurações sociais atuais permeados pela crise pandêmica que nos rodeia, ao ponto que fez a Dra. em psicologia Fátima Cristina de Souza Conte esboçar sobre a Psicologia do sofrimento, assim dizendo, em linhas gerais que o sofrimento psicológico, o sofrimento humano, é verbal. Começa pela fuga e esquiva da dor física ou de outra estimulação aversiva incondicionada, amplia-se através do condicionamento operante e respondente e, como demonstram os estudos, torna-se mais complexo e ampliado de forma especial em decorrência de processos verbais. Através desses processos, podemos atribuir funções, estabelecer relações arbitrárias entre estímulos dissimilares, estabelecer relações entre relações e responder funcionalmente a eles e às mesmas, de forma similar, sem treino prévio direto.

          A dor é a primeira estimulação que se relaciona ao sofrimento. Segundo Lent, a resposta de "dor", filogeneticamente selecionada, indica que alguma estimulação nociva ao organismo está ocorrendo, seja ela proveniente do ambiente externo ou do próprio organismo. Conforme afirma Angelotti, a função da dor é proteger a integridade física. Skinner menciona que "não é difícil provar que um organismo reforçado pela remoção de certas condições, dentre elas a dor, teria uma vantagem na seleção natural" e que também obteria vantagens em "fugir de estímulos aversivos condicionados que chamamos de "ameaça" de ferimento, ou seja, agindo pela esquiva". Mas, além da dor, o indivíduo também responde a desconforto, restrição e a outros estímulos que podem ser ou não nocivos ou que têm implicações na determinação do sofrimento humano, como ilustrado para a raiva.

        Reconhecer a nossa condição miserável com uma contrição perfeita, é essencial para que possamos trilhar o caminho até o calvário com ternura. Aceitar o sofrimento de cabeça erguida — ao contrário do que muitos pensam —, não é amar a dor e desejar cultivá-la: é sinal de maturidade de quem entendeu a dinâmica da vida, que é Cruz e ressureição. Quando tocamos na biografia daqueles que deixaram um legado na humanidade, a começar pelo Verbo encarnado, o Homem por excelência — Cristo Jesus —, percebemos que eles não fugiram do sofrimento. Grandes homens e mulheres que marcaram a história foram capazes de aceitar as dores de seus respectivos tempos e de corresponder ao que lhes era proposto de forma corajosa, jamais retendo a doação incondicional de suas vidas. E mesmo em meio às lágrimas e às dores que uma vida encarnada comporta, desistir nunca foi uma opção para estes verdadeiros heróis da fé.

 O HIATO DE DEUS E A ESPERANÇA – DE VON BALTHASAR À MOLTMANN

            Contudo, esse caminho de reconhecimento da condição miserável do ser humano, em sua grande maioria, não consiste de uma atividade fácil, pois desde seu início será necessário uma série de renuncias e crucificações, à começar pela nossa própria natureza; por isso que para tal intento o ser humano necessita de um poderoso auxiliador, do qual o teólogo alemão Moltmann discorrerá a respeito de sua Pneumatologia Integral. É importante recordar que situando esse conceito, Moltmann discorrerá, inicialmente acerca da sua famosa Teologia da Esperança, cujo estopim se dará a partir do “Cerne da Existência”, ou seja, o ponto mais próximo do nosso ser, é simultaneamente o fundamento firme, o quê nu e cru do nosso ser, de modo que o kronos (tempo) não o atinge e mesmo a precariedade, a transitoriedade e o tempo nascerem desse cerne, não o atinge, pois o cerne da existência está para além deles. A morte também não o atinge, pois o cerne da existência é a utopia do não desaparecer totalmente – non omnis confundar, da qual o homem se achega em meio à escuridão do momento vivido. São as utopias da humanidade: o ponto da condição humana que não é atingida. Na doce ilusão de sanar tais dificuldades, o filósofo Ernest Bloch estabelece como o schaton do seu Princípio Esperança a Pátria da Identidade no qual o homem que se tornou ser segundo a sua essência, consigo mesmo, com o seu semelhante e com a natureza de modo que todas as suas contradições estão resolvidas; a isto, Moltmann rebate com sua Teologia da Esperança que, por meio da Escatologia Cristã que se apoia no salto, no milagre da ressurreição da morte daquele que fala do fim das coisas do presente: “Eis que faço nova todas as coisas” não pode se reduzir às utopias, nem ao Princípio da Esperança de um aperfeiçoamento imanente ao mundo, mediante um transcender sem transcendência, de modo que no cristianismo a vida não está imune da morte pois há uma nova identidade prometida na ressurreição que não se encontra no ser humano mas na promessa de Deus a partir da ressurreição de Cristo. Para a Escatologia Cristã, o homem deve procurar, na força da ressurreição, aceitar a cruz da realidade.

            Assim, fica ainda mais evidente que a experiência da vida humana se dá mediante a Cruz de Jesus Cristo, pois o homem desenrola sempre a sua humanidade em relação com a divindade de seu Deus. Experimenta sua existência na relação com aquele que parece evidentemente o ser supremo. Encaixa a sua vida ante o valor definitivo. Se decide, fundamentalmente conforme aquele que o interessa de modo incondicional. De sorte que o divino é a situação que o homem experimenta, desenvolve e configura. Por esse motivo, a Teologia da Cruz – Estaurologia se encaminha igualmente ante uma antropologia. De igual modo, compreendemos quando o teólogo jesuíta von Balthasar diz que “Sem a Cruz, sua palavra não seria verdadeira, não seria esse testemunho sobre o Pai que contém em si o co-testemunho do Pai que é a palavra cristológica dupla e una, a revelação da vida Trinitária, e que traz em si a exigência soberana do ser crido e seguido”, pois é justamente no momento em que os seres humanos, caídos e fechados em si mesmos, manifestam o que tem de pior, o que por tantas vezes se repetirá na história, Deus revela-se como a máxima bondade mediante um perdão reconciliador e entrega, para além de toda e qualquer expectativa humana, recuperando a dignidade humana ferida e vilipendiada: na Cruz, inicia-se, lenta, mas de forma fecunda, a ‘cristificação’ do ser humano e da história.

CONCLUSÃO – POR UMA PNEUMATOLOGIA INTEGRAL: A NECESSIDADE DO SOFRIMENTO PARA ATINGIR A GLÓRIA

O silêncio da humanidade que se sente abandonada, desolada, abatida já fora por Cristo, pelo próprio Deus sentida e superada: o hiato do homem é o hiato de Deus, pois ao morrer na Cruz, Deus faz a experiência mais dramática e paradoxal do ser humano, que é a morte e o sofrimento! Na Cruz, Deus se manifesta como um Amor tão excelso capaz de viver em tudo aquilo que a humanidade viveu, inclusive, aquilo que lhe é mais difícil. O único e verdadeiro triunfo, portanto, se encontra no amor à Cruz e na aceitação do sofrimento, contudo, não é fácil esta via indicada por nosso Senhor, pois por nossa natureza, por nosso otimismo perante a vida e pelo horror ao sofrimento, assim como João, Tiago e os demais Apóstolos, temos a ilusão de que triunfar significa nunca sofrer e nem passar por desventura alguma, distanciando-nos assim da proposta operada por Jesus Cristo. Por isso, se contarmos somente com os nossos próprios méritos e vontades bem como a nossa natureza não conseguiremos ter sucesso nas nossas crucificações diárias,  sejam elas as mais simples ou as mais complexas de tal modo que se deve portanto invocar aquele que fora capaz de ressuscitar o próprio Cristo, que é o Espírito Santo - nos dizeres de Moltmann, o Espírito da vida. Para trilharmos o caminho à Jerusalém Celeste precisaremos Crucificar e nos crucificarmos inúmeras vezes, que nestes momentos recordemos também de recorrer ao Espírito da Vida para que quando nos sentirmos Crucificados possamos por meio dele ser reconstituídos... Ressuscitar, atingindo assim a glória obtida por meio do sofrimento! Que o Espírito da Vida, o Espírito Santo abra o nosso entendimento assim como abriu o dos 12 em Pentecostes e os tornou capazes de deslocarem de uma aversão à um amor à Cruz e ao sofrimento.


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