O MATERIALISTA É UM MÍOPE DO ESPÍRITO - XIX DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO B
ASPECTOS
INTRODUTÓRIOS
Ao
tomarmos um primeiro contato com esta passagem do Evangelho de São João, logo
nos deparamos com a surpreendente, obstinada e ilógica incredulidade dos
contemporâneos de Jesus à respeito de sua divindade, contudo, este efeito não
permaneceu congelado naqueles tempos mas expandiu-se para além deste período,
porém, esta distância entre o texto e nós pode causar uma certa dificuldade em
compreender como podia alguém duvidar da divindade de Jesus Cristo ante provas tão evidentes: a cura de todo
tipo de doenças, libertação de possessão diabólicas, ressurreições e tantos
outros milagres dos quais a multiplicação dos pães e peixes ainda se faz
presente! Como era então, possível a alguém contestar as claras afirmações de
Jesus acerca de sua divindade e desprezar seus divinos atributos? Ou então o
que levou Elias a suplicar a própria morte? O que levou estes personagens
bíblicos a não enxergarem os prodigiosos sinais de Deus? Uma vez mais o Sitz im leben será um
primoroso instrumento para compreender essas questões?
DESENVOLVIMENTO
Estamos
no capítulo 19 do 1º Livro de Reis: Elias acabara de conseguir grandes vitórias
e notáveis respostas às suas inquietações. Seu prestígio subira muito na terra.
Acab imediatamente contou a Jezabel quão grandes coisas Elias haviam feito não
esquecendo nem a matança dos 450 sacerdotes e profetas de Baal. Essa informação
lançou Jezabel um ataque de fúria e ela jurou vingar-se ao ponto que isso
lançou desespero ao coração de Elias e este, ameaçado por Jezabel, perdeu a
coragem e, atravessando o território, dirigiu-se ao sul. No deserto, cansado e
sedento, o profeta sentou-se à sombra de um zimbro que sendo um pequeno
arbusto, sombreava vagamente, contudo, era “melhor do que nada” e ali, Elias
caiu em uma profunda depressão e desejava morrer. Estava cheio de queixumes e
resmungos: as grandes coisas que vira e operou foram reduzidas a quase nada.
Adonai lhe dera a vida, mas agora Elias suplicava que Adonai a tirasse. Elias
estava em uma “atitude de caverna” na qual a maioria dos homens se afunda
ocasionalmente: tanto seu coração quanto sua mente se tinham escondido, e não
somente seu corpo. Ele tornou-se prisioneiro de suas emoções negativas e o seu
desespero o amarrava como uma corrente de ferro. Sua mente estava presa na
situação que o havia vencido.
Já disse, certa vez, Clarice Lispector: “Quem não tem
pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe faltar coisa
mais preciosa do que ouro - existe a quem falte o delicado essencial."
Falta-nos
o “delicado essencial” do qual o Evangelho expõe de uma forma pungente elevando
a questão a uma inquietação do homem atual inserido na constante variabilidade
da pós-modernidade: quando o homem prepondera a matéria. É evidente que este
conceito não é exclusivo deste período histórico, contudo, seus efeitos
singulares, sim. A natureza humana é um composto de espírito e matéria – a alma
e o corpo – no qual há uma hierarquia em que a parte espiritual deve governar a
material, o que ocorre pela prática da virtude, com o auxílio da graça. Mas
quando o homem se deixa dominar pelas potências inferiores, as paixões
desregradas exercem uma tirania sobre a parte mais nobre e elevada, e ele fica
entregue ao vício. No primeiro caso, predomina o espírito e dizemos estar
diante do homem espiritual; no segundo, prepondera a matéria: é o homem carnal
ou, como se diz atualmente, materialista.
O
materialista está voltado, sobretudo, para a fruição sensível da vida e seus
horizontes intelectuais pouco mais abarcam do que a realidade concreta.
Dir-se-ia ter perdido a capacidade de ver os fatos em 3 dimensões, passando a
observar tudo apenas num plano só, o dos pequenos interesses pessoais e
imediatos, sem a profundidade do que é eterno e por isso não é capaz de captar
as realidades mais elevadas, de ordem sobrenatural: o materialista é um míope
do espírito! Torna-se incapaz de elevar o olhar para os grandes horizontes da
fé que Deus lhe oferece em sua misericórdia.
Há um pensamento de Augusto Branco, poeta brasileiro, que
diz: “Tarefa perigosa é falar aos pobres de espírito porque são habilidosos em
distorcerem aquilo que ouvem de modo que basta que você diga uma única palavra para
que eles saiam a espalhar que você falou um livro inteiro exatamente oposto
àquilo que você verdadeiramente disse.”.
Há assim, uma visualização deformada dos contemporâneos de Jesus,
resultado desta imposição distorcida que levava os contemporâneos de Jesus a
verem n’Ele somente o filho do carpinteiro José e nada mais. Eram incapazes de
admirar e venerar suas excelsas virtudes, nas quais não podia de transparecer
sua divindade, por terem o espírito endurecido pela consideração da mera
realidade concreta, imediata e visível. Não podiam admitir que Aquele que
tinham visto crescer e vivia entre eles pudesse ser Deus e homem: “Como então
pode dizer que desceu do céu?”.
Era desta visão materialista que nascia a impossibilidade de aceitar o
maior dom de Deus à humanidade: a Eucaristia
Com efeito, as realidades visíveis são imagens das invisíveis e
sobrenaturais, como ensina São Paulo “Desde a criação do mundo, as perfeições
invisíveis de Deus, o seu sempiterno poder e divindade, se tornam visíveis À
inteligência, por suas obras” (Rm 1,20). Contudo, para ter essa visão do
universo é necessário ser homem espiritual. É evidente que Elias era um homem espiritual,
contudo, no episódio em meditação ele também fora impregnado por uma depressão oriunda de uma observação
pautada apenas no visível, na materialidade das coisas, naquilo que estava
somente diante de seus olhos. Ver não é o mesmo que observar. Aquele que
observa a realidade de uma forma obscura e negativista, consequentemente,
sofrerá seus efeitos. Trata-se aqui não de uma depressão como patologia, mas
uma “mentalidade depressiva” que emergindo a partir da angustiante experiência
de Elias atinge seu cume no Evangelho com a dificuldade judaica em compreender
Jesus como o pão da vida, ou seja assim como Elias ou os contemporâneos de
Jesus, o homem pós-moderno está impregnado por uma miopia oriunda de um
materialismo profundamente arraigado que transforma sua mentalidade em uma
mentalidade depressiva e suicida, pois ao prender-se apenas no sensível, ele
não dá conta de suprir suas carências transcendentais: por natureza, o homem é
um ser entre imanente e o transcendente. Por isso é além de uma patologia, pois
configura-se numa opção de vida motivada apenas por uma rebeldia egofânica do
homem.
Disse Antoine de Saint-Exupéry: “Só se vê bem com o
coração, o essencial é invisível aos olhos”.
O material não é suficiente para o essencial, por mais básico que ele
seja. Assim, alguns pontos são interessantes para nos ajudar a vencer a “miopia
do espírito” e a morte psíquica:
1)
Vida de oração e vida eucarística, de forma
consciente.
2)
Consciência de que há vida mesmo em cenários de
morte. Alegria em cenários de tristeza. Consolação em meio a desolação: a causa
é o início da mudança!
3)
Destravar a inteligência, não ativando o gatilho da
agressividade e do autoabandono que impedem de progredir mentalmente: Cristo é
o Mestre da vida e como tal, nos conduz à liberdade de espírito.
Sabiamente, Aristóteles proferiu e S. Tomás de Aquino defendeu que há o “primado
do intelecto sobre as paixões” do qual aqui afirma que quem detém é o homem
espiritual, capaz de perceber as minúcias de Deus, assim como a carne e o
sangue de Cristo eram naquele momento, pois a Eucaristia é o alimento
que comunica a virtude vivificante e se torna fonte de vida para a alma e o
corpo, para a matéria e o espírito, para cada um de nós. Ela é a lente que
expurga a nossa miopia, ou por vezes, nossa cegueira espiritual,
reestabelecendo as forças necessárias para continuar a caminhada, vivendo no
amor a exemplo de Cristo, sendo operado assim, além de uma ressurreição da
carne, uma ressurreição do espírito e da mente.
Sem. José Demétrio de Camargo
2º ano de Teologia.


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