INERENTE À RESPONSABILIDADE ESTÁ O PESO DA DECISÃO! - XXI DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO B
ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
Os textos da Liturgia do 21º Domingo
do Tempo Comum contemplam episódios que, apesar da grande distância
cronológica, guardam uma íntima relação entre si: a Primeira Leitura, retirada
do livro de Josué relata que, ao Josué proferir o seu último discurso
recordando o caminho para a concretização da promessa divina do dom da terra,
põe o povo diante de suas responsabilidades: “Se vos parece mal
servir ao Senhor, escolhei hoje a quem quereis servir”. O
Evangelho, por sua vez, da continuidade a dramática situação de um povo que também
através de uma interpelação (agora de Jesus) é chamado à responsabilidade uma
vez que este Cristo exigia uma Fé que implica uma união total ao seu ministério
de morte e vida: em ambos os casos,
partir do Sitz im Leben, ou seja, do contexto vital do texto, é uma bela opção para estabelecer
esta reflexão.
DESENVOLVIMENTO EXEGÉTICO-TEOLÓGICO. SITZ IM LEBEN
Estamos
no capítulo 24 do Livro de Josué, um dos Livros Históricos da Sagrada
Escritura, que sendo sucessor de Moisés procurou descrever a conquista da Terra
Prometida e para compreendê-lo é necessária uma pequena regressão: no capítulo
23 tivemos um discurso diante de Israel (em geral) e de seus anciãos. Neste
capítulo 24 temos um discurso similar, dirigido a todas as tribos, uma espécie
de discurso popular. Alguns críticos, porém, pensam que esses dois capítulos
são uma duplicação, ou seja, duas versões do mesmo acontecimento e discurso.
Entretanto, o discurso do cap. 23 foi entregue em Silo (local onde o
tabernáculo foi erguido, pelo que era ali o santuário central de Israel), ou
seja, perto do Hebrom, onde Josué residia, contudo, o do cap. 24 foi entregue
em Siquém. Assim, este ambiente geográfico reveste-se de interesse pois foi em
Siquém que Abraão recebeu a promessa de que Deus daria a seus descendentes a
Terra de Canaã. Foi neste local que Abraão erigiu um altar afim de demonstrar a
sua fé no único e verdadeiro deus: Adonai. É neste local repleto de simbolismo
que Josué falou diante de todo o povo de Israel, do qual o teólogo John Bright
dirá que “Josué reuniu todo o povo, lembrou-lhes os atos graciosos
de Adonai... acompanhou toda a história e desafiou-os a escolher a quem
haveriam de adorar. Diante dos repetidos protestos de que serviriam ao Senhor,
foi estabelecido um pacto solene, obrigando-os à promessa que havia feito”. Após um
árduo caminho, o povo de Abraão chega a Terra Prometida, ao seu objetivo, do
qual necessariamente com isto chega o momento de tomar uma decisão.
Já disse, certa vez, Gary Collins: “Podemos tentar evitar
de fazer escolhas através de não fazermos nada, mas mesmo isso é uma decisão”.
Aquele
povo tinha diante de si os elementos necessários para refletir qual deus
adorar, mesmo diante dos inúmeros benefícios que Adonai havia distribuído a
eles, os mesmos poderiam ter escolhido os deuses dos pagãos, contudo, diante da
Verdade, o homem se rende, por isso proclamam a Josué: “Portanto, nós também serviremos ao Senhor, porque ele é o nosso Deus”. Josué,
antes de morrer, cumpre sua missão. Entre o não “fazer nada”, o permanecer
na idolatria, optam por Adonai.
No
Evangelho temos uma situação parecida, na qual, geralmente se atenta à resposta
de Pedro, contudo, a proposta aqui é diferente: atentar-se aos judeus e alguns
discípulos que após o discurso de Jesus como sendo o Pão da Vida, deixam
transparecer o impacto, praticamente negativo, tornando-se visível nos dizeres:
“Duro é este discurso, quem pode ouvir?” A
contradição dos judeus é veemente: “Como pode este homem dar-nos de comer
a sua Carne?”, perguntavam entre si aqueles que ouviram Cristo
fazer alusão ao Sacramento da Eucaristia.
Com uma fé insuficiente, como poderiam alcançar o
verdadeiro significado das revelações feitas pelo Messias?
De fato, como disse Albert Camus: “A vida é a soma de
todas as suas escolhas”.
E
naquele momento, os judeus não queriam admitir que o divino redentor pudesse se
autodenominar “pão da vida”. De fato, ele o é, tanto pela divindade quanto pela
sua humanidade, pois enquanto Deus, Ele cria, sustenta no ser e alimenta todos
os viventes. Ao assumir um corpo, sua Carne é vivificante por ser o Verbo de
Deus. Tamanho é o mistério que o Mons. Clá Dias dirá que: “Da mesma forma que o ferro se torna incandescente ao ser introduzido no
fogo, adquirindo as substâncias e as propriedades deste, sem deixar de ser
ferro, assim também o Sagrado Corpo de Jesus está unido à natureza divina”. Hoje nos
damos conta de quanto a rejeição dos judeus ao precioso convite de Cristo é
inexplicável. Não se pode esquecer aquilo que, diante do discurso de Jesus, o
Evangelho é claro: “A partir daquele momento, muitos
discípulos voltaram atrás e não andavam mais com ele”. Os seus
antepassados haviam adorado não poucos deuses falsos, além de terem admitido as
mais absurdas doutrinas. Ao se apresentar o verdadeiro Deus, oferecendo-se como
alimento de imortalidade, a reação deles foi de repulsa. Em um episódio
decisivo no anúncio do Reino de Deus, os discípulos se dividiram entre aqueles
que se escandalizaram com as palavras de Jesus e aqueles que, mesmo sem
entendê-las, aceitaram por um ato de fé.
ATUALIZAÇÃO
Em ambas as leituras se situa a
escolha de um povo que diante uma situação precisava tomar uma decisão.
Contudo, esse ato é inerente somente a eles? De fato, não, mas estende-se a
todos nós, cuja situação, muitas vezes, tende a não ser muito favorável, aproximando
muito daqueles que optaram por deixar Jesus. Assim sendo, porque as pessoas têm
tanta dificuldade em escolher, em decidir por algo? Quando isso se torna um
problema?
A primeira coisa que deve ficar
clara, é que a escolha implica em um exercício de liberdade, ou seja, a
primeira é fruto da segunda.
Sigmund Freud já
dizia que “A maioria das pessoas não quer realmente a liberdade, pois liberdade
envolve responsabilidade, e a maioria das pessoas tem medo de
responsabilidade”.
Dessa
forma, percebe-se o primeiro elemento a dificultar as pessoas tomarem decisão e
fazer uma escolha: assumir a responsabilidade por sua escolha, pois toda
decisão implica renúncia e nem sempre as pessoas possuem a maturidade
necessária para esse intento. Inerente a responsabilidade está o peso da decisão! Quem de nós
não conviveu ou convive com uma pessoa indecisa. São aqueles que sempre delegam
a escolha ao outro, seja do que vão comer, o que vão vestir, e até em alguns
casos, como vão viver. Ser indeciso não é em si uma problema, mas sim, uma
dificuldade. Passa a ser um problema quando se torna uma patologia, coisa que
não é muito difícil. A Psicologia Positiva denomina essa patologia com o nome
de Abulomania. Em algum momento de nossas vidas ... todos nós tivemos
que enfrentar uma decisão difícil. Começamos a duvidar, ficar nervoso por não
saber o que escolher ... Isso é normal. No entanto, quando a indecisão afeta
nossas vidas, nosso relacionamento com os outros e a razão pela qual isso
aparece tem a ver com o estresse, a ansiedade e até a depressão, podemos estar
diante de um caso de Abulomania. É necessário enfatizar que ela é um
transtorno mental incapacitante, não um problema de insegurança. As pessoas que
sofrem com isso não confiam em si mesmas para tomar decisões e, normalmente,
têm muitos problemas em seus relacionamentos, sejam eles um casal, amizade,
família, trabalho etc. O fato de ter que escolher entre uma sobremesa ou outra
pode ser uma odisseia. Até esse ponto chega a abulomania. Quem sofre
esse tipo de transtorno não é capaz de decidir o menor. Sua indecisão chega a
tal ponto que se num grupo de amigos tinha que decidir um plano para o fim de
semana, eles não acabariam fazendo nada. Existem diversas justificativas para
que uma pessoa seja indecisa, principalmente, se levarmos em conta a história
de vida de cada um. Porém, as pesquisas sobre a psicologia da indecisão,
apontam causas mais comuns, que geralmente são:
1) Tentar agradar as pessoas: é comum algumas pessoas pensarem que, se outras pessoas trilharem o seu próprio caminho, a aceitação dela será melhor. Se você se torna permissivo demais quando se trata da influência dos outros na sua própria vida, acaba perdendo a capacidade de tomar as próprias decisões.
2) Variedade de opções: algumas pessoas não conseguem tomar decisões com facilidade, devido às milhares de opções possíveis e seus possíveis desfechos. Aqui, é necessário trabalhar na forma com que as pessoas lidam com as possibilidades e com as emoções, ajudando a fazer escolhas racionais.
3) Frustração em escolhas anteriores: algumas pessoas perdem a
confiança na sua capacidade de tomar decisões de forma correta, após tomar
alguma decisão que influenciou negativamente em sua vida. Independentemente da
raiz da sua decisão, ou se ela configura uma patologia, o que é certo é que
todos nós corremos o risco de se ver presos nesse engodo que é a indecisão ou o
medo da responsabilidade.
Quantos são aqueles que se sentem como Clarice Lispector
nesta frase: “Sou uma pessoa insegura, indecisa, sem rumo na vida, sem leme
para me guiar: na verdade não sei o que fazer comigo”.
Por isso, alguns pontos concretos podem nos ajudar na tarefa de superar
essa situação, pois assim, de dura e de difícil escuta, a Palavra passa
a ser mais praticável:
1)
Preste atenção às suas emoções: A forma
como você se sente em relação a uma escolha que precisa fazer pode te ajudar a
entender como aquilo te afeta e, assim, pensar com mais clareza.
2)
Mantenha a calma: Se permita
fazer uma pausa para refletir, apenas tomando o cuidado para não se exceder.
Lembre-se que esse tempo deve ser realmente para pensar melhor e não para adiar
a decisão.
3)
Pense de forma estratégica: procure
saber mais a respeito do que está vivendo, quanto mais informações tiver, mais
estrategicamente conseguirá refletir a respeito.
4)
Se questione se está tentando agradar alguém: Pode
acontecer de você se mostrar indeciso porque, inconscientemente, está tentando
agradar terceiros, gerando um conflito interno.
5)
Liberte-se da necessidade de perfeição: Caso tenha
um perfil perfeccionista, procure entender o que motiva isso. Muitas vezes, o
perfeccionismo surge como um sintoma de insegurança, fazendo com que o
indivíduo se esforce para ser perfeito por medo de ser criticado. Reflita sobre
isso e ressignifique essa ideia dentro de você, lembrando-se sempre que uma
ação que tenha certos defeitos vale muito mais do que um planejamento impecável
que nunca saiu do papel.
6)
Perdoe-se pelos erros do passado
CONCLUSÃO
Sabiamente, Santo Agostinho já dissera: “Errare humanum est,
perseverare autem diabolicum – “Errar é humano, permanecer no erro é
diabólico”. Há um determinado momento da caminhada para o Reino em que se
torna necessário, de nossa parte, uma adesão consciente e explícita: uma
escolha verdadeira! Jesus põe-nos à prova com uma sutileza divina: compreendia
Ele quanto agrada ao homem o apoio de suas amizades, mas discernia, de outro
lado, a firme e prévia decisão tomada por eles de O seguirem, o que lhe
permitia fazer esta pergunta para lhes tornar explícita a adesão à sua pessoa.
Quando Jesus nos perguntar: “Vós também vos quereis ir embora?” “Praestet
fides supplementum, sensuum defectui – que a fé complete a insuficiência
dos sentidos” e possamos responder como Pedro: “A quem iremos, Senhor?
Tu tens palavras de vida eterna. Nós cremos firmemente e reconhecemos que tu és
o Santo de Deus”.
Sem. José Demétrio de Camargo
2º ano de Teologia.


Comentários
Postar um comentário