O ESPÍRITO SANTO COMO PRINCÍPIO DE ORDENAMENTO DO HOMEM (SOLENIDADE DE PENTECOSTES - ANO B)
ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
A Igreja em seu ofício divino de ensinar nos propõe a Solenidade de Pentecostes como objeto de nossa meditação e com essa terminologia nos indica que deve ser celebrada com grande comemoração, de maneira vibrante, intensa e solene dado o grande acontecimento que a incorpora, afinal, a descida do Espírito Santo não poderia ter um espaço diferente deste. Por isso as quatro últimas reflexões do Tempo Pascal se dedicaram a nos preparar para o momento que hoje está sendo vivido, de modo que a Liturgia da Ascensão lançou os alicerces para Pentecostes: nela percebíamos que com a Ascensão o senhorio de Jesus é validado mediante a ação do Espírito Santo. Hoje Paulo nos diz o porquê pois: “Ninguém pode dizer: Jesus é o Senhor a não ser no Espírito Santo”. Pois essa afirmação necessita de unidade e de ordem, consigo e com Deus. Aqui já percebemos a importância do Espírito divino.
ESTRUTURA PANORÂMICA.
A Primeira Leitura contém a
centralidade do relato de Pentecostes evidenciando o momento que o Santo
Espírito desce como que por línguas de fogo, das quais possibilita que todos,
independentes de suas diferenças culturais e regionais, entendam-se mutuamente,
pois “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar em outras
línguas, conforme o Espírito os inspirava”. Nas palavras de Ratzinger, “A
Igreja já nasceu Universal, nasceu Católica”.
A Segunda Leitura, por meio de Paulo
deixa essa afirmação ainda mais evidente por meio da teologia paulina acerca de
Cristo cabeça, que age por meio do Espírito Santo. Assim “Todos nós, judeus
ou gregos, escravos ou livres, fomos batizados num único Espírito, para
formarmos um único corpo, e todos nós bebemos de um único Espírito”.
O Evangelho, por sua vez,
insere a consequência da ação unificadora do Espírito ao ponto que tendo sido
renovados e restituídos por ele, pelo “Sopro da vida que toda a face renova”
somos chamados a levar esse mesmo Espírito, pois como disse Jesus: “Assim como
o Pai me enviou também eu vos envio: Recebei o Espírito Santo!”.
É nítido, portanto, que todo esse
percurso, seja do nascimento da Igreja até seu desenvolvimento, só foi possível
e se fará presente mediante a ação unificadora do Espírito Santo, capaz de
aglutinar as diferenças, independentes de quais sejam. E como estamos sedentos
dessa unificação! E para este diagnóstico utilizaremos da “Alegoria das
línguas”: as da Torre de Babel e as de Fogo.
Pois bem, existe uma ordem de
realidade que é conhecida pelo gênero humano, perceptível não somente nas
produções literárias, mas também nos símbolos pré-históricos na arqueologia.
Utilizando de Voegelin, podemos conceber a ordem como “a estrutura da
realidade como experienciada pelo homem, bem como a sintonia entre o homem e
uma ordem não fabricada por ele, isto é, a ordem cósmica” Esta sintonia
entre o homem e mundo cósmico – e aqui podemos concebe-lo como mundo divino sem
prejuízo algum – é essencial, pois é por meio dela que o homem encontrará
também a sintonia consigo mesmo, pois, do contrário, percebemos um dos mais
gritantes exemplos da desordem que tem tomado conta da sociedade atual sob a
espécie de um ceticismo radical em relação à ordem cósmica que conduz à um
reducionismo desta ao âmbito do
indivíduo do qual, é evidente que não poderá ser encontrada. O que se encontra
é um estado extremo de alienação que ao se perceber preso nisto, o homem acaba
que por encarar a morte como libertação dessa prisão. Não é à toa que o número
de suicídio, principalmente entre jovens, tem crescido largamente nos últimos
dias, uma vez que ela – a alienação – é um estado de retirada do próprio eu, o
qual se constitui pela tensão entre o homem e o plano divino da existência, ou
seja, quando não há a correspondência entre o ser humano e a ordem cósmica
presente neste mundo cuja fonte é o Logos Eterno - o próprio Deus - o homem
incorre em alienação e desfruta dos prejuízos dela, vivendo em um círculo
vicioso cuja libertação é extremamente difícil uma vez que pelo uso da razão, a
mesma se esvai, e por meio dela, se vive um círculo vicioso de aprisionamento,
que no início era pregado pela liberdade do homem. Percebam: a rejeição de Deus
é o resultado da rejeição da razão divina através da revolta egofânica do homem,
que, por sua vez é o mais claro e gritante indício da desordem social e cósmica
que estamos inseridos
É impossível não lembrar do ocorrido
na Torre de Babel, pois é lá que a “alegoria das línguas” aparece pela primeira
vez, “quando os homens, decididos a construir com suas próprias mãos um
caminho para o céu, tinham acabado por destruir a sua capacidade de se
compreenderem reciprocamente” (Joseph Ratzinger). É nítido em nossos dias a
multiplicidade de informações, ideologias e conceitos que, ao se revestirem das
múltiplas formas do homem, conduzem a uma verdadeira e profunda confusão do
qual por meio da “compreensão do outro” tem-se a confusão e a assimetria
interna. Da união das diferenças se prega a divisão e confronto das massas:
todos falam, discutem e debatem, mas ninguém se entende. As múltiplas “línguas”
dos homens não o conduzem a outro lugar a não ser a confusão e assimetria: a
sociedade atual é a Torre de Babel do séc. XXI que a revolta egofânica do homem
construiu. Com esta comparação, não quero estabelecer um saudosismo à épocas
passadas, mas diagnosticar que, assim como ocorrera naqueles tempos e agora
ocorre, toda vez que o homem escolhe trilhar seu caminho tendo como norte
somente a si mesmo e seus próprios passos mediante uma autossuficiência
esquizofrênica, distancia-se de Deus, distancia-se da Verdade, distancia-se de
si mesmo.
Mas, existe uma caminho para
solucionar isso? Sim, mas a solução, portanto, não é o retorno ao passado, mas
sim a vinda daquilo que é realmente perene: o Espírito Santo. Aqui nós temos a
segunda faceta da “alegoria das línguas”, não mais a dos homens, como em Babel,
mas a do fogo em Pentecostes, pois “apareceram línguas como de fogo que se
repartiram e pousaram sobre cada um deles”. A 1ª leitura usa a figura do fogo e do vento
para expressar o Espírito Santo, mas a ação deste fogo é diferente, pois a
chama do Espírito Santo arde, mas não queima, contudo, deve consumir, queimar
algo de muito profundo no homem: as escolhas que o corrompem e obstaculizam
suas relações com Deus e com o próximo. Essa chama deve consumir essa revolta
interior e restabelecer, novamente, a ordem desejada por Deus. Porém, esse
efeito do fogo divino nos assusta e nos espanta, assim como aquelas pessoas em
Jerusalém, ao ouvirem o barulho e o compreenderem, o assustaram, pois temos
medo, o mesmo medo dos apóstolos no Evangelho de hoje, mas ao contrário deles
que tinham “medo dos judeus” nós, muitas vezes, temos medo que esse fogo divino
nos queime e preferimos, portanto, permanecer como somos, ancorando-nos muitas
vezes, com nossos erros, pecados e limitações na misericórdia divina.
FINALIZAÇÃO
É preciso
ter a coragem de suplicar: “Vem Espírito Santo e acendeis em nós o fogo do
vosso amor!”, deixar de repetir meras palavras e traze-las verdadeiramente
para nossa vida, pois esta é uma oração audaz, com a qual pedimos ser tocados
pela chama de Deus, pelo Espírito Santo uma vez que esta chama – e somente ela
– tem o poder de nos salvar, pois: “Soprou sobre eles e disse: 'Recebei o
Espírito Santo - Λάβετε Πνεῦμα
Ἅγιον -. A quem perdoardes os pecados, eles lhes serão perdoados; a quem
os não perdoardes, eles lhes serão retidos”. Necessitamos do fogo do
Espírito Santo, pois só o amor nos redime, e somente por meio dele, a ordem
poderá ser restabelecida. É este o mistério de Pentecostes: O Espírito Santo
ilumina o homem ao revelar Cristo crucificado e Ressuscitado indicando assim o
caminho para se tornar mais semelhante a Ele e ser “expressão e instrumento
do Amor que dele promana” (Deus caritas est, 33). Abramos as portas do
nosso coração para acolher esse fogo abrasador, permitindo que ele consuma
nosso medo e confusão, restituindo a Paz que emana do Cristo.
Sem. José Demétrio de Camargo (2º ano de Teologia)


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