ESCRAVO DE SI MESMO? - XXIII DOMINGO DO TEMPO COMUM - ANO C
ESBOÇO:
- ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
Libertas!
-DESENVOLVIMENTO EXEGÉTICO-TEOLÓGICO
a superação da
escravatura por meio da koinonia
- HERMENÊUTICA
A
transformação do homem carnal (anthropos sarkinoi) para o homem racional
(psychikos anthropos)
-FINALIZAÇÃO
Não
mais as correntes, mas nós mesmos que nos prendemos!
ASPECTOS INTRODUTÓRIOS – LIBERTAS!
"A prova de que sois filhos é que
Deus enviou aos vossos corações o Espírito de seu Filho, que clama: “Aba,
Pai!’’, já não és escravo, mas filho. E, se és filho, então também herdeiro por
Deus." Gl 7,4
A
liturgia deste domingo convida-nos a tomar consciência de quanto é exigente o
caminho do “Reino”: optar pelo “Reino” não é escolher um caminho de facilidade,
mas sim aceitar percorrer um caminho de renúncia e de dom da vida. É,
sobretudo, o Evangelho que traça as coordenadas do “caminho do discípulo”: é um
caminho em que o “Reino” deve ter a primazia sobre as pessoas que amamos, sobre
os nossos bens, sobre os nossos próprios interesses e esquemas pessoais. Quem
tomar contato com esta proposta tem de pensar seriamente se a quer acolher, se
tem forças para a acolher… Jesus não admite meios-termos: ou se aceita o
“Reino” e se embarca nessa aventura a tempo inteiro e “a fundo perdido”, ou não
vale a pena começar algo que não vai levar a lado nenhum.
Contudo,
de pouco nos adiantaria meditar uma vez mais acerca do seguimento de Cristo,
por mais que essa seja a temática primeira: antes, se faz necessário refletir
sobre o elemento extremamente necessário para assumir esse chamamento ou até
mesmo, cogitar sua possibilidade, pois é necessário o exercício de liberdade
por Cristo conquistado ao homem. Esse é o nosso intento nesse caminho
alternativo: refletir se nos reconhecemos, realmente, livres!
DESENVOLVIMENTO
EXEGÉTICO-TEOLÓGICO – A SUPERAÇÃO DA ESCRAVATURA POR MEIO DA KOINONIA
“Se ele te foi retirado por algum
tempo, talvez seja para que o tenhas de volta para sempre, já não como escravo,
mas, muito mais do que isso, como um irmão querido, muitíssimo querido para mim
quanto mais ele o for para ti, tanto como pessoa humana quanto como irmão no
Senhor. Assim, se estás em comunhão de fé comigo, recebe-o como se fosse a mim
mesmo”.
A
Carta a Filêmon é a mais breve e pessoal das cartas de Paulo. É endereçada a um
tal Filêmon, aparentemente um membro destacado da Igreja de Colossos. A partir
dos dados da carta, podemos reconstruir as circunstâncias em que o texto
aparece. Onésimo, escravo de Filêmon, fugiu de casa do seu senhor. Encontrou
Paulo, ligou-se a ele e tornou-se cristão. Paulo, que nessa altura estava na
prisão (em Éfeso? Em Roma?), fê-lo seu colaborador e manteve-o junto de si. No
entanto, a situação podia tornar-se delicada se Filêmon se ofendesse com Paulo;
e, do ponto de vista legal, ao dar guarida a um escravo fugitivo, Paulo era
cúmplice de uma grave infracção ao direito privado. Enfim, Onésimo corria o
risco de ser preso, devolvido ao seu senhor e severamente castigado.
É
neste contexto que Paulo resolve enviar Onésimo a Filêmon. Onésimo leva consigo
uma carta, em que Paulo explica a Filêmon a situação e intercede pelo escravo
fugitivo. Com extrema delicadeza, Paulo insinua a Filêmon que, sendo possível,
lhe devolva Onésimo, já que este lhe vem sendo de grande utilidade; no entanto,
Paulo pede, sugere, mas sem impor nada e deixando a decisão nas mãos de Filêmon.
É um texto belíssimo, carregado de sentimentos, “verdadeira obra-prima de tato
e de coração”.
O
que está em causa neste texto é muito mais do que um problema privado, embora
com alcance social; é, sobretudo, um problema eclesial (embora com implicações
sociais), e que deve ser resolvido a partir desse valor supremo da ética cristã
que é o amor.
Para
Paulo, o amor deverá ser a suprema e insubstituível norma que dirige e
condiciona as palavras, os comportamentos, as decisões dos crentes. Ora, o amor
tem consequências bem práticas, que os membros da comunidade cristã não podem
olvidar: implica o ver em cada homem um irmão – independentemente da sua raça,
da sua cor, ou do seu estatuto social. Vistas as coisas nesta perspectiva, não
é de estranhar que Paulo solicite a Filêmon que receba Onésimo não como o que
era antes (um escravo), mas sim como é agora – um irmão em Cristo. Se Filêmon
é, de facto, cristão, é essa a atitude que deve assumir para com Onésimo.
O
problema da escravatura deve ter-se posto, desde muito cedo, à comunidade
eclesial. Mas os cristãos cedo perceberam que a solução não estava na violência
ou na revolta, mas no levar até às últimas consequências a fraternidade que une
todos os homens e que resulta do facto de todos serem “filhos de Deus” e irmãos
em Cristo. A violência, quando muito, serviria para substituir uns escravos por
outros, sem alterar a situação; só o amor poderia mudar o coração dos homens,
de forma a acabar com a exploração do homem pelo outro homem. A conversão ao
amor – exigência fundamental para integrar a comunidade eclesial – exige o
reconhecimento da igualdade fundamental de todos os homens (“sem distinção
entre judeu ou grego, entre escravo ou homem livre, entre homem ou mulher,
porque todos são um só em Cristo Jesus”, dirá Paulo – Gal 3,28). A partir do
amor, o “dono” do escravo descobre a igualdade profunda de todos os homens,
filhos do mesmo Deus e irmãos em Cristo; a partir do amor, o escravo descobre a
afirmação clara da sua dignidade de homem. É esta a questão fundamental que o
texto nos apresenta.
Por
fim, tal epístola nos mostra algo que é o mais extremado da carta: que a
escravidão rouba a dignidade do homem pois juntamente com ela, a mesma retira a
identidade desse homem. Na Carta a Filêmon, alguns versículos antes, Paulo faz
um trocadilho com o nome de Onésimo, que em grego quer dizer: “útil” dizendo
que agora que Onésimo será útil, mas, qual o motivo e a profundidade disso?
Pois bem, é que como escravo, à Filêmon a utilidade de Onésimo se dava mediante
o exercício da sua escravidão, contudo, Paulo quer mostrar que na realidade
aquele nunca fora Onésimo, pois na condição de escravo, ele não podia ser
realmente quem ele era: a escravidão o tirou sua identidade, e assim, mesmo
aparentemente útil por cumprir suas funções, na verdade, Onésimo era inútil,
pois apenas agora apartir de sua conversão e batismo em Cristo que ele seria verdadeiramente
útil, pois o Batismo reporia e o daria de volta sua dignidade e identidade.
Essa afirmação deve ficar cravada em nós: a escravidão nos rouba a nossa
identidade!
HERMENÊUTICA - A
TRANSFORMAÇÃO DO HOMEM CARNAL (ANTHROPOS SARKINOI) PARA O HOMEM RACIONAL
(PSYCHIKOS ANTHROPOS)
"Se
alguém vem a mim, mas não se desapega de seu pai e sua mãe, sua mulher e seus
filhos, seus irmãos e suas irmãs e até da sua própria vida, não pode ser meu
discípulo. Quem não carrega sua cruz e não caminha atrás de mim, não pode ser
meu discípulo”.
A
esse respeito, chegamos ao cerne do Evangelho e com ele a imersão do
questionamento: por que Jesus pede para odiarmos, ou seja, ter aversão ou
separação à personagens tão significativos de nossa vida? Pois bem, por detrás
desse paradoxo, é importante mudar um pouco a pergunta: o que está por detrás disso?
Desses personagens e da nossa aversão a eles? Para tanto, utilizaremos de uma
linguagem própria da antropologia paulina que, ao utilizar o termo anthropos
sarkinoi assim o faz referindo-se ao homem carnal, ou seja, aquela
criatura humana que age movida somente por seus impulsos carnais e aqui não
devemos cair na tentação que são apenas aqueles de inclinação sexual, mas sim
todos aqueles atos que ao nos desviarem, também desviam a nossa conduta moral.
Na mesma esteira, o Aquinate utiliza o termo de seres bestiais ao designar
esses homens do qual o Catecismo faz uma bela síntese entre ambas visões
teológicas, ficando necessário reter em nosso conhecimento o seguinte: o
homem, sem Deus, sem a sua graça capaz a iluminar o nosso entendimento,
desfigura a sua própria natureza, perde-se de si mesmo, distancia-se do ser
próprio do homem que é ser humano e aproxima-se das bestas, das feras e dos
animais.
Contrapondo
a isso, Paulo elenca mais dois tipos de homem: o psychikos anthropos
– o homem racional e o anthropos pneumatikós – o homem espiritual
ou integral, que para o autor, será o modelo que todos nós devemos ansiar pois
pela inabitação da Trindade, o mesmo Espírito de Deus habita em nós e nos
santifica e transmuta para essa terceira classificação de ser humano, que
dotado da verdadeira liberdade cristã e pleno de seus mecanismos racionais
pode, portanto, responder ao seguimento de Cristo que o Evangelho apresenta, o
homem capaz de deixar tudo, e literal e realmente tudo, enfatizando a metodologia
de Cristo: que na verdade, o alicerce pronto e ideal, é aquele terreno que
não possui nada, pois tudo que o preenchia e prendia, foi retirado.
CONCLUSÃO – NÃO
MAIS AS CORRENTES, MAS NÓS MESMOS QUE NOS PRENDEMOS!
Certa vez disse, Massimo
Bontempelli : “A verdadeira liberdade é um ato puramente interior, como a
verdadeira solidão: devemos aprender a sentir-nos livres até num cárcere, e a
estar sozinhos até no meio da multidão”.
Não se faz necessário
uma sociologia muito apurada para percebermos o retrato da sociedade atual:
somos muito mais anthropos sarkinoi do que anthropos
pneumatikós, pois assim nos distanciamos na doce ilusão secular que estávamos,
na verdade, construindo um psychikos anthropos. Doce ilusão:
estamos caminhando para o abismo da ignorância e sob o pesado fardo da falsa
liberdade cuja filha é e sempre será a libertinagem, aproximamos das bestas e
nos tornamos cada vez mais incapazes de responder com dignidade o chamado do
Senhor. Antes de deixar tudo e seguir a Cristo é necessário olharmos para os
nossos pés e mãos para vermos se não estamos acorrentados, pois dificilmente
daremos o passo necessário para chegar até a Cruz e se assim ainda o fizermos,
por teimosia, com certeza tais correntes não nos deixarão abraçar a Cruz.
Assim
sendo, vale-nos responder a pergunta: será que realmente estamos livres ou nos
tornamos escravos de si mesmo? Pois tais correntes podem muito bem ter sido
colocadas por nós mesmos e por mais absurdo que seja, só nós podemos pegar a
chave e nos livrarmos dela: ela está bem diante de nós, basta pegarmos, mas
para isso é necessário agir com liberdade, pois “do mesmo modo, portanto,
qualquer um de vós, se não renunciar a tudo o que tem, não pode ser meu
discípulo!"
Seminarista
da Arquidiocese de Sorocaba

Comentários
Postar um comentário