À QUE TIPO DE MAR A “ARROGÂNCIA DAS NOSSAS ONDAS” TEM NOS LEVADO? - XII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO B
ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
Os Domingos anteriores nos apresentavam um Jesus cujo
poder era exercido sobre as potências demoníacas. Hoje, seu poder se dilata
para abraçar os elementos da natureza por meio da figura do mar, cujo grandioso
mistério e extensão são altamente perceptíveis. O tema, portanto, ainda
permanece o mesmo, uma vez que o Mar, no simbolismo bíblico, sujeito ao domínio
de Deus, permanece um mundo cheio de mistérios e perigos em virtude de sua
profundidade e desconhecimento que há nele. Constantemente figuras literárias
são utilizadas para galgar esse mistério acerca do Mar: a amargura de suas águas,
perpétuo flutuar de suas ondas e sua potente força destruidora quando
desencadeada são alguns desses elementos. Neste sentido, também é possível
conceber com eloquência e eficácia a imagem das forças do mal, orgulhosas e
ameaçadoras, que encontram um plástico simbolismo nos míticos e fabulosos
monstros que a fantasia popular coloca em seus abismos. O mar, portanto, e não
diferentemente a Liturgia de hoje, estão revestidos de uma certa simbologia
cósmica-natural que muito pode nos ajudar no “refletir bem” a nossa conduta e
vida humana.
A Primeira Leitura, ao inserir a dramática história de Jó
insere também a nossa epopeia humana em contraste com a dele, evidenciando que,
ao falar do meio de uma tempestade, Deus dá uma pungente afirmação: “Aqui
cessa a arrogância de tuas ondas” cujo objetivo é duplo: advertir e
recordar ao mesmo que nos prepara para a temática do Evangelho.
Este, permanece na mesma esteira ao mostrar quem é o
verdadeiro Senhor de todas as forças, inclusive daquilo que aos olhos humanos é
incontrolável: o Mar. O próprio Jesus Cristo, que por meio de sua autoridade
faz com que ventos e mar se calem instantaneamente, suscitando aquilo que a
plástica certeza e convicção dos discípulos mediante uma aparente arrogância
estava escondendo: a sua falta de Fé, pois “Quem é este a quem até o vento e
o mar obedecem?”.
A Segunda Leitura, como que apegando-se à temática
suplicante do Salmo de hoje insere o caminho alternativo a configurar e tecer
essa Fé que brota no coração, que é a permanência próxima à Jesus Cristo, pois “se
alguém está em Cristo, é uma criatura nova. O mundo velho desapareceu. Tudo
agora é novo”.
Portanto, a experiência de Jó e a dos discípulos na
barca estão intimamente unidas ao ponto que ambas se unem a nossa, pois é
estranho que Jesus os censure por falta de fé, justamente quando se dirigem a
ele cheios de confiança. Isto leva-nos a pensar, por meio da plasticidade do
mar e da tempestade, até que ponto a confiança, a certeza e a “Fé” enraizadas
em nossa arrogância tem nos levado? Em que mares estamos navegando? Para que
estamos acordando Jesus: interpelá-lo e questioná-lo impondo-o condições ou
então para realmente pedir a sua ajuda?
Para responder à essas perguntas, é
necessário partir do começo, e ele se encontra na dramaturgia de Jó. O início
da narrativa bíblica nos apresenta o seguinte: “O Senhor respondeu a Jó, do
meio da tempestade, e disse: Quem fechou o mar com portas...” e por fim,
o próprio Deus afirma e pergunta: “Até aqui chegarás, e não além; aqui cessa
a arrogância de tuas ondas?”. Aqui nós temos três elementos importantes: o
primeiro deles consiste a partir de que local e contexto Deus fala a Jó. O
Segundo é de quem Deus fala ao se dirigir a Jó e o terceiro, no papel que a
Liturgia da Igreja confere diante da afirmação e da pergunta de Deus. Esses
três pontos constituem a coluna vertebral. Pois bem, com a resposta de Deus o
seu silencio é rompido, afinal, veio a manifestação divina pela qual Jó tanto
pleiteara. Por muito tempo as orações de Jó ficaram sem resposta, e Deus
parecia indiferente, exceto pelo fato que continuava a massacrá-lo com dores. O
poder divino, contudo, apareceu em meio a um redemoinho. No hebraico, essa
palavra é searah que quer dizer “tempestade acompanhada por ventos
fortes”. Ironicamente, através de uma dessas tempestades é que os filhos de Jó
foram mortos. Um novo temporal foi assim assinalado como o começo de um novo
dia. A dor seria revertida, mas não antes de Jó ter sido humilhado por uma
ofuscante exibição do poder e da sabedoria divina: a tempestade se dissiparia
por sua própria fúria e a terra inteira seria limpa, assim nós temos a primeira
resposta: Deus fala com Jó por meio de uma tempestade, de uma searah e
assim o faz por meio daquilo que tanta dor, sofrimento e angústia Jó fora
submetido: a perda de seus filhos, ou seja, Deus utiliza da dor de Jó para se
comunicar com ele, entra em seu coração por meio da ferida que lhe fora aberta!
Ao fazer isso, Deus fala à Jó como ele dominou, controlou e impôs limites
as águas do Mar, mostrando que ele é o Senhor de todas as coisas e que estas
devem estar submetidas à Ele, dando assim a resposta para o segundo ponto e já
inserindo o terceiro, pois a liturgia se apropria da pergunta de Deus ao Mar e
a insere como uma afirmação: aqui cessa a arrogância de tuas ondas. Mas
este mar, seria apenas o mar geográfico ou poderia expressar outro aspecto mais
profundo? Parto do pressuposto que ele expressa algo mais profundo, do qual o
Evangelho ajuda e muito a compreender.
Diante do Mar da Galileia, enquanto
Jesus dormia uma forte e suntuosa tempestade se formou, de modo que o barco
estava quase, ou melhor, aparentemente sendo submergido pelas águas: não é atoa
que o desespero e o medo levaram os discípulos a fazer o que o evangelista
expressou dizendo: “Os discípulos o acordaram e disseram: 'Mestre, estamos
perecendo e tu não te importas?” Os discípulos acordam Jesus, mas não para
pedir ajuda, mas para repreendê-lo por estar dormindo! Ao invés de acordar para
ouvir, acordam para repreender. Mal sabiam aqueles homens que na verdade, quem
um dia dormiu em momento de vigília não estava sendo o Cristo naquele momento,
mas seriam eles mesmos que assim o fariam enquanto Jesus estaria orando ao Pai
no Monte das Oliveiras: o Cristo que parece não se importar com os homens, na
realidade, é quem cuida supremamente do destino deles, pois “Ele se levantou e
ordenou ao vento e ao mar: 'Silêncio! Cala-te!' O ventou cessou e houve uma
grande calmaria”. Silêncio! Cala-te! – Σιώπα, πεφίμωσο com estas
palavras ditas por Jesus a agitação do mar converte-se em calmaria
instantaneamente. Sua voz ainda pode ser ouvida por aquele que o escutam:
perceba que o verbo ouvir é muito preciso pois o mar e o vento ouviram a sua
voz, mas os discípulos não, ao ponto de Jesus perguntar a eles: “Por que
sois tão medrosos? Τί δειλοί ἐστε- Ainda
não tendes fé? οὔπω ἔχετε πίστιν” O texto chega a nós como medrosos, mas
Jesus no original utiliza a palavra “covarde”, o “temor covarde” levou os discípulos
a entrarem em pânico sob a pressão, o que mostra que ainda não tinham aprendido
o suficiente sobre o grande Jesus, de modo que esse pânico é fruto do não ouvir
a voz de Jesus pois em sua voz contém toda a substância da intervenção divina
na vida humana e todos nós precisamos e muito dessa intervenção, ela é uma
condição sine qua non para a
nossa vida uma vez que é ela que traz o poder de Deus aos homens e é ela que,
assim como no Genesis tudo cria e tudo renova.
FINALIZAÇÃO
É desse
poder de criação e renovação que Paulo fala na segunda leitura de hoje ao dizer
que “se alguém está em Cristo, é uma criatura nova. O mundo velho desapareceu.
Tudo agora é novo”. Pois estar em Cristo consiste em estar atento a sua voz
a ecoar em nossos ouvidos. É ter a consciência de que somente ela pode acalmar
as tempestades em nossas vidas. É saber reconhecê-la mesmo quando ela se fizer
presente em meio a um furacão, como acontecera com Jó. A Fé que busca confiar
mediante uma retribuição consiste em uma Fé interesseira altamente condenada
por Jesus. Esta é uma Fé imperfeita, da qual somos interpelados a renegá-la com
todas as forças e consciência, pois ela nos cega diante dos feitos do Senhor e
nos faz surdos diante da sua voz ao ponto de arrancar de nós a sensação de
indignação e abandono ao bradar aos céus: “'Mestre, estamos perecendo e tu não te
importas?”
A arrogância mediante o medo dos discípulos
o levou ao mar da Fé imperfeita e da confiança cega, ao ponto de diante da
pungente voz de comando Jesus, estes perguntarem, com medo entre si: “Quem é
este, a quem até o vento e o mar obedecem?”.
E nós, a que mar a “arrogância
de nossas ondas” tem n
os levado?
Sem. José Demétrio de Camargo
2º ano de Teologia.



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