A importância da Leitura Diacrônica e Sincrônica na exegese do Quarto Evangelho em Cláudio Doglio
Aspectos Introdutórios
O texto bíblico, como
conhecemos, é um conjunto de vários textos que foram reunidos em um só livro.
As leituras desses textos sempre tiveram na história variadas formas de
aproximações; dentre essas formas estão as leituras sincrônicas e diacrônicas
que ora privilegiam os rastros do texto na história (diacrônica) e ora
privilegiam a construção do texto como temos na atualidade (sincrônica) cuja importância
se manifesta na necessidade de olhar com maior atenção para a aproximação
literária das narrativas bíblicas com o intuito de descrever e refletir sobre
essas formas de abordagens, principalmente acerca do Quarto Evangelho.[1]
Leitura
Diacrônica: história da composição
A longa história de composição
do QE exige uma abordagem diferenciada, pois mesmo sendo um trabalho unitário
linguística e estilisticamente com uma abordagem homogênea, algumas tensões
literárias tornam-se perceptíveis, a saber: os indícios literários de uma
história redacional; tradição e redação; permeados pelo esforça da redação diacrônica.
A partir do contexto da formação do
QE pode-se perceber alguns influxos, porém, o que é importante ter-se em mente
é que tais influxos são obtidos por meio de uma leitura diacrônica do escrito
sagrado que, sendo dividido em duas partes, propõem-se da seguinte maneira: as três
passagens internas mais expressivas (Prólogo, último capítulo e a “Mulher
adúltera”) e a sequencia problemática dos capítulos 5,6 e 7. Assim sendo,
aquilo que se denomina como “as passagens internas mais expressivas” compreendem-se
por seções adicionais, autônomas em relação ao restante do texto, ou seja, que
suas características estilístico-literárias diferem das demais partes do texto.
É o caso do Prólogo de São João ou então o Prólogo Solene[2]
que, composto com fórmulas rítmicas e poéticas, distancia-se drasticamente do
resto da prosa joanina de modo que o Prólogo teria a função de uma solene
abertura ou introdução a narrativa que se inicia em Jo 1,19 sem, contudo,
inserir uma fratura entre ambos mas uma estreita relação ligando-se ao
testemunho do Batista. Assim compreende-se Doglio ao dizer que: “parece,
portanto. Evidente que o prólogo foi acrescentado por um editor que o
relacionou com a continuação da narrativa, de modo que o texto poético
solenemente afirma que Jesus é o revelador do pai, enquanto a narrativa em
prosa mostra como ele foi”.[3]
Em um extremo oposto terminologicamente,
se tem o epílogo, presente de forma mais pungente em Jo 20, 30-31 cujo sabor de
conclusão é estabelecido sem contudo, encerrar o texto propriamente dito uma
vez que mais versículos estão presentes posteriormente. Contudo, este não é o
único epílogo presente no QE, mais adiante, em João 21, 1-23 se encontra um
outro epílogo formado pelo “nós” da comunidade joanina nos versículos 24-25[4],
ou seja, o “nós” da comunidade apresenta o “discípulo testemunha”[5]
garantindo a autenticidade do escrito. Tanto Doglio quanto Brown permanecem em
linhas semelhantes quanto a redação do QE ao elucidarem a importância da
compreensão de que não é o próprio “discípulo testemunha” que escreveu estas
palavras uma vez que ela se trata de um acréscimo (e aqui há um pequeno
distanciamento entre Doglio e Brown) posterior à sua morte constituindo-se
portanto, de um outro editor, um discípulo do Discípulo amado, a classe dos “presbíteros”
na nomenclatura de Brown.
O outro texto em análise é a da “Mulher
adúltera” cujas nuances se demonstram em outros aspectos, configurando assim a
sua importância como objeto da leitura diacrônica. Assim sendo, este relato
está ausente na maioria de outros manuscritos antigos e respeitados aparecendo
apenas em alguns códices, de forma aparente. Em Lucas se tem um relato
semelhante, enquanto acontecimento histórico, mas distante enquanto
constituição histórico-literário-estilística uma vez que neste relato é a única
vez que palavras como “Oliveiras e escribas” aparecem no QE, levando, assim os
exegetas a acreditarem ser um enxerto durante uma nova redação do texto que
outrora fora incorporada por São Jerônimo naquilo que futuramente fora definido
como a Vulgata Latina.
Esses três aspectos constituem a
primeira parte dos referencias mais expressivos, uma vez que os estudos
utilizados por meio da leitura diacrônica levam a acreditar que os mesmos são
textos inseridos posteriormente no corpo do QE. Contudo, não se pode deixar de
mencionar o outro bloco, que constituem aquilo que Doglio chamará de fraturas
narrativas, as passagens que são problemáticas ou controvérsias em relação ao
todo do texto uma vez que não expressão uma continuidade narrativa linear ou
então porque assumem a forma de fragmentos autônomos, semelhante ao bloco
anterior, mas com a diferença que aqui não se trata da perícope como um todo,
mas sim, de versículos. Pois bem, os referidos capítulos constituem-se de uma sequência
problemática uma vez que o capítulo 5 está situado em Jerusalém realizando um
deslocamento interno: da piscina probática ao Tempo; depois, o cap. 6 tem seu
início com a afirmação de que Jesus atravessou o Tiberíades, porém, “se ele
estava no Templo de Jerusalém, como podemos falar do outro lado do lago?”[6].
Não obstante, o cap. 7 finda o coroamento dessa sequência problemática ao dizer
que após esses eventos, Jesus andava pela Galileia afim de não passar pela
Judeia. Tais elementos ficam meio distantes do leitor uma vez que a tradição
litúrgica fragmentou tais episódio, porém, analisando-os de forma remissiva
fica perceptível essa ruptura, portanto, o reconhecimento da presença de um
trabalho editorial a abordar blocos narrativos independentes torna-se
manifesto.
Outras passagens adentram essa mesma
classificação, contudo, presou-se aqui por essas duas divisões primárias e mais
substanciais. Assim sendo, fica evidente que por meio da Leitura Diacrônica
tornou-se possível perscrutar o QE evidenciando três aspectos, a saber: 1)
Seções adicionais por meio de influxos internos; 2) Sequência problemática nos
cap. 5,6 e 7; 3) Inconsistências e intervenções do autor.[7]
A segunda parte quer consistir a
leitura diacrônica consiste na Tradição e na Redação, ou seja, da relação entre
estes aspectos com o texto. Acerca disso, vale ressaltar o seguinte: o QE é uma
obra escrita ao longo de aproximadamente 60 anos dos quais marcaram
profundamente o desenvolvimento da literatura e da teologia joanina, de modo
que a figura do Discípulo Amado é resultado deste percurso histórico-teológico
sendo que o QE é o reflexo da vida do discípulo e da sua comunidade, uma “obra
que nasce na vida da Igreja e é para a vida dos crentes”[8],
ou seja, ao transmitir o fato ocorrido inúmeras vezes, o discípulo assim o fez por
meio da tradição, ou seja, o seu ato de transmissão do texto oral[9]
consistiu na tradição acerca do QE que posteriormente se é acrescentado a
redação que sistematiza os relatos e os transformam em textos sendo que o autor
que trabalha a tradição é tido como um redator. Ou seja, o texto bíblico
referente ao QE é a junção da tradição e da redação por meio de um editor que tem
a função de reunir elementos díspares oriundos de uma comunidade por um período
de 60 anos. Assim compreende-se a relação entre a Tradição e redação com
as incersões do autor[10]
presentes no ponto anterior.
A importância da
Leitura Sincrônica: língua e estilo, língua original e vocabulário.
Aspectos
Introdutórios
Ao final desta reconstrução diacrônica, é importante
reiterar que o Evangelho de São João é o único em sua forma definitiva e canônica.
A reconstrução das edições anteriores não pretende fazer um retorno à verdade
mais arcaica e mais próxima do Jesus histórico, mas sim, explicar a composição
final do Quarto Evangelho.[11]
O próprio autor estabelece os
meandros acerca da preocupação inicial que a abordagem diacrônica corre o risco
de causar. Contudo, o texto final da uma ideia dos traumas sofridos pela
comunidade joanina, estando em conformidade com a 1 Primeira Carta de João,
conforme explicita também Brown, devendo-se recordar que a leitura teológica
supera a consistência narrativa. Dessa forma, após o período de constituição e
redação do QE, o comentário exegético se torna capaz de aplicar o texto final
ao mesmo tempo que aumenta as fases do seu desenvolvimento. Assim sendo, a
análise narrativa aplicada a narrativa evangélica tem a utilidade de contribuir
para facilitar a passagem do significado do texto em seu contexto histórico
para o sentido que ele assume para os leitores de hoje. Nesse sentido, a Leitura
Sincrônica contribuiu para três áreas: língua e estilo; língua original e vocabulário.
Língua e estilo;
a língua original e o vocabulário.
Como preludiado, a leitura sincrônica
considera o texto final como obra literária, preocupando-se com os estudos de
seus aspectos linguísticos e estilísticos. Assim sendo, uma vez que o QE
consiste em um grande trabalho teológico portador de uma mensagem profunda e
sublime, comumente se pensa que a linguagem nele expressa consiste em uma
configuração complexa e difícil, contudo, a abordagem de Doglio parte ao
contrário dessa afirmação: “João escreve de maneira simples e elementar, apenas
aparentemente banal e repetitivo: sua linguagem conhece uma intensidade
profunda, precisamente em virtude da sábia repetição [...]”[12].
Dessa forma, compõem esse eixo principal da sincronia a língua original e o
vocabulário.
A respeito da língua original, é
unânime que tenha sido escrito em grego koiné, a língua que unia todos os povos
do mediterrâneo. Contudo, deve-se ressaltar a influência semítica, inserindo
assim caracteres semíticos ao texto original e, de certo modo, de influências
helenísticas[13].
Assim sendo, a língua original do QE é composta pelo grego koiné cuja
influência de caracteres semíticos é incorporada.
Já
o vocabulário constitui um aspecto mais expressivo da análise sincrônica. A
esse respeito, ele é muito reduzido contando com 15.420 palavras, das quais
apenas 1.011 são diferentes. A presente leitura permite demonstrar que dos quatro
Evangelhos, João é o que utiliza um numero mais reduzido de palavras, da mesma
forma que nele, tais palavras assumem significações distintas dos sinóticos: πιστεεειν
consiste em uma dessas palavras que ao aparecer 98 vezes no QE aparece no
máximo dez vezes nos sinóticos. Uma série de outras palavras como Ἀλήθεια, ἀγᾰπᾶν, ἐγώ
εἰμι, κόσμος. Outro aspecto que também deve ser ressaltado é o contrário:
termos que estão presentes com maior assiduidade nos sinóticos não aparecem com
tanta frequência no QE. Contudo, o que deve ficar claro são os elementos
semíticos que exercem sua influência, como os termos cuja derivação partem do
hebraico ou do aramaico: rabí raboni e Messias. O mesmo ocorre
com os nomes próprios presentes no QE, como Cefas, Siloé, Tomé, Betesda,
maná, gólgota, hosana. Porém o elemento semítico mais evidente que nenhum
exegeta, nem mesmo São Jerônimo ousou traduzir é a expressão Amém, cuja
tradução chega a nós como em verdade, em verdade, bem como aquelas que
constituem da ipsissima verba Iesu. Por fim, as seguintes expressões
devem ser ressaltadas: πιστεύουσιν εἰς τὸ ὄνομα αὐτοῦ[14],
ἐλεγχθῇ τὰ ἔργα[15],
χαρᾷ χαίρει[16], αὐξάνειν ἐμὲ δὲ
ἐλαττοῦσθαι[17], σπέρματος[18].
Contudo, não se deve deixar de mencionar a contribuição dos manuscritos
de Qumran, como o duplo amém, o fazer a verdade, dar testemunho da
verdade, andar na treva, a luz da vida, o príncipe deste mundo, os filhos da luz,
o espírito da verdade que fazem parte da Regra da Comunidade. Assim
compreende-se quando Doglio dirá que “esses contatos não significam dependência,
nem literária e nem teológica: apenas provam que a tradição joanina pertence a
um contexto cultural e linguístico específico”.[19]
Considerações
Finais
As considerações finais acerca da
Leitura Sincrônica estão contidas no próprio texto, contudo, à respeito da
Leitura Diacrônica, as seguintes considerações devem ser elencadas: o Método
Histórico Crítico, por meio da reconstrução das várias fases histórico-literárias
visa a destacar o significado expresso doa autores e editores de um texto, ou
seja, a própria natureza do texto bíblico requer esse tipo de abordagem de modo
que a pesquisa diacrônica tem sua necessidade para uma exegese correta, mesmo
que raramente produza resultados unívocos, da qual a contribuição de Von Wahlde
pretende referir-se a reelaboração do material literário anterior, ou seja, a
teoria das fontes e o falar em edições, ao ponto que o texto de João não perde
seu valor como uma obra unitária, mas adquire clareza naquilo que se refere às
inúmeras semelhanças que os eruditos anunciam.
Bibliografia
DOGLIO, Claudio. Literatura joanina: introdução aos estudos bíblicos. Trad. Leonardo A.R.T dos Santos. Petrópolis-RJ. Editora Vozes, 2020.
NESTLE-ALAND. Novum
Testamentum Graece, NA 28: edição com margens, edição em português. 28º
edição. Sociedade Bíblica do Brasil. São Paulo, 2018.
[1] A partir
daqui, em conformidade com a leitura de Doglio, utilizar-se-á a sigla QE para
se referir ao Evangelho de São João
[2] Jo, 1-18
[3] DOGLIO,
Cláudio.2020, p. 52
[4] “Οὗτός
ἐστιν ὁ μαθητὴς ὁ μαρτυρῶν περὶ τούτων καὶ ὁ γράψας ταῦτα καὶ οἴδαμεν ὅτι
ἀληθὴς αὐτοῦ ἡ μαρτυρία ἐστίν Ἔστιν δὲ καὶ ἄλλα πολλὰ ἃ ἐποίησεν ὁ Ἰησοῦς ἅτινα
ἐὰν γράφηται καθ’ ἕν οὐδ’ αὐτὸν οἶμαι τὸν κόσμον χωρήσειν τὰ γραφόμενα βιβλία”.
[6] DOGLIO,
Cláudio.2020, p. 53
[7] A
respeito deste bloco, não se atentou nesse artigo dado o recorte inicialmente
estabelecido, contudo, não se pode subtrair ao menos a menção daquilo que o
autor tratou em seu livro.
[8] DOGLIO,
Cláudio.2020, p. 56
[9] Raymond
Brown trabalhará isso de forma mais profunda em seu livro “A comunidade do
discípulo amado”.
[10] A
esse respeito, é importante recordar que mesmo estando no mesmo domínio semântico,
as inserções nem sempre estão relacionadas com as incongruências. Assim, Jo
12,16 é um exemplo desse efeito da tradição e da redação do texto, do qual o
redator em voz à comunidade joanina comenta e explicita o texto em análise,
como se pode perceber: “Ταῦτα οὐκ ἔγνωσαν αὐτοῦ οἱ μαθηταὶ τὸ πρῶτον ἀλλ’ ὅτε
ἐδοξάσθη Ἰησοῦς τότε ἐμνήσθησαν ὅτι ταῦτα ἦν ἐπ’ αὐτῷ γεγραμμένα καὶ ταῦτα
ἐποίησαν αὐτῷ”.
[11] DOGLIO,
Cláudio.2020, p. 64
[12] Ibidem,
p. 64
[13]
Importante recordar que tais influências são bem amplas, multiformes e variadas,
cuja influência é mais expressiva na teologia joanina do que em seu aspecto
linguístico-literário.
[14] “Crer
no nome” cf Jo 1,12.
[15] “Praticar
a verdade”. cf Jo 3,21
[16] “Alegrai-se
com alegria”. Cf 3,29
[17] “Confiar
às suas mãos”. Cf Jo 3,35
[18] “Semente”
no sentido de descendência. Cf Jo 7,42
[19] DOGLIO,
Cláudio.2020, p. 68.


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