UMA LEITURA TEOLÓGICO-EXEGÉTICA DA SANTÍSSIMA TRINDADE (SOLENIDADE DA SANTÍSSIMA TRINDADE - ANO B)
ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
Com o fim do Tempo Pascal cujo cume
é atingido em Pentecostes, a Igreja prescreve a celebração de mais três
Solenidades: a da Santíssima Trindade, Corpus Christi e a do Sagrado Coração de
Jesus que possuem uma ligação muito importante entre si que acabam por refletir
na Solenidade da Santíssima Trindade, hoje celebrada, uma vez que cada uma
delas elucida uma perspectiva que abrange todo o mistério da Fé Cristã, ou
seja: o Deus Uno e Trino, o Sacramento da Eucaristia e o centro divino-humano
da Pessoa de Cristo. Nas palavras de Joseph Ratzinger: “São aspectos de um único
Mistério da Salvação, que num certo sentido resumem todo o itinerário da
Revelação de Jesus: da Encarnação à Morte e Ressurreição até à Ascensão e ao
dom do Espírito Santo”. Ou seja, quando se chega ao cume da montanha, olha-se o
caminho percorrido para avaliar sua amplidão, contemplando em conjunto o imenso
panorama que antes se admirara em partes. As leituras de hoje constituem de uma
importante ferramenta para fazer essa tarefa, pois da mesma forma que pelo Amor
a Santíssima Trindade é unida, a mesma em si une todo o Mistério da Fé Cristã,
e consequentemente, une nós mesmos à Deus. A Trindade é união: da Fé e a nossa
com Deus.
A Primeira Leitura sintetiza a
impactante experiência de Deus operada no Povo de Israel no Egito, de modo que
este percebe-se escolhido pelo próprio Deus e sobretudo no Monte Sinai ao ouvir
a voz de Deus e mesmo assim, permanecerem vivos. Não resta, portanto, dúvidas
de que Deus está com seu povo pois “O Senhor é o Deus lá em cima no céu e cá
embaixo na terra, e não há outro além dele”. Temos aqui os atributos que
indicam Deus-Pai.
Na segunda Leitura, como que
conhecendo e partindo da afirmação que Deus-Pai é o doador da vida, Paulo a
complementa dizendo que Deus assim o faz mediante a ação do Espírito Santo do
qual, ao nos unir vitalmente a Deus, nos torna seus filhos, pois “Recebestes
um espírito de filhos, no qual todos nós clamamos: Abá - ó Pai!”. Ao
aprimorar a afirmação presente na 1ª leitura, Paulo nos dá o segundo atributo
indicativo da terceira pessoa da Santíssima Trindade: o Espírito Santo.
O Evangelho, por sua vez, contém
a centralidade da liturgia de hoje ao trazer o contexto do senhorio de Cristo
do qual, numa aparição na Galileia, Jesus transmite seus poderes aos Apóstolos
que deverão continuar sua obra, pois “Toda a autoridade me foi dada no céu e
sobre a terra. Portanto, batizai-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito
Santo”. Por meio da autoridade divina em Cristo, Mateus apresenta o
terceiro atributo da Trindade, indicando sua segunda pessoa: o Filho.
É nítido, portanto a presença da
Trindade nas leituras de hoje, contudo, o próprio dogma prescreve a união entre
as três pessoas, da qual não será minha preocupação aqui, mas sim a de
aprofundar, exegeticamente tão augusto mistério, podendo perceber os efeitos
daquilo que mantém esta comunidade da qual chamamos de Trindade unida.
Pois bem, existe uma ordem de
realidade que é conhecida pelo gênero humano, da qual já mencionávamos em
Pentecostes e que aqui será retomada, mas sobre o crivo do Amor, pois ordem e
Amor estão intimamente relacionados uma vez que Cristo revelou-nos que Deus é
amor - Θεὸς ἀγάπη
ἐστίν – “não na unidade de uma única pessoa, mas na Trindade de uma só
substância” como nos recorda o Prefácio desta solenidade: é Criador e Pai
misericordioso; é Filho unigênito, eterna Sabedoria encarnada, morto e
ressuscitado por nós, é finalmente Espírito Santo que tudo move: o cosmos e a
história rumo à completude final, ou seja, as três pessoas que são um único
Deus porque o Pai é Amor, o Filho é Amor e o Espírito é Amor: puríssimo,
infinito e eterno, que não vive numa solidão maravilhosa, mas é sobretudo,
fonte inesgotável de vida. Neste sentido compreendemos a 1ª leitura ao dizer
por meio de duas pungentes perguntas: “Existe, porventura, algum povo que
tenha ouvido a voz de Deus falando-lhe do meio do fogo, como tu ouviste, e
tenha permanecido vivo? Ou terá jamais algum Deus vindo escolher para si um
povo entre as nações, por meio de provações, de sinais e prodígios, por meio de
combates, com mão forte e braço estendido, e por meio de grandes terrores, como
tudo o que por ti o Senhor vosso Deus fez no Egito, diante de teus próprios
olhos?”. Eles ouviram a voz de Deus, portanto é um Deus que se comunica
diretamente com seu povo e este não morre, permanece incólume diante do divino
e como se não bastasse, esse deus elege um povo, escolhe e toma para si uma
parcela da humanidade, Deus escuta, elege, se comunica e age! De fato, mesmo
que se investigue não será possível encontrar um acontecimento tão grande como
este ao ponto de não restar outra coisa a não ser nos rendermos diante do
próprio Deus, reconhecendo “que o Senhor é o Deus lá em cima do céu e cá
embaixo na terra, e que não há outro além dele”. Diante do Amor, não resta
outra coisa a não ser render-se pois o homem é atraído pelo Belo, ainda mais o
será pelo Sumo-bem, a fonte de toda beleza.[1]
Por
isso que “Todos aqueles que se deixam conduzir pelo Espírito de Deus são
filhos de Deus”. Se deixam conduzir - ἄγονται[2]
– não de maneira forçosa ou obrigatória, mas de vontade deliberada e consciente
pois não há espaço para a dúvida diante da certeza: a primeira esvanece-se pois
“vós não recebestes um espírito de escravos, para recairdes no medo, mas
recebestes um espírito de filhos adotivos, no qual todos nós clamamos: Abá - ó
Pai!”. Foi-nos dado um gérmen de vida nova, divina, que se há de fazer
crescer até a realização definitiva na glória celeste, tornando-nos membros da
Igreja, a família de Deus ou então, na expressão de Santo Ambrósio: “Sacrarium
Trinitatis”.
Porém, este gérmen de vida, assim como
a nós fomos passados pela ação do Espírito, pelo mesmo Espírito deve ser
passado aos outros, uma vez que “Toda a autoridade - ἐξουσία[3]
- me foi dada no céu e sobre a terra. Portanto, batizai-os em nome do Pai e do
Filho e do Espírito Santo”. É mediante o batismo que a nossa ligação com
Deus é estreitada pois não se trata apenas de uma ação em nome de alguém mas é
uma ação que, pela autoridade, pela ἐξουσία de Cristo infunde a nossa
pobre e frágil natureza na própria natureza de Deus, ou seja: ao nos
configurarmos com Cristo nos tornamos participante e integrantes da Santíssima
Trindade de modo que todos os seres são ordenados segundo um dinamismo
harmonioso que ,analogicamente podemos definir como: Amor. Mas é somente na
pessoa humana, livre e racional que este dinamismo se torna espiritual e se faz
amor responsável, como resposta a Deus e ao próximo, num dom sincero de si.
É neste Amor
que o ser humano encontra a sua verdade e a sua felicidade. É preciso ter a
coragem e a ousadia necessária de suplicar, verdadeiramente ao ponto de fazer
presente a oração do dia expressa na liturgia de hoje: “ó Deus, nosso Pai,
enviando ao mundo a Palavra da Verdade e o Espírito santificador, revelastes o
vosso inefável mistério”. É desta Palavra da Verdade e desse Espírito
Santificador que o vers. 6 do Salmo de hoje ilustrará expressando toda a
centralidade e o efeito da Trindade ao dizer: “A palavra do Senhor criou os
céus, e o sopro de seus lábios, as estrelas”. A Palavra do Senhor, no
original hebraico: “Bidvar Adonai” que chega à Septuaginta como "τῷ
λόγῳ τοῦ κυρίου" expressa a ação criadora de Deus mediante o universo, o
cosmos, cuja realização é operada pelo “sopro de seus lábios”, a “uverúach
piv”o “"πνεύματι τοῦ στόματος" que age mediante a força, a “ἡ
δύναμις αὐτῶν" que dele mesmo é emanada. Nisto compreendemos Champlin[4] ao
dizer que as obras de Deus procedem de suas palavras com ênfase ao respeito,
referenciando o ato criativo original em Gn 1.6-18, onde temos, detalhadamente,
o processo de “falar e trazer à existência”: Ele ordenou e o amor preencheu,
enobreceu, redimiu e restaurou todas as coisas: a criação é um ato de benevolência
de Deus da qual é operada mediante a ação do sopro de sua boca - πνεύματι
τοῦ στόματος ἡ δύναμις αὐτῶν, uma vez que pode ser uma alusão ao Espírito
de Deus, a força criadora, visto que o vocábulo hebraico significa tanto “sopro”
quanto “espírito”: o sopro da boca de Deus foi o suficiente para fazer tudo, em
contraste com os esforços laboriosos que produzem tão pouco.
É desta Palavra que precisamos, que parte
da autoridade de Jesus da qual mediante o batismo somos a ele configurados e
pela força e ação do Espírito Santo, somos santificados nele. Que a Palavra da
Verdade e a ação criadora do Espírito Santificador nos revista e nos faça,
assim, participantes do Amor trinitário.
[1] A
este respeito, São Tomas de Aquino desenvolve com maior profundidade em sua
obra: A Suma de teologia, I, q.39, a.8 ao expressar que a beleza requer
integridade ou perfeição, devida proporção ou harmonia, e clareza atrelando
esses aspectos à figura de Deus-Filho
[2] Influenciar
outros de tal forma que sigam um procedimento recomendado – guiar, dirigir,
liderar, conduzir. Em algumas línguas, é difícil de fazer clara distinção entre
expressões para “reger” ou “governar”, mas é importante tentar distinguir entre
esses dois tipos diferentes de relacionamentos interpessoais. Em algumas
línguas, o conceito de liderar pode ser expresso através de “mostrar como” ou “mostrar
como se deveria”.
[3] Alguém
que possui autoridade de governar.
[4] CHAMPLIN, Russel Norman. O Antigo
Testamento interpretado: versículo por versículo: Volume 4: Salmos, Provérbios,
Eclesiastes e Cantares. Hagnos Editora: São Paulo - 2014.


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