A importância da Leitura Diacrônica e Sincrônica na exegese do Quarto Evangelho em Cláudio Doglio

 

Diogo Antunes Victor
José Demétrio de Camargo

Aspectos Introdutórios 

            O texto bíblico, como conhecemos, é um conjunto de vários textos que foram reunidos em um só livro. As leituras desses textos sempre tiveram na história variadas formas de aproximações; dentre essas formas estão as leituras sincrônicas e diacrônicas que ora privilegiam os rastros do texto na história (diacrônica) e ora privilegiam a construção do texto como temos na atualidade (sincrônica) cuja importância se manifesta na necessidade de olhar com maior atenção para a aproximação literária das narrativas bíblicas com o intuito de descrever e refletir sobre essas formas de abordagens, principalmente acerca do Quarto Evangelho.[1]

Leitura Diacrônica: história da composição

            A longa história de composição do QE exige uma abordagem diferenciada, pois mesmo sendo um trabalho unitário linguística e estilisticamente com uma abordagem homogênea, algumas tensões literárias tornam-se perceptíveis, a saber: os indícios literários de uma história redacional; tradição e redação; permeados pelo esforça da redação diacrônica.

            A partir do contexto da formação do QE pode-se perceber alguns influxos, porém, o que é importante ter-se em mente é que tais influxos são obtidos por meio de uma leitura diacrônica do escrito sagrado que, sendo dividido em duas partes, propõem-se da seguinte maneira: as três passagens internas mais expressivas (Prólogo, último capítulo e a “Mulher adúltera”) e a sequencia problemática dos capítulos 5,6 e 7. Assim sendo, aquilo que se denomina como “as passagens internas mais expressivas” compreendem-se por seções adicionais, autônomas em relação ao restante do texto, ou seja, que suas características estilístico-literárias diferem das demais partes do texto. É o caso do Prólogo de São João ou então o Prólogo Solene[2] que, composto com fórmulas rítmicas e poéticas, distancia-se drasticamente do resto da prosa joanina de modo que o Prólogo teria a função de uma solene abertura ou introdução a narrativa que se inicia em Jo 1,19 sem, contudo, inserir uma fratura entre ambos mas uma estreita relação ligando-se ao testemunho do Batista. Assim compreende-se Doglio ao dizer que: “parece, portanto. Evidente que o prólogo foi acrescentado por um editor que o relacionou com a continuação da narrativa, de modo que o texto poético solenemente afirma que Jesus é o revelador do pai, enquanto a narrativa em prosa mostra como ele foi”.[3]

            Em um extremo oposto terminologicamente, se tem o epílogo, presente de forma mais pungente em Jo 20, 30-31 cujo sabor de conclusão é estabelecido sem contudo, encerrar o texto propriamente dito uma vez que mais versículos estão presentes posteriormente. Contudo, este não é o único epílogo presente no QE, mais adiante, em João 21, 1-23 se encontra um outro epílogo formado pelo “nós” da comunidade joanina nos versículos 24-25[4], ou seja, o “nós” da comunidade apresenta o “discípulo testemunha”[5] garantindo a autenticidade do escrito. Tanto Doglio quanto Brown permanecem em linhas semelhantes quanto a redação do QE ao elucidarem a importância da compreensão de que não é o próprio “discípulo testemunha” que escreveu estas palavras uma vez que ela se trata de um acréscimo (e aqui há um pequeno distanciamento entre Doglio e Brown) posterior à sua morte constituindo-se portanto, de um outro editor, um discípulo do Discípulo amado, a classe dos “presbíteros” na nomenclatura de Brown.

            O outro texto em análise é a da “Mulher adúltera” cujas nuances se demonstram em outros aspectos, configurando assim a sua importância como objeto da leitura diacrônica. Assim sendo, este relato está ausente na maioria de outros manuscritos antigos e respeitados aparecendo apenas em alguns códices, de forma aparente. Em Lucas se tem um relato semelhante, enquanto acontecimento histórico, mas distante enquanto constituição histórico-literário-estilística uma vez que neste relato é a única vez que palavras como “Oliveiras e escribas” aparecem no QE, levando, assim os exegetas a acreditarem ser um enxerto durante uma nova redação do texto que outrora fora incorporada por São Jerônimo naquilo que futuramente fora definido como a Vulgata Latina.

            Esses três aspectos constituem a primeira parte dos referencias mais expressivos, uma vez que os estudos utilizados por meio da leitura diacrônica levam a acreditar que os mesmos são textos inseridos posteriormente no corpo do QE. Contudo, não se pode deixar de mencionar o outro bloco, que constituem aquilo que Doglio chamará de fraturas narrativas, as passagens que são problemáticas ou controvérsias em relação ao todo do texto uma vez que não expressão uma continuidade narrativa linear ou então porque assumem a forma de fragmentos autônomos, semelhante ao bloco anterior, mas com a diferença que aqui não se trata da perícope como um todo, mas sim, de versículos. Pois bem, os referidos capítulos constituem-se de uma sequência problemática uma vez que o capítulo 5 está situado em Jerusalém realizando um deslocamento interno: da piscina probática ao Tempo; depois, o cap. 6 tem seu início com a afirmação de que Jesus atravessou o Tiberíades, porém, “se ele estava no Templo de Jerusalém, como podemos falar do outro lado do lago?”[6]. Não obstante, o cap. 7 finda o coroamento dessa sequência problemática ao dizer que após esses eventos, Jesus andava pela Galileia afim de não passar pela Judeia. Tais elementos ficam meio distantes do leitor uma vez que a tradição litúrgica fragmentou tais episódio, porém, analisando-os de forma remissiva fica perceptível essa ruptura, portanto, o reconhecimento da presença de um trabalho editorial a abordar blocos narrativos independentes torna-se manifesto.

            Outras passagens adentram essa mesma classificação, contudo, presou-se aqui por essas duas divisões primárias e mais substanciais. Assim sendo, fica evidente que por meio da Leitura Diacrônica tornou-se possível perscrutar o QE evidenciando três aspectos, a saber: 1) Seções adicionais por meio de influxos internos; 2) Sequência problemática nos cap. 5,6 e 7; 3) Inconsistências e intervenções do autor.[7]

            A segunda parte quer consistir a leitura diacrônica consiste na Tradição e na Redação, ou seja, da relação entre estes aspectos com o texto. Acerca disso, vale ressaltar o seguinte: o QE é uma obra escrita ao longo de aproximadamente 60 anos dos quais marcaram profundamente o desenvolvimento da literatura e da teologia joanina, de modo que a figura do Discípulo Amado é resultado deste percurso histórico-teológico sendo que o QE é o reflexo da vida do discípulo e da sua comunidade, uma “obra que nasce na vida da Igreja e é para a vida dos crentes”[8], ou seja, ao transmitir o fato ocorrido inúmeras vezes, o discípulo assim o fez por meio da tradição, ou seja, o seu ato de transmissão do texto oral[9] consistiu na tradição acerca do QE que posteriormente se é acrescentado a redação que sistematiza os relatos e os transformam em textos sendo que o autor que trabalha a tradição é tido como um redator. Ou seja, o texto bíblico referente ao QE é a junção da tradição e da redação por meio de um editor que tem a função de reunir elementos díspares oriundos de uma comunidade por um período de 60 anos. Assim compreende-se a relação entre a Tradição e redação com as incersões do autor[10] presentes no ponto anterior.

A importância da Leitura Sincrônica: língua e estilo, língua original e vocabulário.

Aspectos Introdutórios

Ao final desta reconstrução diacrônica, é importante reiterar que o Evangelho de São João é o único em sua forma definitiva e canônica. A reconstrução das edições anteriores não pretende fazer um retorno à verdade mais arcaica e mais próxima do Jesus histórico, mas sim, explicar a composição final do Quarto Evangelho.[11]   

 

            O próprio autor estabelece os meandros acerca da preocupação inicial que a abordagem diacrônica corre o risco de causar. Contudo, o texto final da uma ideia dos traumas sofridos pela comunidade joanina, estando em conformidade com a 1 Primeira Carta de João, conforme explicita também Brown, devendo-se recordar que a leitura teológica supera a consistência narrativa. Dessa forma, após o período de constituição e redação do QE, o comentário exegético se torna capaz de aplicar o texto final ao mesmo tempo que aumenta as fases do seu desenvolvimento. Assim sendo, a análise narrativa aplicada a narrativa evangélica tem a utilidade de contribuir para facilitar a passagem do significado do texto em seu contexto histórico para o sentido que ele assume para os leitores de hoje. Nesse sentido, a Leitura Sincrônica contribuiu para três áreas: língua e estilo; língua original e vocabulário.

Língua e estilo; a língua original e o vocabulário.

            Como preludiado, a leitura sincrônica considera o texto final como obra literária, preocupando-se com os estudos de seus aspectos linguísticos e estilísticos. Assim sendo, uma vez que o QE consiste em um grande trabalho teológico portador de uma mensagem profunda e sublime, comumente se pensa que a linguagem nele expressa consiste em uma configuração complexa e difícil, contudo, a abordagem de Doglio parte ao contrário dessa afirmação: “João escreve de maneira simples e elementar, apenas aparentemente banal e repetitivo: sua linguagem conhece uma intensidade profunda, precisamente em virtude da sábia repetição [...]”[12]. Dessa forma, compõem esse eixo principal da sincronia a língua original e o vocabulário.

            A respeito da língua original, é unânime que tenha sido escrito em grego koiné, a língua que unia todos os povos do mediterrâneo. Contudo, deve-se ressaltar a influência semítica, inserindo assim caracteres semíticos ao texto original e, de certo modo, de influências helenísticas[13]. Assim sendo, a língua original do QE é composta pelo grego koiné cuja influência de caracteres semíticos é incorporada.

Já o vocabulário constitui um aspecto mais expressivo da análise sincrônica. A esse respeito, ele é muito reduzido contando com 15.420 palavras, das quais apenas 1.011 são diferentes. A presente leitura permite demonstrar que dos quatro Evangelhos, João é o que utiliza um numero mais reduzido de palavras, da mesma forma que nele, tais palavras assumem significações distintas dos sinóticos: πιστεεειν consiste em uma dessas palavras que ao aparecer 98 vezes no QE aparece no máximo dez vezes nos sinóticos. Uma série de outras palavras como Ἀλήθεια, ἀγᾰπᾶν, ἐγώ εἰμι, κόσμος. Outro aspecto que também deve ser ressaltado é o contrário: termos que estão presentes com maior assiduidade nos sinóticos não aparecem com tanta frequência no QE. Contudo, o que deve ficar claro são os elementos semíticos que exercem sua influência, como os termos cuja derivação partem do hebraico ou do aramaico: rabí raboni e Messias. O mesmo ocorre com os nomes próprios presentes no QE, como Cefas, Siloé, Tomé, Betesda, maná, gólgota, hosana. Porém o elemento semítico mais evidente que nenhum exegeta, nem mesmo São Jerônimo ousou traduzir é a expressão Amém, cuja tradução chega a nós como em verdade, em verdade, bem como aquelas que constituem da ipsissima verba Iesu. Por fim, as seguintes expressões devem ser ressaltadas: πιστεύουσιν εἰς τὸ ὄνομα αὐτοῦ[14], ἐλεγχθῇ τὰ ἔργα[15], χαρᾷ χαίρει[16], αὐξάνειν ἐμὲ δὲ ἐλαττοῦσθαι[17], σπέρματος[18].

Contudo, não se deve deixar de mencionar a contribuição dos manuscritos de Qumran, como o duplo amém, o fazer a verdade, dar testemunho da verdade, andar na treva, a luz da vida, o príncipe deste mundo, os filhos da luz, o espírito da verdade que fazem parte da Regra da Comunidade. Assim compreende-se quando Doglio dirá que “esses contatos não significam dependência, nem literária e nem teológica: apenas provam que a tradição joanina pertence a um contexto cultural e linguístico específico”.[19]

Considerações Finais

            As considerações finais acerca da Leitura Sincrônica estão contidas no próprio texto, contudo, à respeito da Leitura Diacrônica, as seguintes considerações devem ser elencadas: o Método Histórico Crítico, por meio da reconstrução das várias fases histórico-literárias visa a destacar o significado expresso doa autores e editores de um texto, ou seja, a própria natureza do texto bíblico requer esse tipo de abordagem de modo que a pesquisa diacrônica tem sua necessidade para uma exegese correta, mesmo que raramente produza resultados unívocos, da qual a contribuição de Von Wahlde pretende referir-se a reelaboração do material literário anterior, ou seja, a teoria das fontes e o falar em edições, ao ponto que o texto de João não perde seu valor como uma obra unitária, mas adquire clareza naquilo que se refere às inúmeras semelhanças que os eruditos anunciam.

Bibliografia

DOGLIO, Claudio. Literatura joanina: introdução aos estudos bíblicos. Trad. Leonardo A.R.T dos Santos. Petrópolis-RJ. Editora Vozes, 2020. 

NESTLE-ALAND. Novum Testamentum Graece, NA 28: edição com margens, edição em português. 28º edição. Sociedade Bíblica do Brasil. São Paulo, 2018.



[1] A partir daqui, em conformidade com a leitura de Doglio, utilizar-se-á a sigla QE para se referir ao Evangelho de São João

[2] Jo, 1-18

[3] DOGLIO, Cláudio.2020, p. 52

[4] “Οὗτός ἐστιν ὁ μαθητὴς ὁ μαρτυρῶν περὶ τούτων καὶ ὁ γράψας ταῦτα καὶ οἴδαμεν ὅτι ἀληθὴς αὐτοῦ ἡ μαρτυρία ἐστίν Ἔστιν δὲ καὶ ἄλλα πολλὰ ἃ ἐποίησεν ὁ Ἰησοῦς ἅτινα ἐὰν γράφηται καθ’ ἕν οὐδ’ αὐτὸν οἶμαι τὸν κόσμον χωρήσειν τὰ γραφόμενα βιβλία”.

 

[6] DOGLIO, Cláudio.2020, p. 53

[7] A respeito deste bloco, não se atentou nesse artigo dado o recorte inicialmente estabelecido, contudo, não se pode subtrair ao menos a menção daquilo que o autor tratou em seu livro.

[8] DOGLIO, Cláudio.2020, p. 56

[9] Raymond Brown trabalhará isso de forma mais profunda em seu livro “A comunidade do discípulo amado”.

[10] A esse respeito, é importante recordar que mesmo estando no mesmo domínio semântico, as inserções nem sempre estão relacionadas com as incongruências. Assim, Jo 12,16 é um exemplo desse efeito da tradição e da redação do texto, do qual o redator em voz à comunidade joanina comenta e explicita o texto em análise, como se pode perceber: “Ταῦτα οὐκ ἔγνωσαν αὐτοῦ οἱ μαθηταὶ τὸ πρῶτον ἀλλ’ ὅτε ἐδοξάσθη Ἰησοῦς τότε ἐμνήσθησαν ὅτι ταῦτα ἦν ἐπ’ αὐτῷ γεγραμμένα καὶ ταῦτα ἐποίησαν αὐτῷ”.

[11] DOGLIO, Cláudio.2020, p. 64

[12] Ibidem, p. 64

[13] Importante recordar que tais influências são bem amplas, multiformes e variadas, cuja influência é mais expressiva na teologia joanina do que em seu aspecto linguístico-literário.

[14] “Crer no nome” cf Jo 1,12.

[15] “Praticar a verdade”. cf Jo 3,21

[16] “Alegrai-se com alegria”. Cf 3,29

[17] “Confiar às suas mãos”. Cf Jo 3,35

[18] “Semente” no sentido de descendência. Cf Jo 7,42

[19] DOGLIO, Cláudio.2020, p. 68.

Comentários

Postagens mais visitadas