SURDOS PARA OUVIR A VERDADE E MUDOS PARA GLORIFICAR A DEUS - XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO B
ASPECTOS INTRODUTÓRIOS – MÊS
DEDICADO A SAGRADA ESCRITURA
Estamos
iniciando o mês de Setembro, que é, na Igreja do Brasil, dedicado a Sagrada
Escritura, do qual, a Santa
Igreja em sua divina sabedoria e com o ardente desejo de conduzir seus féis
rumo à santidade, dedicou Santos e Santas, para praticamente todos os dias do
ano, que em seus mais variados títulos e rogos tem um único objetivo: conduzir-nos
mais próximos a Deus. Nesse intento, dedicou-se o dia 30 de setembro à Memória
de São Jerônimo, Presbítero e Doutor da Igreja e patrono dos Exegetas, cuja
dedicação, esmero e zelo para com as Sagradas Escrituras deixou à Igreja
Católica uma contribuição única ao traduzir do grego a versão da Septuaginta
para o Latim, chamando-se a Vulgata Latina. Contudo, esse zelo e esmero não consistiu
em apenas uma atividade exegética, mas sim, em sua própria vida, de modo que
procurou viver e guardar aquelas sagradas páginas que tocava com seus próprios
atos sendo para todos, um exemplo admirável de como dar uma verdadeira
dignidade a Palavra de Deus. Os Textos Sagrados, em especial forma, os
Evangelhos contidos na liturgia são fruto desse laborioso trabalho que
justificou setembro como o mês da Bíblia no Brasil, suscitando a consciência de
que eles são riquíssimos em conteúdo e muito mais se prestam à meditação e
aprofundamentos do que uma leitura apressada. Assim compreende-se Mons. Clá
Dias ao dizer que “Um fato
aparentemente comum entre os numerosos milagres operados pelo Senhor em Israel,
entretanto com substanciosa didática, nos ensina a necessidade e os meios para
curarmos nossa surdez e mutismo espirituais”
DESENVOLVIMENTO
LITÚRGICO-TEOLÓGICO
No
Universo, encontramos reflexos de Deus esparsos até nas mais insignificantes
das criaturas, mas em Jesus nos deparamos com a divindade em sua substância.
Tudo n’Ele tem uma multiplicidade de significados levada ao infinito, que nos
convida sempre a subir para analisar suas palavras, atitudes e até os gestos,
através dos prismas mais elevados. Assim sendo, não foram escolhidas aos acaso
estas leituras e o salmo responsorial
Na Primeira
Leitura, Isaías incita à fortaleza e à confiança total em Deus, enumerando
alguns dos milagres que seriam enumero como prova irrefutável da determinação
de Deus em nos salvar. Nesses quatro versículos, transparece o empenho do
profeta em fazer-nos compreender os aspectos sobrenaturais dos milagres do
Senhor.
Jesus cura
os enfermos para dar prova de sua divindade, e também para aliviá-los de suas
dores, por compaixão dos que sofrem. Ademais, nos ensina o quanto as doenças e
seu poder de curá-las são reflexos de uma realidade muito superior: “O Senhor
abre os olhos aos cegos; o Senhor faz-se erguer-se o caído; o Senhor ama aquele
que é justo” como canta-se no Salmo Responsorial.
A segunda
leitura prepara nosso espírito para uma exata impostação face ao conjunto dos
ensinamentos contidos no texto litúrgico deste dia “a fé que tendes em nosso
Senhor Jesus Cristo glorificado não deve admitir acepção de pessoas”. Ou seja,
a nossa conduta durante a vida terrena deve ser pautada em função da glória
eterna pois aqui estamos de passagem e necessitamos habituar-nos aos conceitos
da nossa verdadeira Pátria, o Céu.
Dessa
forma, a nitidez em esboçar um sentido para além do material é eminente e é
nosso dever percebê-lo e absorvê-lo.
EXEGÉTICO-TEOLÓGICO – A CURA DO SURDO-GAGO
“É do alto do mirante da fé que devemos analisar e assimilar as verdades
e lições contidas no presente Evangelho” Mons. Clá Dias.
Por meio de
uma abordagem sincrônica, a exegese bíblica pode perceber uma alteração entre
os habituais termos “surdo-mudo” e “surdo-gago”. Sem entrar na profundidade
deste aspecto, vale salientar apenas que em conformidade com os originais e até
mesmo a tradição litúrgica, optou-se por “surdo-gago”.
Assim
sendo, é possível perscrutar os meandros do Evangelho. Percebe-se pela
continuação da narração, tratar-se de uma enfermidade contraída, e não
congênita, pois, ao soltar-se a língua, passou a “falar sem dificuldade”,
portanto, aprendera a conversar desde a infância. Apesar de ser raro, esse
trauma do impedimento da normal locução às vezes se estabelece nestes ou
naqueles, constituindo um tormento para as vítimas. Neste caso do Evangelho,
ademais, o pobre homem era surdo e, segundo muitos exegetas, estes dois
problemas tiveram uma só origem concomitantes após uma infecção ou qualquer
outra doença.
As
Escrituras possuem, além do sentido literal, incontáveis outros espirituais
(conforme preludiado na parte Litúrgico-Teológica) e isto ocorre também neste
milagre narrado por São Marcos. Enquanto fato concreto, ele representa um
elemento a mais para fortalecer os fundamentos de nossa fé em osso Senhor. Mas,
por um prisma simbólico, conforme interpretam os Santos padres, a surdez
representa um endurecimento da alma que já não mais ouve a voz da graça, o
chamado de Cristo; e a mudez, o esquecimento ou o relaxamento em louvar a Deus.
Não poucas vezes. O próprio Salvador chegou a queixar-se dos judeus que, tendo
uma audição normal, não ouviam.
ATUALIZAÇÃO: O SURDO DE DEUS E
O MUTISMO ESPIRITUAL
Ouvir a voz de Deus é tomar a
atitude de Samuel “Falai Senhor, o vosso Servo te escuta”. Em um sentido
oposto, o pecador, devido à zoeira de suas paixões, acaba por se tornar surdo
aos apelos de Deus, chegando ao ponto de se esquecer das mensagens
sobrenaturais recebidas no passado, pois inúmeros são os meios pelos quais Deus procura
entrar em contato conosco: antes de tudo, pela ordem da criação, em
seguida através dos fatos palpáveis e tangíveis produzidos por sua providência,
através das Sagradas Escrituras, através do outro, o problema é que muitas
vezes nos encontramos como já expressara Sêneca:
E
porque isso ocorre, muitas vezes sem ao menos percebermos e acabando
incorporando em nosso modus vivendi? Uma das justificativas é de que a
surdez espiritual é muito mais generalizada hoje em dia do que em outras épocas
históricas, pois um incontável número de almas tem os ouvidos endurecidos à
Palavra de Deus. Assim compreende-se também o mutismo espiritual, ou então, nos
dizeres do Evangelho: “a nossa dificuldade em rezar” uma vez que ser mudo na
ordem do Espírito, segundo os padres da Igreja, consiste no silêncio de quem
teria a obrigação de glorificar a Deus, não por imposição, mas sim como
necessidade. Contudo, como poderemos glorificar a Deus se nem ao menos o
escutamos? Nos tornamos surdos para ouvir a
Verdade e mudos para glorificar a Deus!
CONCLUSÃO – A PALAVRA DE
DEUS COMO “EFATÁ”
Impossível
não lembrar da célebre frase de Eliardo Alves: “O pior cego não é
aquele que não vê, e sim aquele que finge não enxergar, o pior surdo o que
finge não ouvir, o pior mudo, o que não admite, e a pior mentira é enganar à si
próprio”. Infelizmente, isso não está muito distante de nós.
Que neste mês dedicado a Sagrada Escritura, possamos o amor a Palavra de Deus
na Sagrada Escritura, pois como bem nos lembra o São Jerônimo: “Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo”. Por isso é
crucial que vivamos em contato e em diálogo pessoal com a Palavra de Deus que
nos é dada na Sagrada Escritura, diálogo este que se manifesta em duas
dimensões: deve ser um diálogo realmente pessoal, porque Deus fala com cada um
de nós através da Sagrada Escritura e por meio dela nos deixa uma mensagem,
individual, contudo, não se esquecendo de sua outra dimensão: de que o lugar
privilegiado da leitura e da escuta da Palavra de Deus é a Liturgia, na qual,
celebrando a Palavra e tornando presente no Sacramento o Corpo de Cristo,
atualiza-se a Palavra na nossa vida e a torna presente entre nós. Que a Palavra de Deus seja o “Efatá!” a abrir os nossos ouvidos e
desatar a nossa língua!
Sem. José Demétrio de Camargo
2º ano de
Teologia.


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