DISTANCIAR-SE DOS PALPITES PARA ABRAÇAR A VERDADE - SOLENIDADE DE S. PEDRO E S. PAULO, APÓSTOLOS - ANO B
Obs.: esta reflexão homilética foi inspirada na
Homilia do Padre Wagner Lopes Ruivo: “Uma reflexão acerca da Verdade”
ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
De antiguíssima data, a Solenidade de hoje já fora inscrita no Santoral Romano antes mesmo da Festa do Natal, bem como, no século IV já se celebravam três missas: uma em São Pedro no Vaticano, outra em São Paulo fora dos muros e a terceira nas catacumbas de São Sebastião. Assim, somos convidados a refletir sobre estas duas figuras e a considerar o seu exemplo de fidelidade a Jesus Cristo e de testemunho do projeto libertador de Deus.
A Primeira Leitura nos recorda que a vida das testemunhas
de Cristo reflete a do Mestre ao ponto de se tornarem um incômodo, sendo
exposto ao sofrimento e a morte. Contudo, quando a Igreja eleva em uníssono
suas súplicas, Deus vem ao socorro de suas testemunhas, pois “Agora sei, de
fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes e de
tudo o que o povo judeu esperava!" Há muito a ser feito!
A Segunda Leitura permanece na mesma linha indicando, por
meio de Paulo não mais o que “há de ser feito” mas sim o que já fora realizado
ao mesmo tempo que por meio do seu testemunho ele encoraja Timóteo: de vítima
torna-se como a libação do óleo ou então água ao doar-se totalmente, Paulo
também imita Cristo, pois “Quanto a mim, eu já estou para ser derramado em
sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida. Combati o bom combate, completei
a corrida, guardei a fé”.
O Evangelho permanece e aprofunda esse contexto ao
inserir a causa de todo esse pungente e vivaz testemunho, esse martírio, que, colocando-o
na boca de Pedro, nos recorda que diante de muitas afirmações e palpites,
devemos nos apegar a Verdade de que: “Tu és o Messias, o Filho do Deus
vivo".
Dessa forma, a liturgia trata-se de um convite à meditação
do que motivou, encorajou e impulsionou Pedro e Paulo a seguirem o exemplo de
Cristo até as últimas consequências, até a morte, fazendo valer na própria
carne o que a etimologia de testemunha indica: o martírio.
Quando se entra em contato com um
texto bíblico, a tendência é analisá-lo ou ouvi-lo como algo distante da nossa
realidade. Aí compreende-se a função da hermenêutica bíblica que consiste em
trazer para a realidade do ouvinte o texto proclamado. A partir disso,
geralmente medita-se acerca do ministério Petrino e da autoridade da Igreja
mediante as chaves, mas gostaria de ir por um caminho diferente, do qual por
meio de quatro momentos, analisar-se-á a pungente resposta de Pedro. Estes
momentos são: a pergunta de Jesus aos discípulos, a resposta destes, a resposta
de Pedro e a afirmação de Jesus.
Pois bem, comecemos pelos três
pontos iniciais que formam como que um entroncamento entre si - contexto que inspira a pergunta de Jesus aos
discípulos e a resposta deles - do qual a perícope assim expressa: “Jesus
foi à região de Cesaréia de Filipe e ali perguntou aos seus discípulos: "Quem
dizem os homens ser o Filho do Homem?" Eles responderam: "Alguns
dizem que é João Batista; outros que é Elias; Outros ainda, que é Jeremias ou
algum dos profetas. Então Jesus lhes perguntou: "E vós, quem dizeis que eu
sou?"". Neste momento, Jesus percebe que diante dos últimos
acontecimentos, sua imagem perante seus seguidores havia sofrido inúmeros
acréscimos e gerado várias representações de quem ele poderia ser, ou seja, sua
identidade estava confusa perante as pessoas de modo que a pergunta é
diretamente aos discípulos – E vós, quem dizeis que eu sou? – pois
afinal, ele queria saber como seus discípulos o vinham pois queria revelar a eles
Verdades mais profundas como o estabelecimento de sua Igreja, a aproximação de
sua morte e a sua ressurreição. Para conhecer a verdade de Cristo, é necessário
estar preparado! Isto nos insere à pungente resposta de Pedro: “Tu és o
Messias, o Filho do Deus vivo - Σὺ εἶ ὁ Χριστὸς, ὁ Υἱὸς τοῦ Θεοῦ τοῦ ζῶντος”.
Esta confissão é tão significativa que o original utiliza o artigo definido
antes de cada termo cujo propósito de distinguir Jesus é alcançado. Mas
distinguir de quem? Ora, Jesus é o Cristo, o filho do Deus vivo! Aqui temos
mais um termo: Cristo é o termo usado em português para traduzir a palavra
grega Χριστός que significa "Ungido". O termo grego, por sua vez, é
uma tradução do termo hebraico מָשִׁיחַ (Māšîaḥ), transliterado para o
português como Messias. A unção era dada somente mediante aos Reis, portanto, é
distinguir Jesus de qualquer outro que pudesse ser chamado “Cristo” ou “Ungido”,
de qualquer outro que pudesse ser chamado de “Filho de Deus”, e também, que o
Deus vivo, é o Deus de Israel, aquele que por meio dos profetas deu indicações
sobre a vinda e as obras do Messias. Portanto, Jesus é o único Cristo
verdadeiro - “Alethinon”, o filho de Deus, e que foi enviado pelo Deus
de Israel, o único Deus verdadeiro e vivo em contraste com os deuses pagãos que
não tem vida nem inteligência. No credo dizemos: “Deus Verdadeiro de
Deus Verdadeiro”. O próprio Senhor se autodefine assim: “Ἐγώ εἰμι ἡ ὁδὸς καὶ ἡ ἀλήθεια
καὶ ἡ ζωή” (Eu sou o caminho, a verdade e a vida). Diante das inúmeras representações e palpites
acerca de Jesus que seus irmãos discípulos haviam apresentado, Pedro escolhe
distanciar-se dos palpites para abraçar a Verdade: de que Jesus é o Messias, o
Filho do Deus vivo”, e assim, torna-se feliz – Μακάριος – bem-aventurado.
Uma colocação muito oportuna nestes tempos de
crise da verdade! Inúmeros são os palpites e representações da Verdade a nos
cercar! Estamos como que aqueles que não sabiam ao certo quem era Jesus, como
no Evangelho de hoje.
Filósofos como
Heidegger e Russel lançaram-se nesta investigação acerca da Verdade quando o
primeiro, em sua obra Sein und Zeit, retomou o termo para definir a
tentativa de compreensão da verdade. Realizou uma análise etimológica do termo a-letheia,
atribuindo-lhe a significação de -desvelamento-. Portanto, para Heidegger, alethéia
é distinta do conceito comum de "verdade" - esta considerada
como um estado descritivo objetivo. Já para Russel por meio desta alegoria: “se
tenho a mão direita fria e a mão esquerda quente, e coloco as duas mãos em um
balde de água morna, a mão direita me dirá que a água está quente e a mão
esquerda me indicará que a água está fria” Demonstra que a realidade é
apenas mental (uma criação subjetiva), ou seja, a verdade é pragmática e
probabilística, ao ponto que no mundo pós-moderno, a verdade objetiva é algo
inexistente! Assim compreendemos aquilo que o então Papa Bento XVI preconizava
como a Ditadura do relativismo, do qual, ao assumir um papel de reinado, de
unção, tornou-se o Χριστός, ou seja, os palpites e representações tomaram o
lugar do Deus verdadeiro, fazendo assim que surja como uma necessidade do nosso
tempo. O resultado dessa inversão são as sociedades cada vez mais
confusas que, diante uma pluralidade tão grande de pessoas não resta outra
opção a não ser manter o equilíbrio entre vários credos: não se deve tomar
partido pois cada crença merece supostamente o mesmo valor. E, assim, até
quando não se é um relativista, deve-se parecer um ao ponto de termos cada vez
mais pessoas que odeiam qualquer tipo de fé, e como não há verdade objetiva,
somos forçados a ser banais e superficiais.
FINALIZAÇÃO
Assim sendo, diante das múltiplas representações de Jesus que nos cercam e que nos são apresentadas, somos convidados sob o exemplo de São Pedro e São Paulo, que deram suas vidas pelo Messias, o Filho do Deus vivo e se tornaram Testemunhas da Verdade, a fazermos o mesmo: distanciarmos dos palpites para abraçarmos a Verdade. Somente assim poderemos fazer como São Paulo quando disse: “Quanto a mim, eu já estou para ser derramado em sacrifício; aproxima-se o momento de minha partida. Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé”.
Sem. José Demétrio de Camargo
2º ano de Teologia.


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