SE O CIÚMES TE LEVA A TROPEÇAR, CORTE-O! - XXVI DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO B
PALAVRAS-CHAVE: Ciúmes. Cegueira Espiritual. Cegueira existencial. Acúmulo. Apodrecer.
ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
“O termômetro do sucesso é apenas a inveja dos descontentes”. Salvador
Dalí
O trecho do
Evangelho considerado nesta Liturgia é antecedido por uma admoestação de nosso
Senhor aos Apóstolos, sobre o orgulho. Sabendo o Mestre, por seu conhecimento
divino, que a caminho para Cafarnaum estiveram discutindo qual deles era o
maior, ensinou-lhes, pelo contrário, a cada um que se considerar inferior aos
outros: “Se alguém quer ser o primeiro, seja o último de todos e o Servo de
todos (Mc 9,35). Para isto, é indispensável ter sempre presente o quadro das
misérias pessoais e evitar as comparações com os demais.
Logo a
seguir, São Marcos narra o episódio recolhido no qual o Apóstolo João demonstra
não ter compreendido muito bem este ensinamento de Jesus, pois manifestará,
como veremos, ciúmes dos dons sobrenaturais percebidos em outros.
Contudo,
para tal intento é necessário traçar um caminho e este detém-se no v. 29 da 1ª
Leitura: Moisés respondeu: 'Tens ciúmes por mim? Quem dera que todo o povo do
Senhor fosse profeta, e que o Senhor lhe concedesse o seu espírito!’. É a
primeira vez que a palavra “ciúmes” aparece na presente liturgia sob a correção
de Moisés. Josué, sem dúvida, tinha ciúmes pelo Espírito de Deus, mas de modo
equivocado. Por isso mesmo, Moisés o corrigiu. Parece que Josué temia que os
dois homens, Eldade e Medade, de alguma forma fizessem entrar em eclipse a
autoridade de Moisés, chamando tanta atenção para si mesmos. Algumas vezes, os
críticos são sinceros em suas atitudes, mas isso não quer dizer que tais
críticas sejam justas. As pessoas, naturalmente, com frequência temem qualquer
coisa que ameace o status quo. Assim, Moisés estava com razão pois
percebeu que uma expressão cultural autêntica estava tendo liberdade de
existir. Mas não estava preocupado com sua própria liberdade. Os verdadeiros
ministros não vivem em competição uns com os outros. Antes, suplementam-se
mutuamente. O povo inteiro de Israel estaria em melhor estado se todos os
filhos de Israel fossem como os dois “ofensores”. Porém, por que Josué não
conseguira ver isso? Não esqueçamos da perfeita índole espiritual de Josué, mas
ainda a pergunta permanece: Por que ele não fora capaz de perceber isso?
Um fato
análogo se repete com Jesus: “Mestre – conta-lhe um dia João – vimos alguém,
que não nos segue, expulsar demônios em seu nome e lhe proibimos. E Jesus: Não lhe
proibais... quem não é contra nós é a nosso favor”. Isto reveste-se de um
sentido maior ao reler o que está nos versículos anteriores, percebendo que Ele
apenas retoma o assunto antes discutido, ou seja, a necessidade de se ter a
humildade e a simplicidade da criança. E a intervenção de João, sim, fora
extemporânea, desviando deste tema.
Consideremos
pois, o que Jesus acabara de dizer: “Em verdade vos declaro: se não vos
transformardes e vos tornardes como criancinhas não entrareis no Reino dos
Céus”. Acrescentando: “Todo aquele que recebe um destes meninos em meu nome, a
Mim é que recebe, e todo o que recebe a Mim, não Me recebe, mas aquele que me
enviou”. Pois bem, agora em sequência desse, este: E, se alguém escandalizar um
destes pequeninos que crêem, melhor seria que fosse jogado no mar com uma pedra
de moinho amarrada ao pescoço”. O interessante nesta justaposição é perceber
que a palavra escândalo em grego significa tropeço, não fazendo distinção, como
na tradução da vulgata em escândalo e pecado. É evidente que a semântica é
semelhante, mas no original, o sentido é mais pungente. Porém, o que esses dois
episódios querem nos dizer?
ATUALIZAÇÃO – SE O CIÚMES TE
LEVA A TROPEÇAR, CORTE-O!
A PSICOLOGIA POR DETRÁS
DO CIÚMES
Certa vez, disse Jean de la Bruyere: “O interior das famílias é muitas vezes perturbado por desconfianças, ciúmes e antipatias, e enganam-nos as aparências de satisfação, calma e cordialidade, fazendo-nos supor uma paz que não existe; poucas há que ganham em ser aprofundadas”.
Porém, esta
responsabilidade afetiva não pode servir como cobrança ou aprisionamento de
outrem, convertendo-se naquilo que Bárbara Coré expressou perfeitamente ao
dizer:
“Não é que eu tenho ciúmes dos meus amigos, mas tipo, eles são meus, não
seus...”.
A linha é
muito tênue e a não compreensão ou percepção disso mina qualquer
relacionamento, seja ele uma amizade, ou namoro ou até mesmo, um matrimonio.
O ciúme é um sentimento bem difícil de controlar e que aparece por
diversas razões. Pode ser ciúme do namorado, de um amigo ou até do irmão. Apesar
de bem desagradável, ele é um sentimento natural do ser humano, só que,
dependendo do caso, pode estar em um nível exagerado, causando um ciúme
patológico, que requer a ajuda de um psicólogo. O ciúme surge como um sinal de
alerta, quando acreditamos que algo não está indo bem ou como desejamos. Pode
ser um problema real ou estar presente apenas no imaginário. Só que faz parte
do nosso instinto querer eliminar toda e qualquer ameaça que nos tornam
inseguros, desprotegidos ou em desvantagem. É um sentimento que nos divide
internamente e nos coloca dentro de um dilema interior. Por um lado, estamos
sentindo o ciúme e clamamos por mais atenção. Por outro, nos condenamos por
essa sensação, pois sabemos que o ciúme destrói as relações afetivas.
Porém, o ciúmes não é o único problema que podemos tirar como lição do
Evangelho: quando não é parado, o ciúmes se torna na infame inveja!
Etimologicamente, inveja significa “não ver”. é o desejo por atributos, posses,
status ou habilidades de outra pessoa. Pode também ser definida como “o
deslocamento da energia do potencial de determinado indivíduo para a exacerbada
preocupação com a satisfação e prazer de outra pessoa, geralmente íntima do
sujeito em questão”.
ILUSTRAÇÃO: "Num certo dia uma cobra voraz
desejava a todo custo abocanhar o inofensivo vagalume. Ao que o último lhe
pergunta: "Serpente, tu que és tão poderosa porque me desejas
aniquilar?". A serpente respondeu-lhe: "O teu brilho fascina-me e
como eu não o posso ter, ninguém mais o terá. Por isso quero-te devorar."
Mas porque não viver bem com o sucesso dos outros? Habitualmente, a
inveja é formada a partir do momento em que as qualidades do outro são
comparadas, faltando uma avaliação do meu próprio potencial. Estes sentimentos
de grande frustração e de inferioridade são gerados pelo facto de a pessoa não
ser capaz de realizar ações minimamente úteis para si e para os outros,
consolidando-se assim o complexo de inferioridade relativamente a pessoa
invejada. A comparação que fazemos entre nós e o outro pode ser geral - quando
comparamos as qualidades psicológicas, morais, sociais ou espirituais - ou
específica - quando comparamos as posses materiais, como a casa, o carro, a
roupa, o dinheiro ou o porte físico.
Eis o
perigo do ciúmes: quando não trabalhado, elaborado, torna-se inveja e esta, nos
destrói interior e exteriormente, inserindo-nos numa disfuncional realidade
banhada de neuroses que nem sequer existiram ou existirão! Faz com que a pessoa
desenvolva uma Cegueira espiritual que o impede de ver, mesmo diante de seus olhos,
as maravilhas que Deus tem operado em seu favor, reconhecendo somente as que
Deus operou no outro! Conduz a uma Cegueira Existencial, levando-o à um
rebaixamento de si tão profundo em um estado de inferioridade e de
insuficiência, ao ponto de não se sentir bom, suficiente e atrativo a ninguém.
O invejoso é como o rico na 2ª leitura expressa por Tiago: “Vossa riqueza está
apodrecendo”, que na sede de ter o outro para si, prendendo-o, privando-o,
apodrece em si mesmo. Na sede em querer ser tanto os outros por não se achar
suficiente, perde-se a si mesmo. Portanto, se SE O CIÚMES TE LEVA A
TROPEÇAR, CORTE-O!
Diante
disto, não vejo outra forma a não ser, encerrar com um pensamento que diz: “Se
você ama a rosa, não a corte, pois senão, ela morrerá e deixará de ser o que
você ama. Deixe-a estar, pois o amor não está na posse, mas sim, na
contemplação”.
Não corte a
Rosa, pois ela embeleza o caminho. Corte o ciúmes, que te leva a tropeçar.
Sem. José Demétrio de Camargo
2º ano de
Teologia.


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