TEMOS TROCADO A SUAVE VOZ DE DEUS PELA ÁSPERA VOZ DO DIABO? (X DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO B)
ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
Com
o término das Solenidades que ao mesmo tempo, findam o Tempo Pascal e inserem a
2ª parcela do Tempo Comum, a Igreja convida-nos a mergulhar no Mistério da Vida
de Cristo, como que constituindo de uma memorização dos passos que, além de
justificar todo o Mistério da Paixão, Morte e Ressurreição, agora assume o
papel de, tendo sido mergulhados em tão augusto processo de revelação
teológica, não percamos os Frutos do Tempo Pascal como que, à esmo no tempo,
mas possamos ser verdadeiras Testemunhas da Ressurreição em nossa vida
cotidiana. O Tempo Comum, agora, constitui dessa importante ferramenta da
pedagogia cristã: de que como Mater et Magistra, seja capaz de educar seus filhos no caminho do
discipulado de Cristo, de modo que para se manter os frutos da Ressurreição e
de Pentecostes, é imprescindível caminhar ao lado de Jesus, fazer a sua vontade
e acima de tudo, sentir-se atraído por sua voz.
A
Primeira Leitura, ao sintetizar a experiencia da queda dos primeiros pais
principia este elemento de escolha e escuta da palavra que sai da boca de Deus
juntamente com a vontade que mesma expressa. Assim Adão e Eva sentem vergonha
da serena e acolhedora voz de Deus: a desobediência começa a despontar seus
frutos, ou melhor, seus prejuízos.
O
Evangelho, ao permanecer neste mesma esteira, procura aprofundar por meio de um
elemento há muito discutido: pode o bem ser originado a partir do mal? Pois
afinal “é por meio de Belzebu, príncipe dos demônios que ele expulsa os
próprios demônios”. Contudo, esta íntima relação ficará ainda mais evidente
por meio da realização da vontade de Cristo.
A
Segunda Leitura como que motivada pelo Salmo de hoje, estabelecem um
encorajamento ao ser humano, lembrando-lhe que mesmo diante de suas faltas, o “homem
interior vai se renovando a cada dia” pois “se Deus levar em conta
nossas faltas, quem haverá de subsistir?”
Neste
contexto e sentido, é possível perceber dois blocos na Liturgia de hoje: a
desobediência seguida da queda dos primeiros pais com o Reino dividido de
Satanás e a blasfêmia dos escribas constituem do primeiro bloco, enquanto a
misericórdia do senhor e a restauração do homem no salmo e na segunda leitura
constituem do segundo bloco. É sobre isso que gostaria de refletir hoje.
Pois
bem, neste caso, comecemos pelo primeiro bloco:
A Primeira Leitura assim nos insere: “Depois que o homem comeu da fruta da árvore, o Senhor Deus chamou Adão, dizendo: 'Onde estás?' E ele respondeu: 'Ouvi tua voz no jardim, e fiquei com medo, porque estava nu; e me escondi’. Disse-lhe o Senhor Deus: 'E quem te disse que estavas nu? Então comeste da árvore,de cujo fruto te proibi comer?'. Aqui nós temos toda a dramaturgia existencial do ser humano como que a perpassar os séculos e transpor o tempo. Os primeiros Pais são questionados por Deus do porque estes estão se escondendo, pois afinal, o mínimo que podia ser causado é essa estranheza por parte de Deus (e aqui bem sabemos que é uma corrente teológica que utiliza desses elementos de atribuição de sentimentos à Deus para alegorizar sua relação com o homem: antropomorfismo e a antropopatia) uma vez que Ele tudo criou com harmonia, ordem e perfeição, de modo que este mesmo Deus, como relata o Genesis, andava com Adão e Eva pelo jardim: Criador e criatura andando lado a lado. Contudo, tudo isso mudou quando ambos comeram do fruto proibido: a questão aqui não é qual era o fruto nem tampouco o que significava mas sim, o fato deles terem feito algo que por Deus fora proibido, sendo induzidos pela serpente, símbolo da ação de Satanás, do qual, este ato acarretará em sérias consequências, pois é aqui que nasce a necessidade da nossa redenção que será operada por Cristo, a “tua descendência e a dela. Esta te ferirá a cabeça e tu lhe ferirás o calcanhar', como bem nos recorda e amarrará o Evangelho.
Dessa
forma, a pungente e serena pergunta de Deus: “Onde estás?” conjuntamente com a
fuga de Adão expressa algo que muito tem-se tentado esquecer e mascarar em
nossa sociedade: o homem sempre terá de enfrentar a si mesmo. A voz de Deus
busca o homem e faz o homem descobrir a si mesmo. O homem sempre deverá
enfrentar a lei da colheita segundo sua semeadura (Gl 6.7,8). A voz de Deus
pode ser ignorada por muito tempo, mas a confrontação é inevitável. Os homens
tentam saber mais do que Deus, mas a Palavra de Deus será vindicada no fim. Os
homens, constantemente e como que cegos, tentam substitutos e imitações baratas
para a verdade e para a conduta ideal, mas o fracasso será o resultado das
tentativas. Dessa forma, “Onde estás” nos leva a refletir acerca da miséria e
de sua caracterização local, da localização espiritual da maioria dos homens,
de modo que há uma gradação quase infinita de posições espirituais à que os
homens tem chegado, porém, nenhum ser humano acha-se chegado, onde já deveria
estar, espiritualmente. Por isso é fulcral pensar à que
posição de miséria temos chegado ao darmos ouvidos ao tentador e ter
desobedecido a Deus? Temos trocado a suave voz de
Deus pela áspera voz do Diabo?
Essa
atitude muitas vezes se dá mediante a presença implícita da Blasfêmia dos
escribas no Evangelho (e aqui adentramos a 2ª parte do 1º bloco), ao dizerem
que: “ele estava possuído por Belzebu, e que pelo príncipe dos demônios ele
expulsava os demônios, pois ele estava fora de si”. Mas se esta afirmação
já era tida como absurda nos tempos de Jesus, ainda mais ela o será hoje, pois
é evidente que: “Como é que Satanás pode expulsar a Satanás? Se um reino se
divide contra si mesmo, ele não poderá manter-se”. Mas será que de fato,
isso foi compreendido pela humanidade? Parece que não, pois basta olharmos para
os efeitos da desobediência de Adão e da miséria humana: a Guerra Civil, como
bem Jesus profetiza no Evangelho de hoje, é extremamente destrutiva a um país,
e seu prolongamento aponta para o fim. Satanás tem seu “país”, seu reino. É
evidente que ele não promoverá uma guerra civil no mesmo. O argumento de Jesus
é claro, penetrante e conclusivo. No entanto, tolamente o mundo e o homem
imaginam que o bem pode vir de obras e de métodos maus, os quais, de alguma
forma, são transmutados em bem. Os líderes religiosos daquela época
compartilhavam dessa ideia perversa, pois supunham que Jesus pudesse fazer o
bem por meio do poder de Satanás e que este ajudaria a Cristo na conduta
humanitária, incluindo a expulsão de forças malignas. Bons fins não podem ser
obtidos por meios malignos uma vez que, moralmente é impossível. Mas quantos,
se não, também nós ainda somos relutantes e pensamos que os “fins justificam os
meios”. Quando assim fazemos, somos como os escribas do tempo de Jesus,
julgamos que Ele “estando fora de Si expulsa os demônios por meio de
Belzebu”.
Contudo, mais do que uma saída à essa situação, uma solução eterna e pungente é oferecida, e ela se encontra no Evangelho de hoje: “Então lhe disseram: 'Tua mãe e teus irmãos estão lá fora à tua procura'. Ele respondeu: 'Quem é minha mãe, e quem são meus irmãos?' E olhando para os que estavam sentados ao seu redor, disse: 'Aqui estão minha mãe e meus irmãos. Quem faz a vontade de Deus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe'. Aqui nós temos um jogral linguístico grego cuja compreensão é importante, não estando presente especificamente nesta perícope mas sim em Mateus que lança luzes à esta compreensão: num primeiro momento parece que Jesus está quase que desprezando seus laços familiares ao abraçar uma dimensão mais comunitária e populista, mas é exatamente ao contrário, pois (e isto fica mais evidente no texto em grego) que assim como Maria fez a vontade do Pai com maestria e perfeição, todos aqueles que, assim como ela fizerem a vontade de Deus e a por em prática, serão como Maria: tornar-se-ão seus parentes. É por meio da redenção operada por Jesus que é fruto da descendência de Maria, da Nova Eva que nós seremos, ou melhor, fomos ligados à Deus novamente. Esta age como que um grito de direcionamento de nossas vidas, lembrando-nos que “Se Deus levar em conta nossas faltas, quem haverá de subsistir? Mas em vós se encontra o perdão, eu vos temo e em vós espero”, ao ponto que “Mesmo se o nosso homem exterior se vai arruinando,o nosso homem interior, pelo contrário, vai-se renovando, dia a dia”. Fazer a vontade de Deus implica em caminhar ao lado de Jesus, fazer a sua vontade e, acima de tudo, sentir-se atraído por sua voz, pois “ouvi a tua voz... estava nu, tive medo e me escondi”, como disse Cuthbert Simpson “A franqueza do relato empresta à narrativa força e clareza!”. Ter ouvido a voz de Deus não foi o verdadeiro motivo de o homem ter-se escondido. A causa estava no próprio homem. Resultou do pecado. É triste quando a voz de Deus para nós é um espanto ao invés de ser um motivo de consolo.
Sem. José Demétrio de Camargo
2º ano de Teologia.


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