O ALTRUÍSMO COMO VIA DO AMOR: AS 7 RAZÕES E FORMAS DE COMO AMAR OS INIMIGOS E DEIXAR AS MÁGOAS PARA TRÁS - VII D.T.C. ANO C

 

ESBOÇO:

- ASPECTOS INTRODUTÓRIOS

O choque entre a mentalidade da antiguidade e a de Nosso Senhor

- DESENVOLVIMENTO EXEGÉTICO-TEOLÓGICO

Deus ama quem dá com alegria: a regra da perfeição

- ATUALIZAÇÃO:

O Altruísmo como via do amor: as 7 razões e formas de como amar os inimigos e deixar as mágoas para trás.

- CONCLUSÃO COM ILUSTRAÇÃO

O Amor a Deus e ao próximo deve refletir-se em todos os atos da vida

 

 

ASPECTOS INTRODUTÓRIOS
O CHOQUE ENTRE A MENTALIDADE DA ANTIGUIDADE E A DE NOSSO SENHOR

  

“Em face aos conceitos egoístas de amor e de justiça imperantes no mundo antigo, Nosso Senhor ensina que a verdadeira alegria está no dar-se completamente aos outros, seguindo seu divino exemplo”. Monsenhor Clá Dias 

 

Pela Lógica Aristotélica podemos afirmar que toda proposição afirmativa possui uma negação, ou seja, se um sujeito ao se expressar diz: “Amai os vossos inimigos e fazei o bem aos que vos odeiam, bendizei os que vos amaldiçoam, e rezai por aqueles que vos caluniam. Se alguém te der uma bofetada numa face, oferece também a outra. Se alguém te tomar o manto, deixa-o levar também a túnica. Dá a quem te pedir e, se alguém tirar o que é teu, não peças que o devolva. O que vós desejais que os outros vos façam, fazei-o também vós a eles”, logo, podemos concluir que aos que a mensagem fora destinada realizavam a total negação dessas recomendações, ou seja, se Cristo pede para que amem os inimigos e façam o bem aos que odeiam é porque na verdade aquele povo  amava somente aqueles que os amavam.

Efetivamente, a antiguidade vivia numa verdadeira barbárie. Percorrendo a história das civilizações que precederam a vinda de Nosso Senhor Jesus Cristo, encontramos registrados os costumes mais escabrosos, as leis mais absurdas e a ausência quase total de moralidade. Depois de séculos transcorridos nessa clave, Cristo Jesus foi recebido por um povo cujo conceito de caridade estava completamente distorcido: para Israel, seguro de sua superioridade inerente à eleição divina e às próprias qualidades. O amor só devia ser prodigializado aos da mesma raça, sendo as demais nações merecedoras de desprezo e de até eterna condenação, pelo simples fato de não serem da descendência de Abraão

 

Certa vez, disse Bonsirven: “A cada dia, o judeu piedoso deve agradecer a Deus por não tê-lo feito goy (estrangeiro). Este orgulho de raça inspirava sentimentos e atitudes de ódio e desprezo, separação”.

 

Dessa forma, o exegeta nos mostra que, inclusive entre os da nação eleita, a estima só se manifestava reciprocamente dependendo das obras praticadas: quem realizava uma obra boa, era digno dela; se, pelo contrário, fosse réu de alguma culpa, deveria ser detestado e sobre ele viria seu castigo. Os apóstatas, por exemplo, são considerados como estrangeiros e inimigos , são amaldiçoados três vezes ao dia nas orações oficiais, todas as relações com eles são proibidas.

Assim sendo, não é difícil compreender como falar em misericórdia, bondade, mansidão e humildade era algo inusual em tal ambiente, causando impacto e incompreensão, ao ponto de o próprio pregador da Casa Pontifícia, o Cardeal Raniero Cantalamessa  comentar:

 

“É impossível pensar numa moral mais exigente do que esta; ao confrontar-nos com ela, ficamos aterrorizados e desanimados, chegando a exclamar – como fizeram os apóstolos em outra oportunidade - : “se é assim, quem afinal poderá se salvar? (Cf. Lc 18,26)”.

 

            Praticamente, impelidos com o mesmo espanto e imersos na mesma, se não numa sociedade mais caótica que a do tempo de Jesus, tentar-se-á responder à essa pergunta: “Se é assim, quem afinal poderá se salvar?”; condizendo-nos, inevitavelmente, ao caminho de Cristo.

 

DESENVOLVIMENTO  TEOLÓGICO-EXEGÉTICO
DEUS AMA QUEM DÁ COM ALEGRIA: A REGRA DA PERFEIÇÃO

 

            Assim disse Jesus: “Se amais somente aqueles que vos amam, que recompensa tereis? Até os pecadores amam aqueles que os amam. E se fazeis o bem somente aos que vos fazem o bem, que recompensa tereis? Até os pecadores fazem assim. E se emprestais somente àqueles de quem esperais receber, que recompensa tereis? Até os pecadores emprestam aos pecadores, para receber de volta a mesma quantia. Ao contrário, amai os vossos inimigos, fazei o bem e emprestai sem esperar coisa alguma em troca. Então, a vossa recompensa será grande, e sereis filhos do Altíssimo, porque Deus é bondoso também para com os ingratos e os maus. Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso”.

 

            O impactante discurso do Salvador continua com uma inequívoca alusão à regra de interesses praticada no mundo onde reina o pecado, ou seja, agir por estrito interesse recíproco, ou então, como diziam os latinos: do ut des – dou para que me dês. Matizando seu pensamento e usando de sublime  e persuasiva didática para penetrar no mais íntimo dos corações de seus ouvintes, Jesus deixa de lado o raciocínio humano  e emprega um argumento teológico irrefutável: aos autênticos Filhos de Deus não é permitido imitar a conduta dos pecadores, contentando-se com a lei dos homens terrenos.

 

            Disse Santo Ambrósio: “Se até os pecadores estão de acordo em corresponder ao afeto, aquele cujas convicções são de uma ordem mais elevada deve também inclinar-se mais generosamente à virtude, até chegar amar os que não amam”.

 

            Assim cabe abraçar o modelo que é próprio do Pai, agindo tal qual Ele age e reproduzindo em si as feições do homem celestial, conforme nos ensina São Paulo na segunda leitura de hoje: “E como já refletimos a imagem do homem terrestre, assim também refletiremos a imagem do homem celeste”.

            Nos lábios do Messias, o Amor encontra sua fórmula ideal: não sendo meramente optativa, mas obrigatória. No entanto, devido as nossas más inclinações e à nossa natureza vingativa e tendente ao pecado, esta passagem do Sermão da Montanha nos serviria de condenação se Deus não nos desse um caminho seguro para a salvação eterna: se, ao transpor os umbrais da morte quisermos encontrar um juiz favorável e cheio de benevolência para conosco, é uma conditio sine qua non perdoar nesta vida o que nos ofendem e sermos indulgentes para com eles, como disse Santo Agostinho: “é preciso fazer desaparecer as inimizades para que não causem o desaparecimento, que sejam dominadas, para que não dominem, que sejam eliminadas pelo que redime, para que não eliminem quem as conserva”. Dessa forma, é possível compreender que faz parte desse caminho seguro para a salvação eterna, ter a consciência de qual é a medida do nosso amor: “Sede misericordiosos, como também o vosso Pai é misericordioso”.

            Assim sendo, a medida do nosso Amor é amar como Jesus amou, um Amor que o impelia a perdoar os pecados de todos os que d’Ele se aproximavam. Um Amor que fora capaz de perdoar aquele que Ele mesmo havia escolhido para liderar sua Igreja: São Pedro. Um Amor que fora capaz de perdoar São Paulo e o eleger como um dos doze. Um Amor que, como disse São João: “Tendo amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”, ou seja, até as últimas consequências, até a morte de Cruz, fazendo com que teólogos como Hans Urs von Balthasar percebessem na morte de Deus na Cruz o ápice e a fonte de toda a Fé cristã, ou seja, a Cruz é a expressão máxima da Verdade caracterizada pela bondade e expressa pelo Belo mediante o esplendor e a glória.

 

 ATUALIZAÇÃO

O ALTRUÍSMO COMO VIA DO AMOR: AS 7 RAZÕES E FORMAS DE COMO AMAR OS INIMIGOS E DEIXAR AS MÁGOAS PARA TRÁS.

De posse desse conhecimento, não é tão difícil perceber o local que Jesus quer chegar: aquilo que alguns chamariam de a “ética dos contrários”, ou seja, a ética da contradição que conduz o homem à uma atitude de dou para que me dês para um fazer sem esperar nada em troca, ou seja, um ser humano desapegado, despretensioso ou então, altruísta.

 

Certa vez, disse Antoine de Saint-Exupéry: “O amor verdadeiro começa lá onde não se espera mais nada em troca”.

Ou então, Augusto Branco: “Quando tu aprenderes a dar sem esperar nada em troca, receberás sem ser necessário retribuíres”.

Porém, na mesma intensidade, disse Caio Fernando Abreu: “Quando tu aprenderes a dar sem esperar nada em troca, receberás sem ser necessário retribuíres”.

 

Como vimos, faz parte da nossa natureza nutrirmos um comportamento contrário ao ensinamento moral de Jesus, porém, o que é a essência do cristianismo senão lutarmos contra a nossa natureza que está desfigurada pelo pecado? Nesse sentido, é possível traçar alguns passos para se tornar uma pessoa altruísta. Porém o que é o altruísmo? Altruísmo é um tipo de comportamento encontrado em seres humanos e outros seres vivos, em que as ações voluntárias de um indivíduo beneficiam outros. É sinônimo de filantropia. No sentido comum do termo, é, muitas vezes, percebida como sinônimo de solidariedade. A palavra "altruísmo" foi criada em 1831 pelo filósofo francês Auguste Comte para caracterizar o conjunto das disposições humanas (individuais e coletivas) que inclinam os seres humanos a dedicarem-se aos outros. Esse conceito opõe-se, portanto, ao egoísmo, que são as inclinações específica e exclusivamente individuais (pessoais ou coletivas). O conceito do altruísmo tem a importância filosófica de referir-se às disposições naturais do ser humano, indicando que o homem pode ser - e é - bom e generoso naturalmente, sem necessidade de intervenções culturais (como religião e crença). Na doutrina cotidiana, o altruísmo pode apresentar-se em três modalidades básicas: o apego, a veneração e a bondade. Do primeiro para o último, sua intensidade diminui e, por isso mesmo, sua importância e sua nobreza aumentam. O apego refere-se ao vínculo que os iguais mantêm entre si; a veneração refere-se ao vínculo que os mais fracos têm para com os mais fortes (ou os que vieram depois têm com os que vieram antes); por fim, a bondade é o sentimento que os mais fortes têm em relação aos mais fracos (ou aos que vieram depois).

Ou seja, Altruísmo, como dito, é agir em prol de outra pessoa, sem pensar em como nos beneficiaremos ou seremos recompensados por tais ações. Uma pessoa verdadeiramente altruísta carrega esse traço consigo em todas as ocasiões. Atos isolados, como fazer uma doação para uma instituição de caridade ou se voluntariar ocasionalmente em uma organização, são ótimos para ajudar quem precisa e servir de inspiração para os demais. Entretanto, não quer dizer que alguém seja altruísta somente porque os fez uma ou duas vezes, por isso, o altruísmo é também um estilo de vida de modo que, em todas as situações, por mais insignificantes que possam parecer, a benevolência é trabalhada. A pessoa altruísta possui comportamento e modo de pensar igualmente altruístas, considerando as necessidades do meio antes de pensar nas próprias. Além do mais, consegue levar uma vida equilibrada mesmo dedicando o seu tempo ao outro.

A pessoa altruísta:

 

·         conecta-se facilmente com outras;

·         é humilde e raramente deseja ser reconhecida por suas ações;

·         é fonte de inspiração para os demais;

·         age conforme a sua intuição e os desejos de seu coração;

·         mede as dificuldades das ações as quais executará para se preparar e não deixar ninguém na mão;

·         respeita os outros da mesma forma que respeita a si mesma;

·         não oferece explicações espalhafatosas para o seu comportamento. Um simples “eu fiz porque eu quis” é o suficiente para elas;

·         possui relacionamentos sinceros, mesmo quando são superficiais;

·         enfrenta as dificuldades sem abaixar a cabeça;

·         apoia as pessoas queridas de sua vida (e as não queridas também);

·         perdoa desavenças facilmente;

·         administra emoções negativas com maestria;

·         conhece os seus limites e não está disposta a cruzá-los, pois sabe que é necessário se cuidar para ajudar o máximo possível de pessoas; e

·         tende a ser idealista.

 

Ou seja, não é muito difícil perceber que para conseguir por em prática os pedidos de Jesus presentes no Evangelho de hoje, somente uma pessoa altruísta pode ser capaz, ou então, aqueles que conscientes de suas dificuldades, mesmo assim, escolhem em tentar ser melhores, pois só conseguimos mudar em nós aquilo que é necessário se assim o quisermos! Do contrário, nada podemos fazer.

Pensando nisso, elenco 7 formas de procurar amar os inimigos e deixar as mágoas para trás:

1-      Entenda que seres humanos erram;

2-      Se possível, pense na situação como se não tivesse envolvido;

3-      Analise, com cuidado e sinceridade, as suas atitudes, principalmente se você errou.

4-      Exerça o perdão, de si mesmo, acaso necessário e principalmente daquele que o ofendeu;

5-      Você não é obrigado a fazer o bem a todos, mas desejar, sim!

6-      Viver a dor é necessário e justo, mas, depois de um tempo, mantenha o foco nas coisas realmente importantes;

7-      Trate a todos de forma educada.

 

Tais práticas quando imersas na Palavra de Deus possibilitam a configuração cristã de uma pessoa altruísta: “⁠Isso de amar sem esperar nada em troca, é bonito nos contos de fadas. Mas na vida real, um amor maduro exige um delicado equilíbrio entre dar e receber, pois tudo aquilo que não é mútuo, é tóxico." Bert Hellinger.

 

CONCLUSÃO COM ILUSTRAÇÃO
O AMOR A DEUS E AO PRÓXIMO DEVE REFLETIR-SE EM TODOS OS ATOS DA VIDA

            Havia um homem de cultura e instrução em extremo limitadas, cuja adolescência transcorrera nos trabalhos de alfaiataria. Desde sua entrada para o convento da Ordem dos Franciscanos, os superiores lhe confiaram a confecção dos hábitos dos frades, julgando ser essa a missão mais adequada para ele.

            Ora, não tardou muito para que se torna visível a prática da virtude manifesta quando aquele simples e pobre homem costurava aquelas roupas e exercia o serviço à ele confiado: aquele que quase nenhuma sabedoria possuía, na verdade, era o mais sábio de todos. Contudo, conforme os anos fora passando e ao término de sua vida, encontrava-se ele em seu leito de morte prestes à partir para o Pai, de modo que, após receber os sacramentos, dirigiu-se aos frades que o acompanhavam e implorando, disse: “Por favor, tragam-me a chave do céu!”. Aflitos, pensaram tratar de um delírio prévio que aquele enfermo estava passando, porém, receosos de não realizarem a última vontade de um irmão tão querido, procuraram diversos objetos: livro de orações ou piedade, relíquia de algum santo de devoção, crucifixo, as Sagradas Escrituras, ao ponto que, sem lograr a satisfazer a insistência daquele agonizante, um frade que lhe era muito próximo, ao ter uma inspiração, apanhou uma agulha usadíssima e entregou ao agonizante. Este, agradecido e aliviado, tomou com mãos trêmulas o pequeno instrumento, osculou-o, persignou-se e com ele, entregou sua alma a Deus.

            Aquela pequena agulha era a “chave do céu” daquele Frei que durante tanto tempo, por meio dela, fez o bem, amou como Jesus amou. E nós, será que temos tido uma “Chave do Céu”?

 Sem. José Demétrio de Camargo
3º ano de Teologia.

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