É PRECISO DEIXAR O PASSADO PARA SEGUIR EM FRENTE - XVIII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO B

 ASPECTOS INTRODUTÓRIOS

            Os textos da Liturgia do 18º Domingo do Tempo Comum contemplam episódios que, apesar da grande distância cronológica, guardam uma íntima relação entre si: a Primeira Leitura, retirada do livro do êxodo relata uma murmuração dos filhos de Israel por causa da escassez de alimento pela qual passavam no deserto, estado de espírito, este, que revela a ingratidão característica de pessoas “de testa dura e de coração insensível”. O Evangelho, por sua vez, da continuidade a dramática situação de um povo que também passava por uma série de necessidades. Em ambos os casos, partir do Sitz im Leben, ou seja, do contexto vital do texto, é uma bela opção para estabelecer esta reflexão.

            DESENVOLVIMENTO

Sem dúvida, facilmente se compreende que muito árdua deveria ser aquela caminhada de um povo inteiro rumo à Terra Prometida. Assim compreendemos os Teólogos SCHUSTER e HOLZAMMER, quando, em sua obra “História Bíblica. Antigo Testamento” dizem que “Os vales eram cada vez mais estreitos, os montes, mais sombrios. E aquela grandiosa paisagem montanhosa, com seus desfiladeiros pelos quais precisavam passar apertados, tornava-se a cada passo mais estranha aos Israelitas, acostumados às planícies do Baixo Egito, onde as fadigas haviam sido maiores, mas onde contavam pelo menos com o descanso e a comodidade da noite. Apoderou-se deles uma profunda nostalgia”. No Egito, ainda que tivessem a aspereza inerente à escravidão, após ingrata labuta diária, não lhes faltava comida em casa. Tenhamos presente que, além da abundância de peixes, as cheias regulares do Rio Nilo fertilizavam as terras de modo que, já naquela época, as colheitas tornavam-se abundantes. E naturalmente, nas precariedades de uma marcha pelo deserto, não dispunham das mesmas regalias. Assim compreendemos a revolta dos filhos de Israel, pois, olvidando todos os prodígios realizados por Deus até aquela ocasião, para livrá-los da escravidão e alheios aos superiores planos divinos, aquele povo se revolta movido por uma ingratidão a Deus, tornando-se incapazes de perceber os sinais da ação de Adonai em suas vidas. Assim, o maná surge como uma prova para educá-los na confiança.

Já disse, certa vez, Goethe: “Ingratidão é uma forma de fraqueza. Jamais conheci homem de valor que fosse ingrato”.

No Evangelho temos uma situação parecida, na qual, após a primeira multiplicação dos pães, o povo ficara de fato entusiasmado com Jesus, por ter provado um alimento de qualidade jamais visto. Sem dúvida, saído das mãos do redentor, foi esse o pão mais excelente da história, assim como fora o vinho de Caná. Esse manjar de inigualável sabor deve ter produzido inclusive efeitos altamente benéficos para a saúde, proporcionando condições especiais para a prática da virtude juntamente com uma grande consolação espiritual, como figura que era da Eucaristia. Contudo, no dia seguinte, tomada por agitações, a multidão não pensou em outra coisa senão em seguir o mestre, ávida de saborear de novo aquele pão. Imaginava, provavelmente, que nosso Senhor multiplicaria sempre os pães e os peixes, na esperança de não mais trabalhar. Tão cegos estavam que nem se quer perceberam ou procuraram raciocinar como Jesus havia chegado ali, se nem na barca ele havia subido. Só este sinal teria bastado para eles concluírem que estavam diante de Deus, mas, preocupadas demais com o sustento material do que com a consolação espiritual, não foram capazes de compreender: ficaram nos efeitos sem remontar à causa

            Contudo, do que necessitavam ainda para crer? Segundo a concepção vigente, o Messias deveria restaurar o domínio político de Israel. Compreende-se pois, a referência ao maná, considerado não uma dádiva de Deus, mas sim a solução de um problema temporal, proveniente de um grande caudilho como Moisés. De acordo com essa ideia, era o profeta e não o próprio Deus, quem dava ao povo o maná. Da mesma forma, consideravam a multiplicação dos pães e peixes a saída para uma dificuldade material, vendo em Jesus um líder meramente humano, vendo em Jesus, Moisés.

Há um pensamento que diz: “Preso no passado, eu não conseguia viver o presente. Sem o presente, era impossível idealizar futuro algum”.

Eles estavam ainda, presos ao passado, impossibilitados de ver o presente, o contexto vital do texto deixa isso latente diante de nós, expressando assim uma pungente lição, uma vez que quantos sãos aqueles que ainda não conseguiram superar o passado em suas vidas! Quantos são aqueles que ficam ruminando aquilo que fizeram ou deixaram de fazer! Construímos nossa própria história ao longo da vida e vamos registrando em nossas mentes diversos acontecimentos que nos marcam, podendo ser entendidos como positivos ou negativos. Todo ser humano é dotado de um enorme potencial e capacidade de aprendizagem e ressignificação da própria vida. Entretanto, em determinadas ocorrências (principalmente relacionadas às perdas significativas) a pessoa pode encontrar dificuldades em lidar com alguns pensamentos e sentimentos. Tais dificuldade geram intensa dor psíquica, fazendo com que a pessoa fique psicologicamente vulnerável e tenha dificuldades em lidar com seus sentimentos, desejos e escolhas. Sentir-se preso ao passado é uma sensação muito recorrente na atualidade: são histórias de sofrimento intenso que acarretam em sentimentos destrutivos direcionados a si e/ou ao outro; feridas emocionais relacionadas ao passado e não elaboradas podem paralisar a pessoa, fazendo com que se sintam estagnadas e sem conseguir descobrir novos caminhos para avançar com suas vidas!

Já dizia Shakespeare: “Lamentar uma dor passada, no presente, é criar outra dor e sofrer novamente.”

Ficar preso no passado, naquilo que tem sido a nossa história dá-nos igualmente uma sensação de segurança. “Se eu avançar não sei como vai correr, então tenho medo de seguir em frente…talvez tomar algumas decisões e falhar. Não quero sentir que falhei novamente, pois não quero passar por essa sensação novamente”. Todas estas ideias são legitimas e compreensíveis, contudo, a mente que se abre a uma nova ideia jamais voltará ao seu tamanho original e isso porque, todas as decisões que tomamos vão influenciar o nosso pensamentos, as nossas ideias e com elas formar novas hipóteses. Ruminar sobre o passado não faz com que ele mude. Estamos sobretudo a desperdiçar tempo precioso agora e que terá uma grande influência no futuro. Então, o que posso fazer para me libertar desta tendência para estar sempre a pensar na vida que levei, nos acontecimentos do passado?

Alguns pontos concretos podem nos ajudar nesta tarefa:

1)      Gratuidade: as filas de petições são maiores que as de louvor/agradecimento

2)      Focar na solução: a vida e Deus nos colocarão problemas – todos olhavam para os problemas – reclamar só piora e dizer que as coisas estão difíceis não as tornam mais fáceis – diante do problema eu procuro a solução? – Você é uma pessoa que tem focado mais no problema ou na solução?

3)      Valorizar: é preciso administrar os dons que Deus te deu – não menosprezar os alimentos, os dons, as amizades que Deus tem nos concedido: amar o que você tem, antes que a vida ensine a amar o que você tinha.

4)      Ocupar a cabeça com coisas que nos trazem pensamentos positivos.

5)      Concentrar suas ideias em fatos, não suposições.

6)      Aceitar que o passado aconteceu e não há nada que possa fazer para mudar, mas pode construir a partir disso para traçar um novo futuro.

7)      Estabelecer objetivos concretos para o futuro

Sabiamente, Santo Agostinho já dissera: “Errare humanum est, perseverare autem diabolicum – “Errar é humano, permanecer no erro é diabólico”. Assim como aquele povo, posteriormente,  reconheceu a fidelidade de Adonai por meio do Maná e suplicou o Pão da Vida a Jesus, nós também somos convidados a traçar este caminho novo, contudo, é necessário deixar o passado para que possa seguir em frente: Renunciando à vossa existência passada, despojai-vos do homem velho, que se corrompe sob o efeito das paixões enganadoras, e renovai o vosso espírito e a vossa mentalidade. Revesti o homem novo, criado à imagem de Deus, em verdadeira justiça e santidade”.

                                                                                                                  Sem. José Demétrio de Camargo

2º ano de Teologia.

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